entre meios

que vão do lapso à memória

Priscila Yamany

o mundo entre telas, versos, notas musicais, páginas, capítulos e livros pode sim ser mais envolvente que aqui.

De tanto escrever...

Acabei com o meu processo criativo.


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Redatora, escrevo todos os dias. Cumpro prazos, entrego textos. E, apesar de um dia ter acreditado, isso não me tornou mais criativa. Muito pelo contrário. Perdi o fio da meada, a linha de raciocínio. Escrevo somente sobre o que me pedem. Com um objetivo, um público alvo específico e um número X de palavras. Busco as imagens. Leio, reviso. Publico. Nem sei se estou fazendo isso direito. Ou certo.

E assim, neste processo que enche de letras uma tela em branco, vejo algo me escapar. Não sei dizer. Tenho tanto a falar. Quero muito escrever. Criar. Personagens. Histórias. Ficção. Poesia? Seria muito ousado. Não consigo nem iniciar uma prosa, quem dirá uma lírica.

Vai então um desabafo. Um suspiro. Talvez, jogando aqui o que eu sinto, toda a criatividade que pensei um dia existir, volte a bater à minha porta e a abrir um caminho que sei que é lindo, libertador. A escrita me renova. Assim como a leitura. Não posso perder isso. Não deveria deixar isso acontecer. Mas acontece. Está acontecendo. Aconteceu.

Gostaria apenas de saber se este é um mal individual ou coletivo. Algum outro redator aí, do outro lado? Me lendo e compreendendo as agonias que escrevi até agora? Se for para dizer que nunca passou por isso, nem me responda. Prefiro sofrer sozinha, sem saber que ninguém sofre como eu sofro, a saber que sou a única no mundo a padecer por isso.

Por outro lado, caso tenha passado por algo no mínimo parecido, faça o que mais gostamos de fazer hoje em dia: compartilhe. Escreva seus anseios. Deixe a sua dica. Uma sugestão de antídoto.

E eu, prevendo que alguém possa sim me ajudar, adianto que não estou vendo tudo isso acontecer sem lutar. Estou tentando. Juro. Por exemplo: estou lendo. Lendo muito. Os clássicos. A ideia era escrever sobre eles, para então, aos poucos, voltar a criar o que eu quero. Ainda não surtiu efeito. Madame Bovary mexeu muito comigo. Tanto que não consegui resenhá-la.

Além disso, estudo, pesquiso. Busco novas referências. Referência é tudo nessa vida. Mas e o medo de só reproduzir? De não criar nada novo, nada diferente? Nem arrisco dizer original, por que o que é mesmo ser original em um mundo onde tudo já parece ter sido criado? Este é um dos maiores temores de um/a redator/a, que um dia sonha em se tornar escritor/a. Não concorda?

Dito isso, me vem outra dúvida: qual é mesmo a diferença? Digo entre ser um redator e ser um escritor. Já escrevi sobre isso. Será que escrevi mesmo? Muito mais provável é que eu tenha só falado ou conversado a respeito com alguém. Nem lembro mais o que escrevo ou deixo de escrever. De tanto que já escrevi. Sim, já escrevi muito. Nem tudo foi publicado ou compartilhado. O medo de expor todos esses sentimentos é tão grande quanto a intensidade deste terror todo que estou tentando descrever aqui. Vale, no entanto, deixar no ar a questão. Numa dessas, vai que consigo fazer este texto chegar a alguém que um dia já passou pelas mesmas aflições e, a partir disso, consigamos aprofundar o assunto. Você toparia?

Apesar de tudo, tenho esperanças. Afinal, consegui publicar este breve recorte, sem antes apagá-lo como tantos outros que iniciei. Vamos ver se agora, a criatividade volta a engatar. Ou desanda de uma vez...

Crédito da imagem: Fogs' Movie Reviews


Priscila Yamany

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