entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

Sobre o que falava Machado de Assis?

Ciúme, vaidade, falsidade, loucura, hipocrisia. Lendo assim, parece até que as obras machadianas são pessimistas ou, com o perdão da palavra, realistas. No entanto, nem um destes dois termos define Machado, que sempre vai além do que esperamos, criando milhares de entrelinhas em cada frase, em cada capítulo, em cada romance, conto ou crônica.


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Todo mundo sabe, mesmo não concordando, que Machado de Assis é o maior escritor brasileiro. Até hoje, suas obras são citadas e mencionadas entre as melhores da Literatura Brasileira e (porque não?) Universal.

Terror na vida de quem vai prestar vestibular, Joaquim Maria Machado de Assis não põe medo em ninguém, pelo menos não desse jeito, já que seus personagens e seus enredos são sim assustadores, especialmente para quem decide ler suas obras e as leva a sério.

Isso porque o fundador da Acadêmia Brasileira de Letras trata de assuntos cotidianos, que mexem com o imaginário do público. Ah, isso, todo mundo faz, não é mesmo? Você deve estar se perguntando. Sim, isso todo mundo faz, mas não aos moldes machadianos.

A grande sacada de Machado de Assis não é a temática e sim a maneira como ela é apresentada ao leitor. Romances que falam sobre ciúme existem aos montes. Contos que gritam hipocrisia também. No entanto, o que faz com que os especiais sejam assim tratados e se tornem clássicos é o modo como acontece a construção do enredo.

O que quero dizer é que os fios de uma narrativa devem ser tecidos de forma única, bela e surpreendente. Todo escritor que se preza se vale de ferramentas nobres, buscando na mente humana questões que incomodam e que precisam ser pensadas. Com isso em mãos, o autor mergulha em tais problemáticas, buscando lá no fundo de sua alma, o que ninguém ainda pensou nem conseguiu expressar.

Por isso, antes de escritor, os autores são observadores. Prova de que Machado soube observar é o ensaio Machado de Assis: o enigma do olhar, de Alfredo Bosi, que desvenda esta nuance machadiana.

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E o que os olhos de Machado observaram? A sociedade carioca de sua época, buscando referência ainda em outras grandes obras de escritores como Victor Hugo, Goethe e Cervantes.

Então, ele passou para o papel suas impressões e, de maneira subjetivamente encantadora, faz com que os leitores tentem desvendar o mistério da alma, não apenas daqueles que viveram no século 19, mas do ser humano como indivíduo, que convive com seus medos, ambições e dúvidas.

Justamente estes três sentimentos poderiam resumir a temática machadiana. As dúvidas ganham vida com Bentinho, enquanto a ambição pode ser vista em Simão Bacamarte e isso apenas para exemplificar.

Os exemplos!

Dom Casmurro fala sobre o ciúme, e este é o gancho que muitas pessoas usam para interpretar a obra. O romance, porém, é muito mais que isso. O narrador deixa nas mãos do leitor a conclusão, oferecendo pistas que podem não passar de verdadeiras 'ciladas', como diria o prof. Dr. Ildo Carbonera, em sua dissertação de mestrado, cujo título é A Emboscada Machadiana.

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O grande lance, portanto, não é o ciúme em si (tema), mas a dúvida que guia toda a narrativa e nos leva a um desfeche sem esclarecimentos. E pare para pensar um pouco: se Machado fosse tolo, ele teria acabado com a grandiosidade do livro em dois toques. Ele poderia, por exemplo, encerrar a narração com o casamento de Capitu e Bentinho, que viveriam felizes para sempre. Ou ainda, seria possível, caso ele fosse um escritor ingênuo, armar um flagra ou mesmo um 'desflagra', fazendo com que Bentinho realmente descobrisse que Capitu e Escobar não o traíram. E assim por diante...

Já em O Alienista, a ambição ganha forma no objetivo do Dr. Simão Bacamarte, que insiste em decifrar a loucura. O grande feito do conto está também na forma como o enredo se desenvolve, conquistando o leitor pela curiosidade em saber até que ponto a veemência do Dr. pode chegar. O desfecho, surpreendente, ganha forças a cada página, e mesmo assim é imprevisível.

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E a resposta?

Por isso tudo, a pergunta feita no título não é fácil de responder. Já que para pensarmos na genialidade machadiana é preciso considerar mais que os temas tratados em suas obras. É preciso desvendar as entrelinhas de suas narrativas, buscando os detalhes que nos mostram o ciúme, a ambição, a vaidade, a loucura e demais sentimentos humanos de um jeito antes nunca visto, de um jeito que apenas Machado de Assis poderia conceber.


Priscila Yamany

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