entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

Quando a arte fala da morte

Neste dia de finados, que tal ver a morte por outro ângulo? Ou melhor, por que não encontrá-la na arte? A literatura e a música têm muito para falar sobre a morte e, por isso, hoje, a ideia é falar sobre ela a partir da única coisa capaz de imortalizar qualquer essência: a arte.


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Dizem por aí que a arte imita a vida. Ou que a vida imita a arte. Acontece que a arte também imita a morte ou, ao contrário, a morte imita a arte.

Determinar o que vem antes e o que vem depois foge às nossas mãos e palavras. Nos resta, portanto, admirar a beleza sublime que existe neste ciclo sem fim nem começo que passa pela vida, pela arte e pela morte.

Um dos 'papéis' da arte é expressar sentimentos humanos e transmitir, de uma forma totalmente subjetiva, aspectos da nossa realidade, imprimindo medos, angústias e anseios, dentre outros sentimentos, que podem ser felizes também, por que não?

Como hoje é dia de finados, data reservada para lembrar os mortos, vamos dar um minuto de atenção à morte encontrada na arte literária e na música. Os títulos e artistas que aparecem nesta breve relação merecem sim muito mais que um minuto de nossa atenção.

No entanto, o objetivo desta espécie de lista é apresentar textos literários e uma canção que falam sobre a morte, e a partir disso, pincelar algumas impressões que eles causaram em quem vos escreve e que pode causar em você, caso surja o interesse em ler os contos e poemas e ouvir a música apresentada.

Então, vamos à lista?

Dentro do universo literário, o primeiro título de obras que falam sobre a morte é Crônica de uma morte anunciada, escrita por Gabriel Garcia Márquez.

Resumindo, este livro conta a história trágica de um rapaz que é assassinado. Como o título sugere, sabe-se que haverá uma morte e que a tragédia já é de conhecimento, conforme é possível perceber ao longo das páginas, de algumas pessoas.

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O enredo pode ficar em segundo plano, quando a intenção é falar sobre os sentimentos que ele desperta: no começo, surpresa e a noção de que não, vai ficar tudo bem com Santiago Nasar; depois, angústia e aquela vontade de gritar: [email protected]#! ninguém vai fazer nada? Por fim, a sensação que toda morte causa: vazio, tristeza, decepção, saudade, arrependimentos e assim por diante.

Uma obra literária se consagra justamente quando consegue despertar algum sentimento, a famosa catarse. E o melhor é que cada um sente a sua própria catarse e ninguém pode roubá-la ou destruí-la. O que acontece ao final de uma leitura, fica apenas entre você e o livro.

Por isso, lembro de Crônica de uma morte anunciada no dia dos finados. Não conhecemos a sensação de estarmos mortos, mas todos sabemos como é perder alguém. E ao acompanhar o dia do assassinato de Santiago, nos apaixonamos por ele porque nos apaixonamos por personagens. Não queremos que a sua morte anunciada aconteça, como não queremos que isso aconteça com quem amamos...

Outro título que não poderia deixar de ser lembrado é Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan. No conto, o foco das interpretações fica por conta da insignificância do homem depois de morto. Ou a falta de respeito que se sobressai quando não há nenhum vínculo afetivo com aquele simples defunto. Ou qualquer outra coisa que você possa sentir e interpretar ao ler o conto.

uma-vela-para-dario.png Crédito da imagem: escrevendo com imagens

Ao longo de suas poucas páginas, o enredo desperta uma série de sentimentos: curiosidade (afinal quem era Dario?); indignação, pois nada é feito para socorrer o homem que aos poucos cai sem vida no chão; compaixão, já que, embora prevaleça a multidão curiosa e insensível diante da morte, há um ou outro personagem que se compadece e se importa em deixar o fim trágico de Dario mais 'humano'; e, por fim, a tristeza que a danada da morte insiste em provocar naqueles que se sensibilizam com o conto.

Ainda dentro do mundo da literatura, o poema A morte do Leiteiro, de Carlos Drummond de Andrade, também dá vida à morte através das palavras. O título, na verdade, dá nome a uma pequena narrativa poética, que mostra as consequências das casualidades do destino. Usando o lirismo, o narrador apresenta todo um cenário, também no sentido de realidade, até chegar ao desfecho, que é a morte do leiteiro.

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Aqui, mais uma vez, graças à beleza das palavras, diversos sentimentos são provocados, desde a terrível sensação ao se dar conta da fragilidade da vida até a revolta que surge quando se sente que houve injustiça.

Por fim, encerramos este tipo de lista que mostra a arte falando sobre a morte com a música Canto para minha morte, de Raul Seixas.

No caso desta canção, a morte, apesar de desesperadora, é vista como algo encantador, como um espetáculo criado única e exclusivamente para cada um de nós. No início, a letra nos mostra o que deixaremos para trás, quando a morte chegar e que, mesmo sabendo da sua chegada, não podemos prever nem como e quando ela virá nos 'beijar'.

No refrão, fica clara a as dualidades de sentimentos:

"Vou te encontrar vestida de cetim, Pois em qualquer lugar esperas só por mim E no teu beijo provar o gosto estranho Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo morte, morte, morte Que talvez seja o segredo desta vida Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida."

canto-para-minha-morte.jpg Créditos da imagem: Daniel Brandão

Os títulos mencionados formam uma pequena constelação de um infinito universo artístico que trata a morte.

Estas e outras manifestações artísticas nos fazem pensar, mesmo que por instantes, sobre ela, que nos espera, sem hora marcada. Como encará-la? Esta é uma escolha que cabe a cada um de nós. E, enquanto ela não chega, o que faremos para distraí-la e despistá-la?


Priscila Yamany

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