entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

O que explica o sucesso de Avenida Brasil?

Sim, falar sobre novelas parece algo inaceitável a pessoas que vivem em um meio cada vez mais cult. Acontece que a teledramaturgia é tão artística quanto o cinema ou os seriados que você tanto ama, desde que seja bem elaborada e nos faça refletir sobre algo que o cotidiano nos joga na cara todos os dias. Só porque é popular, não significa que seja ruim. E é por isso que o texto de hoje fala sobre a Avenida Brasil.


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A novela que fez o Brasil parar. Nunca antes na história desse país, esta frase fez tanto sentido.

Jargões à parte, o fato é que Avenida Brasil foi um sucesso. Mas o que explica este êxito inegável? É o que as próximas linhas tentam descobrir.

Suspense Eu já havia decidido não assistir mais novelas. Depois de ter visto alguns capítulos de Fina Estampa, acreditava realmente que a novela brasileira tinha caído no mais do mesmo e não passava de futilidades.

No entanto, por conta de um destes eventos do destino, precisei esperar uma carona justamente na casa de dois amigos que estavam assistindo o primeiro capítulo da novela.

Não tive como escapar: logo nas primeiras cenas, o suspense imperava nas imagens, na sonoplastia, nas falas e na interpretação.

E foi assim que não tive como me render: o que aconteceria nas cenas seguintes? Como não querer ver com os próprios olhos? Foi assim praticamente durante todo o enredo. Sim, houve aquela parte que de tanto suspense o desânimo e a raiva tomavam conta, causando momentos de tédio. Mas difícil negar: o suspense, da forma como foi mostrado, foi um dos trunfos da novela.

Sonoplastia Sim, eu sei. A trilha sonora de Avenida Brasil talvez seja uma das piores dos últimos tempos, para quem não curte música popular.

Mas a sonoplastia, convenhamos, inovou os padrões e fez muitos corações dispararem e deixou alguns nervos à flor da pele. O momento certo e o tom certo traduziram a tensão das cenas em sons.

Muito utilizado em filmes e seriados, a trama soube aproveitar o recurso de maneira eficiente, fazendo-o cumprir sua finalidade: provocar sentimentos e prender o público.

Personagens Improváveis Uma mocinha que se veste de um jeito mais 'masculinizado', mesmo assim sem perder a delicadeza. Uma vilã que usa cabelos em um corte mais clássico, roupas claras e comportadas, o verdadeiro disfarce de que quem fez a jogada e pose de boa moça, mãe de família e mulher fiel.

Dois homens ocupando o cargo de mocinhos: um completamente comum, que poderia ser qualquer outro homem fisicamente falando; outro com alguns distúrbios, como sonambulismo e alcoolismo, traumas que foram controlados e superados ao passo que o personagem ganhava força para superar os seus medos.

Um vilão no estilo mais banana possível: submisso, fraco, covarde e sem sucesso em seus golpes, mas que em momento algum foi cômico, ao contrário do que acontece em outros pseudo-vilões.

Crítica social Sem esterótipos escrachados, diversas questões sociais foram sutilmente criticadas.

No núcleo da zona nobre, socialites interesseiras beirando à futilidade passaram a trama toda brigando por causa de um homem rico.

Empregadas que odiavam a patroa se comportavam tal qual ela na hora de governar seus 'serviçais'. O oprimido virando opressor, na primeira oportunidade.

O questionamento sobre a instituição família que não precisa, necessariamente, ser composta por pai, mãe e filhos. Assim como outros valores morais foram postos em dúvida em diferentes oportunidades.

Um segredo muito bem guardado Diferente de outras novelas, não houve aquele fuxico descontrolado em que a cada capítulo novas pessoas descobriam o tal segredo para chantagear os envolvidos. Pelo contrário, em diferentes situações, o mistério era mencionado, com pistas intrigantes.

Uma grande aliada Sim, como em qualquer outra novela, houve coisas desnecessárias e maneiras de carregar o suspense até os últimos minutos, coisas que às vezes irritaram. Além disso, por ser uma arte que lida com a massa e com o que é popular, a trama precisou recorrer a certos recursos para se manter, o que é natural.

Mas a questão é: se não fosse a internet, Avenida Brasil teria sido o sucesso que foi?

A Rede Globo, número um em teledramaturgia no Brasil, já teve enredos tão bons ou melhores que este. Todos tiveram seu merecido êxito. Talvez, a trama também tivesse o mesmo alcance em outras épocas, mas não seria a mesma coisa.

Isso porque, sim, novela é uma das infinitas vertentes artísticas, unindo drama, cinema, entre outras artes. E, como toda e qualquer obra, recebe influências históricas e sociais, fatores responsáveis por torná-la única.

Em uma aula de literatura, certa professora disse que para se tornar um clássico literário, o livro precisa inovar na maneira como a narrativa se desenvolve, instaurando o novo, mas sem fugir de seu contexto.

Foi isso que Avenida Brasil fez: uma trama totalmente inovadora, cujo centro foi além da inveja e da ambição ou de frustrações amorosas, colocando em evidência a necessidade de justiça ou o instinto de vingança.

Outras novelas já fizeram isso, sim, concordo. Mas a maneira como foi construído, o enredo foi uma novidade. E se não fosse o poder do mundo virtual, as coisas teriam levado um rumo diferente, certamente.

Por isso, é possível dizer que a Avenida Brasil teve uma grande aliada, sem a qual não teria obtido o sucesso estrondoso: a internet que, hoje, está em seu ápice no Brasil, incentivando comentários, críticas e questionamentos.

Para finalizar, os diretores, autores e atores merecem o seu louvor. Cada qual à sua maneira soube simplesmente dar o melhor de si para que os personagens ganhassem vida e destaque, independente do papel que tinham na trama. E de uma coisa eu sei: a partir da semana que vem, precisarei arrumar outras distrações para o horário nobre. Alguma sugestão?


Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui..
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