entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

Ainda sentimos os sofrimentos do jovem Werther?

Um romance romântico e trágico. Esta pode, facilmente, ser a definição para "Os sofrimentos do jovem Werther" que comoveu todo um país quando foi lançado e que até hoje é considerado um marco para a Literatura Universal. Mas, em um mundo tão diferente daquele que aparece nas páginas que compõem a obra, seríamos capazes sentir esta comoção? Teria este livro ainda o poder de mexer com o homem moderno?


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Romantismo puro, depressão, tristeza profunda, sacrifício e amor platônico são palavras que resumem todos os sofrimentos que o jovem Werther relata em suas cartas.

Escrito no século 18, publicado no ano de 1774, um dos livros que deu início ao movimento que ficou conhecido como Romantismo, na Alemanha, hoje é considerado um clássico da Literatura Universal.

À época de sua publicação, a obra foi apontada como motivo de inspiração a uma série de suicídios ocorridos no país. Desde então, é vista como um exemplo de como a Literatura pode agir na sociedade. No prefácio da edição comentada, da L&PM POCKET, há os seguintes dizeres: "O bispo, Lorde Bristol, chegou a acusar Werther de ser uma obra imoral, que levava os jovens a se suicidarem".

Com estas informações em mãos, a leitura teve início e tinha como propósito responder: sentirei na alma os sofrimentos do jovem Werther? E, indo mais além, seria a sociedade atual capaz de sofrer tanto quanto o rapaz?

As almas mais sensíveis podem dizer que sim, os menos românticos podem dizer que não. O mais apropriado é deixar as sentimentalidades de lado e entender a importância desta obra para o mundo da Literatura.

Antes de falar sobre o livro em si, vale lembrar que não podemos julgar o passado com os pensamentos e ideias de hoje. Não há como comparar o que aconteceu e o que se passou na cabeça dos jovens que se suicidaram com o que os jovens de hoje poderiam sentir ao ler este livro.

São épocas diferentes, mundos totalmente distintos e, consequentemente, percepções únicas e exclusivas.

Falando especificamente sobre o romance, a princípio, o enredo parece simples, sem maiores expectativas, já que há tempos o desfecho foi revelado e é conhecido por aqueles que gostam de literatura.

No entanto, não subestime a criatividade e a maestria de Goethe. Valendo-se de um recurso chamado verossimilhança, o escritor consegue nos convencer de que quem de fato cria as cartas é um jovem desesperado por não conseguir lutar contra um amor impossível.

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O grande triunfo do autor, contudo, é a forma como ele desenrola o enredo, criando um narrador nada ingênuo e que não desperdiça uma única palavra. Cada frase, cada linha e todas as páginas têm um único propósito que é conduzir o leitor aos caminhos, sentimentos e ansiedades vividos pelo protagonista, Werther.

Dessa forma, somos obrigados a continuar, a chegar até o fim para saber como se deu o último suspiro do jovem.

Para dar início à primeira parte, a voz que abre o romance é a do editor que foi quem compilou as cartas de Werther e, em seguida, termina de contar a sua história.

As primeiras cartas servem de introdução para que possamos saber quem é o jovem: um pintor, apaixonado pela natureza e que preza não somente a espontaneidade, valorizando ainda as boas conversas, a sinceridade e os bons livros, a boa música e a arte como um todo.

Sua sensibilidade vai se moldando ao longo das confissões que faz ao amigo (Guilherme) e nos relatos dos diálogos que trava com outras figuras que aparecem no romance. Mais uma vez: todas as conversas e as demais personagens que surgem servem para contextualizar, justificar e apresentar o desfecho trágico.

A cada nova acontecimento, o desespero, a depressão e o desânimo surgem e aumentam tomando proporções insuportáveis ao jovem que vê sua amada presa em um casamento que os impede de ser felizes. Aliás, não fica claro se é a união matrimonial a responsável pela infelicidade de Werther, já que não temos como saber se um dia Carlota (ou Charlotte) seria capaz de retribuir o amor que o jovem sentia por ela.

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Carlota não pode se defender e, tal qual acontece com Capitu, as descrições feitas pelo protagonista não deixam clara a posição da donzela, que ganha voz apenas quando o editor re-assume a narrativa. Apesar disso, os sentimentos de Carlota são apresentados de forma a levantar mais dúvidas do que certezas.

Dessa forma, Goethe transmite ao leitor a responsabilidade de 'julgar' Carlota e a de descobrir se ela algum dia amou Werther ou se tudo o que o rapaz sentiu não passou de devaneios e ilusões.

Embora o amor não correspondido ou impossível seja o motivo central da trama, o que está em jogo são os sofrimentos que o jovem Werther sente e não consegue superar. A obsessão dele em relação à amada é angustiante e traz uma série de questionamentos, muitas vezes, sem respostas.

Isso porque apenas o indivíduo sabe o tamanho de sua dor e, sofrendo, somente ele pode decidir o que fazer e o que não fazer para superar. A depressão, doença muito estudada atualmente, toma conta de Werther que não vê outra saída a não ser dar fim à própria vida.

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Quando lançado, Os sofrimentos do jovem Werther foi um sucesso. E como já dito, não foram poucos os suicídios a ele atribuídos. No entanto, houve quem lesse o livro e nada sentisse além da catarse e da compaixão para com o jovem Werther.

Foi o que aconteceu comigo e é isto que pode acontecer com você. Então, como não sentir os sofrimentos do jovem Werther? Embora a sociedade atual não veja mais o casamento como uma privação, afinal o divórcio está aí para isso, existem centenas e talvez infinitas formas de amores impossíveis e não correspondidos, responsáveis por causar verdadeiros estragos na vida de uma pessoa.

Os mais sensíveis, os depressivos e os amantes sem reciprocidade podem sim se comover com Werther e apoiá-lo. Foi isso que aconteceu quando o livro foi lançado e não tem como ser diferente por mais que o mundo tenha mudado. Afinal, o ser humano continua o mesmo, alimentando os mesmos sentimentos, as mesmas dúvidas e angústias.

Impossível fugir e não sofrer com Werther. E por isso este livro continuará vivo pela eternidade, mexendo com os nossos sentimentos e imaginação. Alguns, depois de ter a última página concluída, podem se perguntar: "o que é que tem de tão comovente neste livro? Eu não vi nada."

Outros podem ainda ver sua vida ali descrita e as consequências disso ninguém pode prever, assim como as infinitas conclusões que cada leitor pode tirar ao encerrar a sua leitura que tem uma única certeza: não será desperdiçada.


Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui..
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