entre artes

Um olhar diferente sobre o mundo das Artes

Karlos Junior

..Desde criança é natural do Rio de Janeiro, músico que pode ser visto por aí portando uma flauta, também é desenhista canhoto e blogueiro que gosta de Ciência, Ficção-Científica, Cinema, Quadrinhos e tenta praticar algum esporte enquanto corre atrás de ganhar a vida pela Internet.

Um cadáver de poeta de Álvares de Azevedo interpretado por Bruno Dorian

O que acontece quando uma obra morta sobre a Morte revive em seus adeptos contemporâneos obstinados a darem novas formas à experiência literária? É exatamente o que fez Bruno Dorian - músico e ícone da cena gótica carioca que interpreta 'Um cadáver de poeta' - poesia de Álvares de Azevedo em um curta produzido pela equipe do Canal 'No Detalhe'.


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Ele é a encarnação do Gótico, na melhor acepção do que pode ser um gótico, perdido entre brumas e terras distantes, soturnas e idílicas da Ilha do Governador. Um caro e estimado amigo, desde os tempos imemoriais de Sussex e seu lar de criaturas mórbidas, transeuntes degenerados, périplo de ciganos desvirtuados entre as caixas de areia da Transilvânia.

Alguém sob a égide da Lua de sangue, maldita entre todas as noites eternas do puro Draculismo. Fogo-fátuo, mortalha dos abissais, gritos insosses e inquietantes de todos os filhos da Rainha dos Condenados. Aquele que atende aos chamados do mundo oculto, aquele que não pode ser convocado pelo nome, mas que sussurra nos gemidos agonizantes de todos aqueles que aguardam o beijo frio da máxima dama, que à todos estende a esquálida mão abaixo de sete encruzilhadas e sete círculos de fogo.

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Bruno Dorian, o jovem, a lenda, o mito. Meu amigo pessoal e eterno baterista da Banda Reforma, preso no retrato pintado entre sinistras sinfonias, lúgubres portais das trevas antes do amanhecer. Eis que é ele que nos traz esse curta e esta declamação interpretada de “Um cadáver de poeta” de Álvares de Azevedo – um dos mais fascinantes poetas que a literatura lusófona e o ultra-romantismo puderam conceber há mais de dois séculos. O curta é embalado pela sinistra trilha de ‘A última primavera‘, música da banda O Caso, também um legítimo representante da cena gótica carioca.

Um cadáver de poeta

Álvares de Azevedo

I

De tanta inspiração e tanta vida, Que os nervos convulsivos inflamava E ardia sem conforto... O que resta? — uma sombra esvaecida, Um triste que sem mãe agonizava... — Resta um poeta morto!

Morrer! E resvalar na sepultura, Frias na fronte as ilusões! no peito Quebrado o coração! Nem saudades levar da vida impura Onde arquejou de fome... sem um leito! Em treva e solidão!

Tu foste como o sol; tu parecias Ter na aurora da vida a eternidade Na larga fronte escrita... Porém não voltarás como surgias! Apagou-se teu sol da mocidade Numa treva maldita!

Tua estrela mentiu. E do fadário De tua vida a página primeira Na tumba se rasgou... Pobre gênio de Deus, nem um sudário! Nem túmulo nem cruz! como a caveira Que um lobo devorou!...

* Artigo concebido originalmente para meu outro blog (diferente.jor.br) e adaptado aqui para deleite dos leitores da Obvious.


Karlos Junior

..Desde criança é natural do Rio de Janeiro, músico que pode ser visto por aí portando uma flauta, também é desenhista canhoto e blogueiro que gosta de Ciência, Ficção-Científica, Cinema, Quadrinhos e tenta praticar algum esporte enquanto corre atrás de ganhar a vida pela Internet..
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