entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

A síndrome do papel em branco

O desespero que parece saltar da página em branco que brilha na tela do seu computador. Antes de escrever, durante a elaboração do texto e depois, quando a única certeza é de trabalho feito.


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Este texto/desabafo é para quem trabalha com a escrita. Redatores, escritores, jornalistas, poetas, compositores, mas especialmente aqueles que trabalham com prazos, que precisam entregar um trabalho textual em tal dia, tal horário. O tema? Uma banalidade qualquer. Você já leu tudo o que tinha que ler sobre, elaborou frases de efeito em sua mente, só precisa passar tudo para o papel, quando ele, mais alvo do que nunca, te encara, te desafia, te esnoba.

Você sabe que é maior que ele. Que seu conhecimento é superior. Que você tem o controle, afinal, é só começar a digitar, deixar as coisas fluírem e pimba! Ali está você, aterrorizado/a, sem saber o que escrever, muito menos por onde começar. Então, levanta. Toma um café. Liga a TV. Ouve uma música. Respira. Volta a sentar. Pensa alguns minutos, se arma, mãos sobre o teclado e o cursor ali, piscando, sumindo e voltando, sumindo e voltando e nada.

Então, você pensa: tenho mais tempo. Vou deixar pra depois. E vai fazer outras coisas. No banho, você lembra que já tinha um título e uma introdução boa. Porque não lembrei disso quando estava escrevendo? Mais uma vez, o papel te chama. Com a aparente vitória ao seu lado, você senta novamente. Deixa um suspiro sair desesperado e começa a digitar. A mão dança entre as teclas e como um pianista durante seu melhor concerto, a sensação de dever cumprido pousa a mão em seu ombro.

Para por um minuto para reler o que foi escrito até agora e se dá conta que toda a empolgação não foi além de três linhas. São necessárias mil palavras e você não foi capaz de escrever três linhas. O mais aterrorizante é que foram quase 10 minutos de pura inspiração que não passaram de alucinação. A irritação toma conta, seguida de raiva. O alívio vem depois dos dedos doídos se chocarem na parede. Melhor espreguiçar, se alongar.

15 minutos depois, aquelas três linhas somem, de trás para frente, com o backspace pressionado. Mais lentamente, as mãos deslizam o teclado. Uma dúvida surge e referências são consultadas. Agora sim, as coisas parecem estar seguindo seu rumo certo. Você desconfia, se pergunta se está conseguindo mesmo, depois de tanta luta. Com medo, lê o que foi escrito até então. Corrige erros bobos, troca palavras, combina aquele sujeito que teimava em discordar do verbo. Segue. Tenta não se distrair. Evita olhar o que estão falando no Twitter. Ignora as vozes ao longe. Volta, lê e relê. Mais um gole de café, antes de encerrar. Escolhe a melhor frase. Se distancia do papel em branco, agora cheio de letras que juntas formam um sentido único, novo para você e seu possível leitor.

Por fim, lembra que foi assim da última vez e que provavelmente será assim na próxima. E foi assim que este e muitos outros ganharam vida. Será?


Priscila Yamany

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