entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

O mundo é um moinho - apenas para Cartolas

São raros os poetas que conseguem nos tocar com suas composições. Mais raras ainda, porém, são as pessoas que se comovem e se emocionam com seus versos. Cartola está aí para comprovar. Seu pequeno número de fãs também.


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Angenor de Oliveira, conhecido como Cartola, tem ainda outras alcunhas carinhosas, como Divino e Poeta das Rosas. Tais apelidos são apenas uma amostra da sensibilidade que moldou suas composições. O cantor, nascido no Rio de Janeiro, no ano de 1908, criou poesias marcantes, de tal forma que quem as conhece não esquece jamais, com o risco ainda de se emocionarem e se comoverem a ponto de sentirem lágrimas despontarem discretamente e escorrerem languidas pelo rosto.

Claro, isso é possível apenas entre os que tem alma de Cartola - sinônimo aqui usado para definir o que se aproxima de espírito dotado de certa sensibilidade, capaz de enxergar a vida, indo sempre além das aparências, fugindo do que é raso. Suas composições não são para qualquer um. Obviamente, qualquer pessoa pode ir de encontro às suas mais belas canções, para compreendê-las, contudo, é preciso abrir o coração e usar muito mais que o ouvido para senti-las de verdade. Piegas ou exagero? Pode ser, mas caso esteja indo nesta linha de interpretação, não se preocupe, Cartola não é para você.

De origem humilde, o Poeta das Rosas teve uma vida muito simples, até mesmo quando sua carreira chegou ao que podemos considerar 'auge'. Na verdade, a trajetória de Cartola é cheia de idas e vindas. Foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, segunda escola de samba do Rio de Janeiro, e durante este período (década de 20, 30 e 40) vendeu composições para cantores famosos, ganhando destaque com a voz de Carmen Miranda. Mesmo nesta época, continuou se dedicando a ofícios como tipógrafo, pedreiro, vigia noturno e até mesmo lavador de carros. Voltou a se destacar no cenário musical em 1956 e teve seu primeiro disco gravado apenas aos 66 anos. Embora tenha ganhado notoriedade entre os músicos e a imprensa a partir da década de 70, nunca chegou a ser um estrondoso sucesso. Talvez porque essa "realidade" não tivesse nada a ver com seu estilo de vida, com a sua pessoa e sua sensibilidade. Talvez porque o grande público não estivesse preparado para assimilar o que Divino transmitia em suas canções - afinal, são raras as pessoas que ouvem música para se emocionar; a maioria quer apenas se divertir e voltar para casa com lembranças repetidas.

Nesse sentido, deveria ser impossível, por exemplo, ouvir "O mundo é um moinho" e continuar a mesma pessoa após o último verso desta canção. Infelizmente, acontece. Para muitos, ouvir que "o mundo é um moinho, vai triturar seus sonhos mais mesquinhos" não quer dizer nada. Segundo histórias não comprovadas, Cartola compôs esta canção para a sua enteada, que teria abandonado a família para se prostituir. Há ainda outras teorias, defendendo que o motivo, na verdade, tenha sido uma decepção amorosa. Independente dos fatos que tenham inspirado Cartola, este poema cantado é um aviso, um alerta, capaz de mexer com quem quer crescer, ser alguém melhor. Não faz sentido algum, porém, para quem tem seus passos guiados pelo egoísmo ou mesquinhez.

Posso estar errada e pode haver exceções, mas pessoas mesquinhas não se importam com nada disso. Pessoas mesquinhas, na verdade, quase sempre se dão bem, porque para elas o mundo é dos espertos e incapaz de triturar seus sonhos, suas convicções. Na verdade, o mundo até pode ser um moinho, como disse Cartola. Seu efeito triturador, porém, só atinge os que se importam, os que sentem e os que realmente sofrem.

Ao final de sua vida, o Poeta das Rosas estava pobre novamente. Precisou voltar a morar com o pai, pois não tinha onde viver. Isso, depois de longos 40 anos sem contato. No reencontro, o pai de Cartola pede que ele cante justamente "O mundo é um moinho". Ao ver esta cena, é como se o compositor estivesse entendendo a mensagem criada por ele mesmo. Compreendendo o sentido de suas palavras. Logo após este capítulo, endividado e doente, Cartola morreu aos 72 anos. Depois de ter visto seus sonhos destruídos pelo mundo, não por ter sonhado com coisas mesquinhas ou egoístas. Simplesmente por ter sonhado com um mundo menos supérfluo, mais intenso e profundo, o que é facilmente visível em suas composições.

Angenor de Oliveira viu o mundo reduzir suas ilusões a pó. Assim como pode acontecer com qualquer um, exceto com os mesquinhos que dificilmente se sensibilizarão com qualquer fato ou moinho que atravesse o seu caminho. Por isso, o mundo é um moinho sim. Embora o seja apenas para Cartolas.


Priscila Yamany

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