ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

Refugiando-se em Nosso Naufrágio Pessoal

A recorrente tragédia humanitária das populações empurradas por conflitos, que se repete agora na crise dos refugiados sírios, é a expressão em grande escala do temor atávico que todos temos do Outro - medo no qual os agrupamentos sociais embasam tanto o estabelecimento de vínculos de pertencimento quanto a identificação de antagonistas em quem projetar o Mal. A solução passa, pois, por uma investigação e reforma de algumas das convicções mais centrais do Eu que se entoca atrás do arame farpado de nossa própria psicologia amedrontada.


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Os primeiros tempos dos sobreviventes foram de grandes dificuldades. Arremessados a uma ilha tropical desabitada por um grave acidente aéreo, precisaram adaptar-se a um ambiente desconhecido e potencialmente hostil, encontrar refúgio contra as agressões da natureza, construir moradias improvisadas, obter comida, estabelecer barreiras e sistemas de proteção contra predadores naturais, organizar e distribuir o trabalho entre os integrantes do malfadado grupo de acordo com as diversas capacidades e qualificações, cuidar dos enfermos, mediar os inevitáveis conflitos.

A situação descrita é fictícia, e creio que a esta altura não terá sido difícil à maioria dos leitores identificá-la como o ponto de partida do celebérrimo seriado “Lost”. Cultuada, incensada, discutida e, claro, criticada, a série arrebanhou hordas de seguidores, e pode-se argumentar com razoável grau de certeza que um dos motivos desse magnetismo, mesmo que em parte inconsciente, foi a recapitulação simbólica operada pelo enredo, por meio da nem-tão-inédita-assim analogia da ilha, das vicissitudes e esforços necessários à construção de qualquer sociedade organizada, e de como esse processo necessariamente impõe uma espécie de tensão dinâmica entre desejos individuais e necessidades coletivas. A saga dos passageiros do voo Oceanic 815 é a mesma de todos os humanos sobre a Terra.

Dito de outra forma: nos agrupamentos humanos, o processo de “conviver para sobreviver” pressupõe outro, o de “restringir (ímpetos, desejos, antipatias mútuas, etc.) para conviver” e assim impõe toda sorte de interdições e regras que, ao mesmo tempo em que asseguram nossa sobrevivência, selam nosso destino de eternos descontentes e frequentemente desconfiados uns com os outros, como esmiuçou Freud em seu essencial “O Mal-Estar na Civilização”. A ilha de “Lost”, pequeno curral de desventuras do grupo de esfarrapados viajantes, reproduz em microcosmo o próprio processo civilizatório que nos cobra o altíssimo preço da disciplina dos instintos mais grosseiros para que possamos contribuir paro nosso belo quadro social, como diria Raul Seixas.

Se “Lost” de fato embute essa metáfora, teremos que concordar que a fidelidade da simbologia inclui a revelação que não tarda a acontecer e a forma como os personagens reagem a ela: a ilha não era, na verdade, desabitada. Havia outras pessoas, e de um modo muito interessante e revelador, uma vez descobertos, esses “Outros” (assim oficialmente batizados), passam a constituir a maior de todas as ameaças que a ilha oferecerá por anos e anos de seriado, deixando no chinelo javalis, temporais, colunas de fumaça negra e toda sorte de riscos.

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O perigo está nos Outros, o inferno são os outros, o homem é o lobo do homem: a mensagem vem sendo reiterada ao longo dos tempos de variadas formas. A tensão dinâmica da sociedade é eco amplificado de outra tensão, interna, íntima e pessoal: a suspeita primal, sempre latejando no fundo, de que meu semelhante possa ser meu algoz. As grandes religiões – que muitas vezes alçaram-se à condição, entre outras coisas, de responsáveis pela ordenação social – sempre tiveram isso muito claro: mandamentos como o “não matarás” ou o “amai-vos uns aos outros” só existem, como qualquer lei, porque temos a quase irrefreável tendência a fazer o oposto, bastando para isso a mínima justificativa - e somos excepcionais autojustificadores: na nossa mente, o Outro sempre pode ser aquele que vai levar embora minha comida, roubar meu lugar de pessoa mais divertida e inteligente da mesa, tirar meu emprego, eleger quem eu não quero que ganhe.

O agrupamento contorna essa tendência que temos de devorar-nos “preventivamente” uns aos outros estabelecendo interdições legais ou morais, mas também por meio de outro artifício, que a é a criação e construção de laços sociais baseados em algum tipo de identificação, seja ela étnica, linguística, profissional, política, etc. A lista de coisas de que se pode lançar mão para justificar um hino, um brasão ou um aperto de mão secreto é quase ilimitada. Os sobreviventes de “Lost” tinham em comum exatamente o fato de terem todos enfrentado o mesmo evento cataclísmico. Isto foi mais que suficiente para produzir a identificação de grupo e, ao mesmo tempo e por contraposição, atribuir a priori aos “Outros” o papel de inimigos.

Essa atribuição de “funções” é inevitável na criação de identidades, tanto individuais como de grupos, e como tal é mais um fenômeno espelhado pela série do qual temos exemplos sem conta, espalhados pela Geografia e pela História. Bandeiras e hinos têm apelo irresistível: falam diretamente ao nosso desejo de pertencimento. Ao mesmo tempo, solucionam nossa necessidade igualmente atávica de um “Outro” para temer, odiar, culpar e/ou zombar.

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Depois dessa rápida, superficial e necessariamente incompleta exposição sobre algumas características centrais do que é ser humano, serão realmente surpreendentes as cenas da operadora de câmera húngara passando rasteiras em refugiados? Costumamos usar a expressão “desumano” em referência a acontecimentos como esse, mas é forçoso reconhecer, se estamos dispostos a discutir com isenção o colossal flagelo das populações migrantes em fuga, que se trata de uma ação profundamente humana. E assumir, como nas palavras do pensador Terêncio, que “nada do que é humano me é estranho”.

Mas atenção: não ser surpreendente não significa não ser chocante. Pois o choque não deve depender de uma surpresa que já não nos é mais possível sustentar, expostos que estamos a uma torrente sem fim de atrocidades (todas, insisto, visceralmente humanas). Reagir com surpresa seria, em última análise, reproduzir o mecanismo, qualificando a jornalista ou qualquer pessoa envolvida na opressão aos refugiados como “Outros”, os nossos Outros particulares, prontinhos para o nosso desprezo. Ao contrário, ao reconhecer o quanto de humano e “nosso” há nessa atitude, estamos abrindo o caminho para um entendimento do cenário menos nublado por dualismos simplórios e mais disposto a assumir a responsabilidade por ele. A jornalista húngara é tão humana quanto o refugiado que ela chuta. E só para que fique claro, não se surpreender tampouco quer dizer concordar ou aprovar. Também não quero ser o seu Outro, dileto leitor.

Nada disso é novo, mas provavelmente, pela primeira vez na História, já não temos mais espaço social e sequer físico para segregar Outros que possamos culpar. Da mesma maneira que já não há mais como “jogar fora” nosso lixo, posto que não existe “fora” no circuito fechado do meio-ambiente do planeta, tampouco há lugar para a tranquilizadora operação psicológica de eximir-nos de nosso Mal empurrando-o para o nazista, o vizinho, o adversário político, o pobre, o muçulmano, o déspota, o negro, o rico, a jornalista húngara, o imigrante ou o refugiado.

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Matizar o Outro, vendo-o como espelho e continuidade do Eu e não mais como ruptura e antagonista, é pois o grande desafio que nos espera nos novos tempos, talvez o maior que já nos tenha sido colocado, pois o Outro é uma construção mental que parte de uma criação do ego, integrante da delimitação da fronteira entre o que sou eu e o que é que me rodeia; como tal, é também uma das produções psíquicas mais elementares, verdadeira pedra angular de nossa percepção de mundo.

Se formos capazes dessa operação, estará pavimentado o caminho para fazer funcionar os mecanismos sociais de construção de laços e de identidades em nível transnacional. Seria, uma vez mais, a transposição de uma operação individual (a diluição ou, para ser contemporâneo, a “ressignificação” do fantasma do Outro) para o âmbito coletivo (o reconhecimento de que o maior, mais real, mais importante e paradoxalmente mais visível dos laços permanece até hoje à espera de um agrupamento de nível global que o tome por base: o laço que nos une a todos como membros de uma mesma espécie). Essa transposição do individual para o coletivo está na essência da própria definição de Ética, nas palavras de Bertrand Russell, e vai também ao encontro do que diz Umberto Eco a respeito do único berço possível para a Ética (“[ela] nasce com o encontro do Outro”). Mais do que isso, parece ser a única via possível no novo mundo globalizado.

Tudo começa, portanto, com indivíduos dispostos a reformar-se, e ao fazê-lo, restabelecer em novas bases os laços em que se assentam nossos agrupamentos. Não pretendo desconsiderar de modo ingênuo os imensos obstáculos políticos, geopolíticos, econômicos e sociais que se interpõem a esse processo, sem falar de antagonismos étnicos milenares; mas meu ponto é que absolutamente todos esses óbices são construções humanas e que por isso emanam de nossa natureza mais essencial. É, pois, de meter o dedo ali, no cerne do ser, que haverão de sair as soluções.

Tentei oferecer uma abordagem sobre a tragédia dos refugiados de um ponto de vista humano, mais que humanitário, e deliberadamente apolítico. Mas não posso deixar de voltar a Bertrand Russell quando ele, em decorrência de sua própria definição de Ética como transferência de desejos individuais para a dimensão coletiva, acaba por resumi-la a um componente da Política – na verdade, é possível dizer que, para Russell, Ética e Política são a mesma coisa. Talvez não haja forma mais eloquente de dizer que a solução ou mitigação dos gravíssimos problemas que enfrentamos hoje em dia como sociedade passa obrigatoriamente por duas atitudes às quais muitos de nós opõem resistência, seja por apatia, desconsolo ou mero cinismo: precisamos reformar a nós mesmos e precisamos fazer Política. No fundo, são faces da mesma moeda, assim como o menino morto na praia, o policial que escreve números nos braços dos estrangeiros e o jovem acorrentado a um poste não são Outros, somos nós, juntos na mesma ilha, e enquanto nos recusarmos a fazer o necessário para vivermos essa ideia continuaremos náufragos de nós mesmos, chutados, afogados, perdidos.

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Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
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