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Eis aqui a - despretensiosa - bossa nova

por em 05 de out de 2012 às 19:11 | 3 comentários

A efervescência criativa e cultural já existia em um cenário que contava com a orla da zona sul carioca, todos os seus encantos e com seus frequentadores assíduos da primeira parte do século passado. Indubitavelmente, são a estes encontros casuais e despretensiosos que atribuo o surgimento dessa bossa tão nova. Tão nossa.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes
Imagine um cenário que conta com a orla da zona sul carioca, bares, inferninhos, uísques levemente falsificados à mesa e a seleção dos mais incríveis compositores, cronistas, poetas e artistas da primeira parte do século XX. Imaginou? Pois bem. Seria impossível não brotar nada no solo incrivelmente fértil do Rio de Janeiro da década de 50 – onde os frutos são apanhados até hoje.

A bossa nova nasce muito antes de 1958, mas se conhece a partir deste ano por atribuição convencional de um reconhecimento gravado. Eis que surge o despretensioso LP “Canção do amor demais”. O sucesso deste disco era assegurado à voz de sua intérprete, Elizeth Cardoso, que curiosamente tornou-se a cantora escolhida por uma simples recusa da principal candidata, Dolores Duran. Seleção de beldades à parte, o LP tornou-se um marco para a música popular brasileira. A gravação ficou por conta da etiqueta “Festa” do renomado jornalista Irineu Garcia. Falo de grandes nomes nos dias de hoje, mas antigamente tudo era novo. A bossa não tinha intenção de surgir, Antônio Carlos Jobim não era um artista conhecido (a não ser pelos frequentadores do beco das garrafas), Irineu prendia a “Festa” tão somente a gravação de poemas recitados pelos seus poetas, e Vinícius de Moraes era o poetinha diplomata que somente tinha dado as caras enquanto - de fato - músico através da sua peça recém lançada, “Orfeu da Conceição”, quando começou a sua oficial parceria com Tom. As coisas eram miúdas, menos o conteúdo do disco – para nossa sorte. A batida diferente do violão de João Gilberto, combinada com a inteligência musical do até então ainda não maestro Tom Jobim, contava com letras de Vinícius e a voz da inesquecível Elizeth. Não é à toa que esse pontapé inicial mais se assemelha a um gol de meio de campo.

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Graças à “Chega de Saudade”, faixa do LP “Canção do amor demais”, despontou-se uma liberdade de criação jamais vista na música brasileira. A produção se mostrou intensa. Havia composições inéditas que a todo tempo transformam-se nas músicas mais tocadas e eram disputadas às tapas pelas intérpretes da época. A bossa nova surgiu a todo vapor, e com ela revelaram-se grandes nomes da MPB; falo de Tom, Vinícius, Baden, Chico, Dolores, Elizeth, Carlos Lyra, Bôscoli, Marcos Valle, Johnny Alf, Simonal, Sérgio Ricardo, Elis, Hime, Bethânia, Nara, Ary, Newton Mendonça, e uma infinidade de gênios.

Olhar o Cristo Redentor é confirmar a sensação que Tom Jobim sentiu ao escrever "Corcovado". Quem passa por Ipanema se lembra de sua garota. Sem esquecer-se de Copacabana, claro, que continua a princesinha do mar. Por comprovar que esse país ainda respira os ares da bossa nova, se faz necessário dizer que desejo tomar "água de beber" olhando a "tarde em Itapoã" passar, avaliando quantas vezes já não pensei que "só tinha que ser com você". E tudo o que me foi dito e traduzido "pela luz os olhos teus". Penso que "pra viver um grande amor" é preciso perder o "medo de amar", entregar-se à "felicidade" e declarar, ao menos uma vez: "eu não existo sem você."

Esse foi o movimento cultural que levou o nome do Brasil a outras nações por seu caráter singular e absurdamente inovador. Em todo o mundo, a nossa “garota de ipanema” foi aplaudida, ganhando até novas interpretações. Olha, é bem certo que o jazz norte americano de Stan Keton se entrelaçou com o violão de João Gilberto e com o piano de Johnny Alf, mas isso é caso de encantamento musical. O ritmo é nosso. Somos donos da imortal bossa nova.

 

Artigo da autoria de Samara Araújo.
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Comentários

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Mayara

Segunda vez que leio esse texto e mais uma vez fiquei arrepiada! Fechei os olhos e consegui visualizar estes "encontros casuais e despretensiosos" que me fazem ter a certeza que eu nasci na época errada. Viva a bossa nova. Viva a nossa bossa!

GLÁUCIO SOUZA

"Um cantinho, um violão" é com esta paz que vive até hoje nossa maravilosa Bossa. Samara foi eternamente feliz em suas palavras quando fala em "despretensiosa". A Bossa Nova é uma tradução daquelas tardes em paz embaladas em torno do poetinha vagabundo. SAMARA, quem dera tod mundo fosse assim feito você! A vida é pra valer, a vida é pra levar, Samara linda, SARAVÁ!
LINDO TEXTO!

Quanta gentileza, Gláucio! Sinto-me muito honrada ao ter um comentário desses vindo de você, um verdadeiro entendedor da bossa nova. Beijo!

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