entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

Quando o escritor ama a literatura

Ele inspira outros escritores. Cativa seus leitores com a beleza de suas palavras. Emociona e comove ao mesmo tempo em que desperta sentimentos turbulentos, como a raiva e a angústia. Aproveita todas as oportunidades para evidenciar seu amor pela literatura. Vive e respira arte. Assim é Rainer Maria Rilke, autor de "Cartas a um jovem poeta".


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Há dois tipos de escritores: os que amam o dinheiro e os que amam a literatura. A frase não é minha. E se for sua, deixe seus créditos nos comentários.

Embora não seja de minha autoria, é uma verdade que aprendi com a vida e com as leituras que ajudaram a construir esta que agora vos escreve. E justamente por isso, a ideia pode ser de qualquer um ou pelo menos de quem já leu livros puramente comerciais e obras essencialmente literárias.

Por ora, não vou me emaranhar em tentativas de explicar a diferença entre o comercial e o literário, pois tenho comigo que se você se interessou por este texto, você sabe do que estou falando.

O caminho aqui é outro. As linhas percorridas hoje têm como objetivo mostrar fatos que evidenciam o amor verdadeiro de um escritor pela literatura - propósito que exclui totalmente explanações a respeito dos que se dizem literatos, quando o que eles amam mesmo é o dinheiro.

Para começar, o nome que motivou o escrito de hoje: Rainer Maria Rilke, autor de Cartas a um jovem poeta. Desta, que é considerada a sua obra prima, foram extraídos pensamentos que demonstram quando um escritor ama a literatura. O curioso é que ele escreveu o livro, mas morreu sem saber que suas impressões um dia seriam publicadas.

Tal como o título sugere, a obra traz cartas de Rilke, destinadas ao jovem Franz Xaver Kappus, que quis ter a opinião de um já renomado escritor a respeito de suas poesias ainda "imaturas".

Já na introdução, há uma máxima digna de um admirador. O próprio Kappus, ao encerrar sua apresentação, diz que "Quando fala alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar".

A frase, curta e direta, demonstra toda a sensibilidade do jovem poeta e é apenas um indício de que ele assimilou todos os ensinamentos a eles transmitidos através das cartas escritas por Rilke.

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Como as epístolas são todas integralmente compostas por indícios do amor puro e verdadeiro que o escritor sente pela literatura, alguns trechos ganham aqui forma de citação. Então, vamos aos fatos!

"...mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa."

"Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senho for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples 'Preciso', então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho deste impulso."

"Viva por algum tempo nesses livros, aprenda com eles o que parecer digno de aprendizado, mas sobretudo os ame. Esse amor lhe será retribuído milhares e milhares de vezes..."

"Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas."

"O senhor pode notar que copiei seu soneto (...). E agora lhe dou essa cópia, porque sei que é importante e uma experiência inteiramente nova reencontrar um trabalho próprio escrito com a letra de outra pessoa. Leia os versos como se fossem alheios, então sentirá de maneira mais íntima o quanto são seus..."

"Também a arte é apenas um modo de viver, e é possível se preparar para ela sem saber, vivendo de uma maneira ou de outra. Em tudo o que é real há mais proximidade dela do que nas falsas profissões semi-artísticas que, ao simular uma proximidade da arte, na prática negam e atacam a existência de qualquer arte."

Estas são apenas seis das inúmeras lições sobre a arte que podem ser extraídas de Cartas a um jovem poeta. O recorte, no entanto, foi feito porque os trechos escolhidos sintetizam de forma clara o amor que Rilke sentia pela literatura.

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Assim como faz Machado de Assis, quando escreve o ensaio crítico A Nova Geração, e Todorov, quando escreve A Literatura em Perigo, por exemplo, Rainer Maria Rilke mostra como pensa e age um escritor que realmente ama a literatura.

A sensibilidade nas palavras, o modo de entender a arte, o conhecimento transmitido sem pretensões autoritárias, a singularidade das ideias e a cumplicidade com quem se identifica. Tudo isso é facilmente encontrado nas linhas de Cartas a um jovem poeta. Tudo isso faz parte da essência de autores, quando eles são escritores que amam a literatura.


Priscila Yamany

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