entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

5 coisas que aprendi com Forrest Gump

Ao contar suas histórias, Forrest é mais que um narrador aos seus ouvintes. É quase um professor, mas não de literatura ou narrativa ficcional. Um professor da vida. E só depende do aluno, aprender ou não com suas lições.


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Sem querer atribuir uma finalidade 'moralista' ao filme, hoje, depois de assisti-lo novamente, parei para pensar em sua sutileza ao nos ensinar certas coisas. Parei então para pensar em como o ridículo pode ser justamente o inverso do que imaginamos. Quer algo mais ridículo que seguir as regras, nadar a favor da maré e levar as coisas a sério demais? E, o mais ridículo do ridículo, querer ser inteligente o tempo todo e negar quão estúpidos podemos ser.

Ninguém sabe de tudo. E a estupidez, na crueldade de seu significado, pode ser transformada, se ela vier acompanhada de algo a mais, se ela caminhar ao lado de minúcias que de tão grandiosas fazem toda a diferença. Foi estes detalhes que percebi hoje em Forrest Gump e que quero levar pra toda vida.

1. Leveza

Eu poderia usar a palavra simplicidade, ou humildade, mas estas duas palavras trazem uma carga significativa muito grande e, a meu ver, podem ser resultado de uma maior, muito mais bela e coerente: leveza. Ser leve pode significar muitas coisas, mas principalmente ser alguém menos sério, menos duro e menos grave, não apenas consigo mesmo, como também para com o mundo. No filme, a leveza de Forrest Gump pode ser notada em muitos trechos e de diversas formas:

- ele simplesmente não se preocupa em seguir regras de etiqueta, deixando suas emoções falarem mais alto, como acontece quando ele encontra o Tenente Dan Taylor ou descobre que sua mãe está doente e simplesmente se joga do barco, nada e corre em direção a eles;

- durante os dias como soldado na Guerra do Vietnã, ele se preocupa mais em ajudar seus companheiros e em observar as belezas naturais do cenário ao seu redor, em vez de se concentrar no seu dever de servir ao Exército Americano. Depois disso, fica feliz em estar vivo e desfruta de pequenos prazeres, como saborear um sorvete, enquanto seus ferimentos estão sendo tratados;

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- ao ser criticado ou zombado por suas ideias, Forrest não fica exatamente magoado. Ele, à sua maneira, encontra uma resposta e segue adiante, não dando importância aos comentários que poderiam lhe ferir e deixar marcas para sempre.

Estes são apenas alguns exemplos. E o mais bonito do filme, assim como deve ser melhor de observar no livro, é o contraponto destas características de Forrest em outros personagens. O próprio tenente Dan Taylor e Jenny são totalmente diferentes do protagonista e, sem sua leveza nata, deixaram a tristeza ou a raiva tomarem conta de suas vidas, aprendendo, com o tempo e com a convivência com Forrest, a se tornarem mais leves.

2. Desapego

A lei do desapego faz parte da vida das pessoas que querem se desprender das amarras sociais, que dizem que o melhor da vida é ter uma casa imensa, o carro do ano e roupas da moda e de alta costura. Forrest, inspirado sempre em sua mãe, não vê valor nenhum nessas coisas e, muito pelo contrário, sabe que nada disso é necessário para viver - note que não uso 'para ser feliz', mas simplesmente viver, já que a felicidade é relativa, muito relativa. Como sabe que nada disso acrescenta valor à sua vida, depois de ficar rico, no mercado de camarões, Forrest continua morando na mesma casa, doa dinheiro para a igreja, para o hospital e para a mãe de Bubba, amigo que fez durante a guerra.

Nenhuma dessas atitudes é pensada na recompensa ou na imagem de bonzinho que poderia ser criada em torno do contador de histórias. Ele simplesmente segue os ensinamentos de sua mãe, que sempre dizia algo como "precisamos de pouco dinheiro para viver, o resto é para ostentar".

3. Lealdade

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Ao longo de sua vida, Forrest vive encontros e desencontros, sempre marcados pela sua lealdade. Na infância e adolescência, sempre dizia que jamais deixaria de ser amigo de Jenny e assim o fez, mesmo depois dela ter fugido e desparecido tantas vezes. Durante a guerra, prometeu que faria negócio com Bubba e assim o fez, mesmo que seu amigo não tenha sobrevivido à guerra.

Com o tempo, a lealdade de Forrest é assimilada ou adquirida pelos personagens com quem convive. Prova disso é o tenente Dan Taylor, que cumpre sua promessa, assim que fica sabendo que Forrest comprou seu barco. Juntos, os dois ganham muito dinheiro e selam uma inspiradora amizade.

4. Dedicação

A dedicação de Forrest pode ser notada em boa parte do filme. É como se sua missão fosse se dedicar, com cuidado e carinho, ao acaso, sempre cumprindo e realizando as tarefas que lhe foram 'atribuídas', sem nenhum planejamento. Primeiro à guerra, depois ao esporte, em seguida, aos negócios e, por último, à paternidade. Nenhuma dessas 'missões' faziam parte dos planos de Forrest (que planos? Destino ou flutuar na brisa?), mas todas elas foram cumpridas com sucesso, graças à sua dedicação.

Essa característica do protagonista nos faz voltar à leveza e às outras minúcias que compõem o personagem. Se Forrest não fosse uma pessoa leve, desapegada e leal, teira ele realizado com sucesso tudo o que fez?

5. Dúvidas

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Graças à sua condição intelectual, por assim dizer, Forrest vive cercado de dúvidas. Muitos de seus diálogos, mesmo quando ele está contando sua história sentado no banco de uma praça, estão cheios de perguntas, muitas sem respostas e que nos fazem parar para pensar. Isso tudo, além das dúvidas práticas, referentes ao dia-a-dia e que evidenciam sua personalidade como um homem 'não inteligente', um homem estúpido.

Mais uma vez a pergunta: se Forrest não fosse estúpido, ele conseguiria levantar questões tocantes, no que diz respeito à vida, ao convívio e ao destino? Na verdade, as dúvidas de Forrest só mostram que ele é o menos estúpido dos homens, principalmente quando paramos para pensar nos aprendizados que ele faz questão de compartilhar com seus amigos, ouvintes e agora telespectadores.

Então, sem dúvidas (ou com muitas delas) hoje, eu aprendi e escolhi ser estúpida como Forrest Gump.


Priscila Yamany

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