entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

Machado de Assis e a literatura brasileira do século 19

Em um texto de análise crítica a respeito do panorama literário no Brasil do século 19, Machado de Assis diz não concordar com o termo Realismo para definir uma escola literária, dá conselhos a poetas que foram apagados com a passagem do tempo (pouquíssimas pessoas conhecem ou se lembram deles) e se mostra uma pessoa humilde, mas ciente da beleza de seu trabalho.


machado-de-assis.jpg

O texto "A Nova Geração" foi escrito por Machado de Assis no ano de 1879 e foi publicado em dezembro do mesmo ano em Revista Brasileira, vol. II. Trata-se de um ensaio crítico a respeito da condição da Literatura Brasileira na época e das manifestações, principalmente poéticas, de escritores contemporâneos desse período, que, didaticamente, é conhecido como Realismo, denominação que, ao longo do ensaio, é evidentemente criticada por Machado de Assis, como será possível verificar mais adiante.

O ensaio é dividido em três partes:

- ideias e impressões sobre a situação da Literatura Brasileira;

- análise da criação poética de escritores em voga na época e, a partir de seus comentários, Machado oferece uma série de conselhos aos poetas;

- e a conclusão do autor.

As três seções serão detalhadas a seguir. Na primeira, Machado de Assis faz um panorama geral da situação da Literatura Brasileira, afirmando que a nova geração de escritores surgiu a partir do fim do Romantismo e que estava passando por um período de transformação e inovação, ainda buscando uma identidade própria. O autor defende que a poesia é uma necessidade virtual do homem e que, por isso mesmo, estará em constante transição, não devendo nunca repetir o mesmo movimento.

A respeito do fim do Romantismo, Machado diz que o período passou, acabou ou morreu porque, como todos os demais períodos, foi um movimento mortal. De acordo com o autor, no fim do Romantismo, o estilo poético já não fazia mais sentido, tratando de assuntos triviais e exagerando no sentimentalismo. Em consequência disso, os romancistas perderam a força e passaram a ser alvo de desdém para os novos poetas.

Para Machado de Assis, essa atitude de desprezo tomada pela nova geração de escritores fazia sentido, pois é normal que surjam outras maneiras de ver o mundo e que as antigas convenções sejam deixadas de lado. Para o autor, o maior exemplo de rompimento com o romantismo é o fim da musa romântica tal qual os românticos criavam. No entanto, Machado afirma que era necessário reconhecer que o Romantismo teve seu valor e que serviria de inspiração ou influência para as futuras gerações de escritores. Assim, os novos poetas deveriam buscar o que o Romantismo deixou de bom e reinventar tudo o que havia perdido sentido.

Ainda na primeira parte do ensaio, Machado de Assis diz acreditar que um fator determinante para o novo rumo que a Literatura Brasileira estava tomando é o rápido desenvolvimento da Ciência, que interferiu de maneira direta na criação literária dos novos poetas, despertando-lhes o otimismo e aumentando a fé ou a certeza de que a justiça existe.

Em seguida, Machado questiona a teoria ideal para a nova poesia e diz que, apesar das contradições, a definição mais acertada seria aquela que vê o novo poeta com “características acentuadas da nova escola, lógica fusão entre Romantismo e Realismo, porque une a fiel observação de Baudelaire e as surpreendentes deduções do velho mestre Vitor Hugo”.

Machado questiona essa concepção, apesar de aceitá-la, pois ele não vê relação entre Baudelaire e Realismo, termo que segundo o entendimento do próprio poeta, consiste em uma grosseira acunha. Ainda na primeira parte, Machado segue afirmando que Literatura e Política podem se relacionar, mas para que um texto seja literário, é preciso que um livro de versos trate de versos, não afirmando nem defendendo explicitamente uma ideia. O objetivo é a subjetividade e as diferentes interpretações. E a prova de que a Literatura pode manifestar impressões a respeito da Política é a musa inspiradora dos novos poetas: o canto ao Estado republicano e a Justiça.

Mais adiante, Machado de Assis cita os estudos de Silvio Romero, crítico literário que tenta criar uma concepção para a nova Literatura, afirmando que a recente intuição literária será o resultado da crítica contemporânea. Para Machado, essa definição, apesar de fazer sentido, é insuficiente, pois não basta à poesia ser o resultado geral da crítica do tempo, e como não deverá cair no dogmatismo, a definição deveria afirmar algo a mais.

Dito isso, Machado critica a definição de Realismo, que para ele é a negação da própria arte, não havendo nela nada que possa agradar ou render produtivamente a poesia. E para justificar-se, o autor cita pensamentos de grandes escritores da Literatura, como Sófocles, Vitor Hugo e Taine. Esse último é um crítico que diz que se a realidade fosse o objeto da arte, “o melhor romance ou o melhor drama seria a reprodução taquigráfica de um processo judicial.” O que, mais uma vez, significa que a Arte e a Literatura têm como princípio a subjetividade, a criatividade e o imaginário do escritor.

victor-hugo-biography.jpg Vitor Hugo, um dos grandes escritores que inspiraram Machado de Assis

Antes de completar a primeira parte do ensaio, Machado reflete a respeito da influência que a Literatura Europeia exerce sobre a Literatura Brasileira. Com relação a esse ponto, o ensaísta chega a duas conclusões: a primeira é que a influência deve ser cautelosa para evitar reprodução e cópia dos erros e dos defeitos da Literatura que serve como inspiração; e a segunda é que a métrica brasileira segue a metrificação utilizada na Europa, e que não há problema nenhum nessa influência europeia.

No parágrafo que conclui a primeira parte do ensaio, Machado de Assis discorre, brevemente, a respeito da questão do popular e do literário. Para o ensaísta, a imaginação, responsável pela criatividade e subjeção da escrita, a sensibilidade do poeta e o estilo são fundamentais para distinguir um poeta maior de um poeta popular. Ele afirma ainda, que os poetas populares têm seu merecimento, mas o poeta maior, que utiliza sabiamente os recursos estilísticos e literários terá sempre destaque para a crítica literária. Na segunda parte do ensaio, Machado faz breves análises dos principais poemas dos escritores mais ativos da época. As análises são concluídas com conselhos, que se seguidos, poderão auxiliar no aprimoramento dos poetas. A saber:

- Carvalho Júnior, que apresenta uma poesia sensual, com tom peculiarmente carnal, características que lhe garantiram alta qualidade literária em seus textos poéticos. Para Machado, Carvalho Júnior é um verdadeiro poeta, não apresentando versos de amador;

- Teófilo Dias, cuja poesia revela uma ternura melancólica que é expressa com doçura e através de versos formados de maneira elegante. Para Machado, a melhor característica de Teófilo Dias é a maneira como ele trata a tristeza, que muito corresponde ao sentimento do homem, não aparecendo nos versos apenas como enfeite. Além disso, o poeta sofreu interferências do tempo, seguindo uma nova tendência ao longo de seu trabalho e acolhendo a nova musa inspiradora: a justiça. O conselho de Machado de Assis para Teófilo Dias é que ele continue aproveitando as experiências do tempo, aprendendo amar a vida, que a vida o amará;

- Afonso Celso Júnior que já nos primeiros momentos de sua criação, ainda muito jovem, apresenta uma poesia carregada de estilo próprio e original, demonstrando uma tentativa de fuga de si mesmo, criando assim belas obras. Para Machado, a genialidade desse poeta consiste no fato de sua poesia ser totalmente subjetiva, não suplicando nem querendo convencer alguém sobre determinado assunto, contrastando sempre efeitos da realidade e da ficção poética. Sua conclusão sobre Afonso Celso Júnior é que o poeta sabe transformar a realidade a partir do seu imaginário, seguindo senso poético, com elementos de gosto e de estilo e com linguagem vigorosa. O defeito, entretanto, é o exagero, que segundo Machado de Assis é consequência da impaciência juvenil, e que, com o tempo, o poeta aprenderá a lidar com esse pequeno problema;

- Fontoura Xavier, poeta que não consegue fugir do dogmatismo político, o que, infelizmente, segundo Machado de Assis, está pondo em risco seu talento, rico em versos cheios, vigorosos e espontâneos. Aconselhando o jovem poeta, Machado diz que não é necessário negar as opiniões políticas, mas impedi-las de abafar suas qualidades poéticas, dando maior liberdade à imaginação e ao aprimoramento do estilo; - Vicente Magalhães é citado como outro exemplo de poeta dogmático, mas que em alguns versos consegue usar eficientemente os estilos poéticos. Para esse poeta, o conselho de Machado de Assis é que ele se atente mais à maneira de representar os objetos e de exprimir as mais diferentes sensações, e conclui afirmando que a crítica é severa, no entanto, necessária para o aprimoramento do poeta;

- Alberto de Oliveira, poeta que também está em período transitivo, buscando uma nova alma. E apesar de apresentar as qualidades da criação poética de Alberto de Oliveira, que são bonitas composições, versos com estrutura média, tom brando e ar gracioso, Machado faz duras críticas ao estilo do poeta, que para o autor, necessita de maior cuidado e atenção, pois lhe falta precisão, evitando versos confusos, obscuros e indecisos. Machado diz ainda, que o trabalho de Alerto de Oliveira, muitas vezes, apresenta-se como um sonho, sem formulação lógica. Para o ensaísta, esses defeitos do poeta são consequência da preocupação, que existe em sua criação, com o Realismo, que não é suficiente para a criação literária, pois tem como base o inventário, não o imaginário. Apesar disso, Machado acredita que o poeta conseguirá escapar dessa tendência, basta seguir seus conselhos: dar maior atenção à forma e ao estilo;

- Mariano de Oliveira que, segundo Machado de Assis, não possui o verso alexandrino, mesmo possuindo espontaneidade e vida e que se, corrigidos no estilo, poderiam ser considerados pertencentes a verdadeiros poemas. Para Mariano de Oliveira, o ensaísta dá um conselho em forma de metáfora, que trata da relação entre poesia e poeta. Resumindo, a metáfora significa que o poeta está com a poesia diante de si, mas não lhe dá atenção. E, que caso essa atenção se demore, a poesia lhe escapará, levando consigo a inspiração, o estilo e a imaginação, itens extremamente importantes para a criação poética;

- Francisco de Castro, poeta para quem Machado de Assis escreveu o prólogo do primeiro livro, no qual, o poeta já revelava espontaneidade e singeleza. Já nesse prólogo, Machado o aconselhava dar tempo à criação, pois assim seria possível aperfeiçoar o seu talento, que por vezes se mostrava exausto ou desinteressado. O livro, cujo prólogo foi de Machado, havia sido publicado um ano antes da análise que o autor faz no ensaio aqui estudado. Para o ensaísta, o poeta já apresentou certa evolução na sua criação poética, apresentando versos espontâneos, sopro poético, expressões felizes e comoções sinceras. Em seus versos, Francisco de Castro tenta fugir da realidade, tentativa arrogante para Machado de Assis, que considera a realidade boa, mas desprezando o realismo. Para o ensaísta, o poeta deve continuar aprimorando seu talento, valorizando a vida, a fluência e a animação de seus versos. Machado revela ainda a melhor característica de Francisco de Castro: a capacidade de tratar de assuntos opostos e contraditórios;

- Lúcio de Mendonça poeta que apresenta em sua criação duas correntes: uma pessoal e a outra política. A segunda possui aspirações partidárias, mas a primeira revela simplicidade nas ideias, sobriedade nos toques e verdade nas descrições, que produzem efeito poético a partir da leitura das páginas excelentemente compostas. Essa marca pertence à segunda fase do poeta, que já está mais trabalhada e lúcida. Para Machado, Lúcio de Mendonça possui o segredo da arte e seguirá aprimorando-o com o tempo;

- Ezequiel Freire, poeta que possui lirismo próprio e notas de sátira e humor. SegundoMachado, o poeta pinta quadros através de sua criação poética, cujas cenas são vivas e cruas, com versos cheios e energéticos. O único defeito é a extensão muito longa das páginas, o que não impede a expressão de sentimentos piedosos e lastimosos. O conselho do ensaísta ao poeta é eliminar a sátira, que por ser alusiva, restringe as interpretações apenas aos que conhecem intimamente o escritor. Para Machado, o riso que Ezequiel Freire tenta despertar ou provocar não é espontâneo, elemento fundamental para a graça. Machado conclui afirmando que Ezequiel Freire possui futuro promissor, assim como Afonso Celso Júnior, Teófilo Dias e Lúcio de Mendonça;

- Múcio Teixeira, último poeta analisado por Machado de Assis, é visto como um poeta de pronta inspiração, pois o ensaísta sente que seus versos são criados fácil e rapidamente, e são de boa qualidade. O ensaísta adverte que o poeta abusa do exagero, faltando-lhe limpidez e propriedade, efeitos que desaparecem quando o poeta é dominado pela comoção verdadeira e sincera, elementos, que de acordo com o conselho de Machado de Assis, devem ser mantidos, para que o aprimoramento poético aconteça em Múcio Teixeira. Na terceira parte do ensaio, que é a conclusão do estudo de Machado de Assis, o ensaísta afirma que a nova geração literária é composta por escritores talentosos, que possuem brilho e confiança, revelando certo desprendimento com o passado. Outra característica da nova geração é a forte ligação que os poetas mantêm com a Ciência.

Para Machado, entretanto, essa relação deve ser cautelosa, para não se tornar impostora e importuna. Outra advertência que Machado faz é em relação à tendência que os jovens poetas seguem de mostrarem-se superiores aos demais, enfeitando e ornando demasiadamente seus versos. Essa tendência é consequência da juventude encantada pela Ciência. O conselho de Machado de Assis, portanto, é de que a boa ciência foi feita para ser absorvida, naturalmente, pela sociedade de maneira geral, dispensando enfeites e ornamentos, assim, os versos devem ser ricos, mas devem garantir „acesso‟ aos leitores.

O mais interessante na crítica feita por Machado de Assis é a maneira como ele apresenta os conselhos aos poetas, afirmando que somente um escritor humilde estará disposto a ouvir críticas severas, tomá-las em nota e aproveitá-las para seu próprio aprimoramento. O Machado de Assis crítico é raramente levado em consideração, o que consiste em uma grande falha, pois é através de sua crítica que é possível perceber a genialidade do autor. Outra conclusão alcançada com a leitura do ensaio é que para se tornar um grande escritor, é necessária muita leitura. Leituras essas que são explicitamente referenciadas em sua crítica e subjetivamente expressas em suas obras literárias.

E, por fim, o detalhe principal do ensaio crítico se dá somente nas últimas linhas, quando Machado, humildemente, refere-se a si próprio como “um crítico que também foi poeta [...] que na crítica e na poesia, despendeu alguns anos de trabalho, não fecundo nem grande, mas assíduo e sincero”. Essas palavras revelam a grandiosidade do escritor, que muito contribuiu para a Literatura Brasileira, tanto em textos objetivos e críticos quanto em textos subjetivos e literários.


Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// //Priscila Yamany