entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

5 poemas fúnebres

A poesia é a melhor expressão dos sentimentos que afloram quando alguém querido parte. Como não sou poeta e poucos são, nada mais válido que nos voltarmos aos Grandes.


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Não é dia de finados, nem nada, mas todo dia é de falar sobre ela. A partida, a despedida, a saudade. Mais que saudade do que vivemos, a saudade do que poderíamos ter vivido. Quando recebemos a notícia, distante, por telefone, lembramos tudo o que vivemos com quem acaba de ir e, depois dos estágios do luto, paramos para pensar no que estaria por vir e por que diabos a vida tem que continuar. Mas continua. E como não somos poetas (poucos são), recorremos à poesia dos Grandes para nos confortar. Foi assim que surgiu o post de hoje. Boa leitura!

Dizeres Íntimos

É tão triste morrer na minha idade! E vou ver os meus olhos, penitentes Vestidinhos de roxo, como crentes Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade! ...) As minhas mãos esguias, languescentes, De brancos dedos, uns bebês doentes Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso, É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos ... (Sou tão nova!) Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ...” Responde a minha Dor: “Que linda a cova!” Florbela Espanca, in Livro de Mágoas

Tu? Eu?

Não morres satisfeito. A vida te viveu sem que vivesses nela. E não te convenceu nem deu qualquer motivo para haver o ser vivo.

A vida te venceu em luta desigual. Era todo o passado presente presidente na polpa do futuro acuando-te no beco. Se morres derrotado, não morres conformado.

Nem morres informado dos termos da sentença de tua morte, lida antes de redigida. Deram-te um defensor cego surdo estrangeiro que ora metia medo ora extorquia amor.

Nem sabes se és culpado de não ter culpa. Sabes que morres todo o tempo no ensaiar errado que vai a cada instante desensinando a morte quanto mais a soletras, sem que, nascido, more onde, vivendo, morres.

Não morres satisfeito de trocar tua morte por outra mais (?) perfeita. Não aceitas teu como aceitaste os muitos fins em volta de ti.

Testemunhaste a morte no privilégio de ouro de a sentires em vida através de um aquário. Eras tu que morrias nesse, naquela; e vias teu ser evaporado fugir à percepção. Estranho vivo, ausente na suposta consciência de imperador cativo.

Foste morrendo só como sobremorrente no lodoso telhado (era prémio, castigo?) de onde a vista captava o que era abraço e não durava ou se perdia em guerra de extermínio, horror de lado a lado.

E tudo foi a caça veloz fugindo ao tiro e o tiro se perdendo em outra caça ou planta ou barro, arame, gruta. E a procura do tiro e do atirador (nem sequer tinha mãos), procura, a procura da razão de procura.

Não morres satisfeito, morres desinformado.

Carlos Drummond de Andrade, in A Falta que Ama

Em Memória de Angélica

Quantas vidas possíveis já descansam Nesta bem pobre e diminuta morte, Quantas vidas possíveis que outra sorte Daria ao esquecimento ou à lembrança! Quando eu morrer, morrerá um passado; Com esta flor, morreu só um futuro Nas águas que o ignoram, o mais puro Porvir hoje pios astros arrasado. Eu, como ela, morro em infinitos Destinos que já não me oferece o acaso; Procura a minha sombra os gastos mitos De uma pátria que sempre deu a face. Um breve mármore diz a sua memória; Sobre nós todos cresce, atroz, a história.

Jorge Luis Borges, in A Rosa Profunda

Canção Póstuma

Fiz uma canção para dar-te; porém tu já estavas morrendo. A Morte é um poderoso vento. E é um suspiro tão tímido, a Arte... É um suspiro tímido e breve como o da respiração diária. Choro de pomba. E a Morte é uma águia cujo grito ninguém descreve.

Vim cantar-te a canção do mundo, mas estás de ouvidos fechados para os meus lábios inexatos, — atento a um canto mais profundo.

E estou como alguém que chegasse ao centro do mar, comparando aquele universo de pranto com a lágrima da sua face.

E agora fecho grandes portas sobre a canção que chegou tarde. E sofro sem saber de que Arte se ocupam as pessoas mortas.

Por isso é tão desesperada a pequena, humana cantiga. Talvez dure mais do que a vida. Mas à Morte não diz mais nada.

Cecília Meireles, in Retrato Natural

A Morte Chega Cedo

A morte chega cedo, Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida.

O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

Eu ia comentar poema por poema, mas as palavras já dizem tudo.


Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui..
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