entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

Consumismo é amor, só que não.

Em tempos de internet, acesso à informação e concorrência, muita concorrência, a alma do negócio é o 'amor'. Marcas e empresas fazem de tudo para conquistar clientes, emocionando, provocando o que há de melhor no ser humano. Mas não se engane. O objetivo final continua sendo o mesmo: ganhar dinheiro. Para não encarar essa realidade com um ar muito pesado, já que é difícil fugir, que tal ouvir músicas que falam sobre o assunto?


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Às vésperas do Dia dos Namorados, qual tema seria mais propício para escrever senão o amor? O consumismo, é claro. Afinal, os dois andam lado a lado quando o assunto é vender.

Pode parecer exagero, mas basta reparar nas propagandas, postagens e tweets mundo a fora que enxergamos o óbvio não tão óbvio assim: empresas de todos os gêneros, números e graus espalhando o amor para emocionar seu público e, o mais importante, aumentar as vendas.

É assim no natal, na páscoa, no dia das mães, dos pais, aniversários e, principalmente na internet, em qualquer outra época do ano. Sentimentalizando tudo, fica mais fácil convencer e chegamos ao extremo senso de que não ganhar nada nestas datas é uma ofensa e não presentear é falta de consideração. O mais absurdo ainda é que há quem presenteie sem pensar e acabe comprando só por comprar.

No entanto, encarar a realidade a partir deste prisma pode parecer terrível, já que, muitas vezes, não há fuga. Claro que você pode optar por comprar ou não certas coisas, ainda mais quando não há datas comemorativas se aproximando, mas o certo é que uma hora ou outra você vai ter que comprar - é tudo culpa do sistema (mais cômodo pensar assim, não?).

Felizmente, a arte, a nossa tão querida e doce arte, pode ser um refúgio, uma consolação. Especificamente com a música, podemos perceber o que há por trás do mercado de consumo, refletir sobre o assunto e encarar as coisas com um olhar mais crítico.

Algumas bandas se preocupam com esta questão - e mesmo que ganhem dinheiro com isso, a gente pode tirar proveito da reflexão proposta.

Antes de partir para as músicas, é possível antecipar uma das conclusões que as letras escolhidas permitem: há duas questões muito íntimas que têm um elo indissociável ao dinheiro e ao consumismo.

A primeira é a sobrevivência, que engloba os que trabalham para juntar dinheiro e que passam a vida 'ganhando' para sobreviver, mas nunca conseguem ter nada; a segunda é o mundo de aparências, que envolve a crença pia de que a melhor maneira de ser feliz é ter artigos de luxo.

Tudo isso faz parte da nossa realidade e invariavelmente estamos mais próximos de uma ou de outra. É fácil encontrarmos pessoas que passam a vida tentando chegar ao topo e passam por tudo isso sem sequer ter saboreado o gostinho verdadeiro de uma vida plena; assim como não é difícil encontrar quem gaste o que não tem para manter o mundo de aparências criado e incentivado pelo mercado de consumo, ou melhor, pelas marcas que, hoje e quando obtêm sucesso com suas campanhas publicitárias, são resumidas a duas pequenas palavras: 'muito amor', as quais deveriam significar muito mais e serem usadas excepcionalmente.

Agora, vamos aos fatos, ou melhor, às músicas. Para começar, a canção Rap do Real do então grupo Pedro Luís e a Parede. A letra cria uma cena familiar e típica das grandes cidades: uma feira lotada (ou qualquer outro lugar) de vendedores ambulantes. Quem já passou por um ambiente com estes ares reconhece facilmente o mote da composição.

Em uma única estrofe, toda a realidade do vendedor ambulante e do trabalhador comum é retratada:

"Com quantos reais se faz uma realidade? Preciso muito sonho pra sobreviver numa cidade grande jogo de cintura entre estar esperto e ser honesto há um resto que não é pouca bobagem"

No mesmo caminho, a música É fim de mês, de Raul Seixas, nos traz à tona o desespero que chega junto com o final do mês: as contas infindáveis para pagar. Recorrendo à ironia, a letra ridiculariza o fato de vivermos de prestações e mais prestações, tendo ainda que conviver com tudo isso sem ter condições de pedir pelo melhor:

"Eu já paguei a prestação da geladeira, do açougue fedorento que me vende carne podre que eu tenho que comer, que engolir sem vomitar, quando às vezes desconfio se é gato, jegue ou mula aquele talho de acém que eu comprei pra minha patroa pra ela não me apoquentar"

Raul vai além e evidencia ainda o mundo de aparências ditado pelas grandes marcas, que usam artimanhas ilusórias para vender seus produtos:

"Pra você ver que procurei, eu procurei fumar cigarro Hollywood, que a televisão me diz que é o cigarro do sucesso. Eu sou sucesso! Eu sou sucesso!"

Também chamando a atenção para o mesmo assunto, a composição Propaganda (Nação Zumbi) provoca, convidando o consumidor a pensar no que está comprando, mostrando que os produtos são mais bonitos nos comerciais e podem não ser o melhor ou o que as pessoas realmente precisam:

"Comprando o que parece ser Procurando o que parece ser O melhor pra você Proteja-se do que você Proteja-se do que você vai querer Para as poses, lentes, espelhos, retrovisores Vendo tudo reluzente Como pingente da vaidade Enchendo a vista, ardendo os olhos O poder ainda viciando cofres Revirando bolsos Rendendo paraísos nada artificiais Agitando a feira das vontades ... Sua propaganda não vai me enganar Como pode a propaganda ser a alma do negócio Se esse negócio que engana não tem alma?"

A letra mostra também o fato das propagandas terem um único propósito que é despertar a vontade, o desejo do consumidor que, ingenuamente se deixa levar pela beleza (pelo amor) dos comerciais.

Para encerrar, um clássico de um dos melhores discos da história do Rock: Money, do Pink Floyd. Unindo as principais ideias expostas até agora, a letra fala de trabalhar para pagar as contas, de luxo e do controle que o dinheiro exerce sobre algumas pessoas, deixando-as cada vez mais ambiciosas, egoístas e cegas.

Se tudo isso incomoda, nos resta tomar uma decisão e não nos deixarmos levar pela beleza e romantismo dos comerciais. Gastar conscientemente pode ser o primeiro passo. Continuar entendendo tudo pelo lado 'crítico' da arte também ajuda. Que tal?


Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui..
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