Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite

Como sentir prazer com todas as coisas I

Relatos de um prazer feminino.


Tudo me instiga. O som das pequenas pedras se arrastando debaixo dos meus pés enquanto esses se deitam sobre seus corpos partidos pelo meu caminhar me deixa atenta as pequenas sensações de toque que essa entrega inevitável à gravidade pode gerar.

Meu corpo disposto pela manhã acorda com graça e inspiração quase todos os dias. Respirar profundo é quase um convite à abertura dos poros de todas as minhas partes. Sem perceber, me percebo viva por um milagre do universo e isso me faz ser grata a natureza reverenciando-a através do meu prazer, que se faz quase com atos inconscientes para mim.

margaret durow3.jpgFotografia por Margaret Durow

Dizem que perigo e uma certa dosagem de adrenalina potencializam a nossa capacidade de sentir prazer, e isso é absolutamente latente quando se vive com a percepção de um dia de cada vez, se despedindo da terra a cada ato, a cada movimento e pensamento. Saber da imprevisibilidade do próximo passo torna tudo mais gostoso. Saber que se pode morrer a qualquer momento faz com que a vida seja à flor da pele.

Meus dedos estão entreabertos enquanto cruzo uma rua cinza, sem nenhum verde para quebrar a arenosidade da sobrevivência moderna. Enquanto me carrego para algum lugar despretensioso de novidade, o cheiro de vida vem sendo trazido pelos ventos em aroma de perfume feminino saído do pescoço de uma moça bonita que passava, minhas narinas se prepararam para agarrar o doce ato da moça se perfumar para os ares, e elas se abrem quentes e úmidas.

As pontas dos dedos cortam os ventos frios e por alguns segundos me senti tocando uma consciência invisível, senti um amor estranho, que foi rapidamente transformado em um prazer melancólico que escorria pelos dedos a fio até fazê-los se entrelaçarem uns com os outros e trocarem calor e texturas entre si. Me sento em um banco de praça, o asfalto repassa o calor do sol para tudo ao redor e tudo fica quente, quase que derretendo... Começo a mudar de estado físico de sólido para líquido me transformando em gotas de suor escorrendo costas abaixo, elas fazem uma carícia lasciva que me molha até a ponta dos pés. Ninguém percebe que estou fazendo amor com gotas de água salgadas pelo prazer, ninguém perceber me alivia, pois se soubessem naquele instante do meu ato iriam querer me prender forçadamente na normalidade ou inexplicavelmente na loucura, me tirando o prazer de viver.

margaret durow2.jpgFotografia por Margaret Durow

Meus modestos caninos dilaceram a pele de uma manga, sua tez rosada por fora e dourada por dentro faz a boca virar um aquífero até o instante do primeiro contato. Ao colocar um primeiro pedaço na boca os pelos dela se soltam um a um, estou entregue a ela e ela a mim de uma das formas mais intensas de contato humano: a língua. Essa língua que conhece todos os meus segredos não ditos, todos os melhores beijos, os sabores de tudo que decido conhecer sem as palavras, mergulha agora em outro corpo, amarelo e doce, e ambos se acariciam se misturando de maneira irreversível até virarem somente energia dentro de mim, a física e a do prazer.

Descoberta-Discover1.jpgFotografia por Rafaela Werdan

Mergulho em uma piscina aparentemente mais molhada do que eu, e percebo meus cabelos flutuarem como nebulosas talvez flutuassem se tivessem um corpo. Faço movimentos circulares com a cabeça para os fios desenharem a ausência de forma na água me levando ao êxtase neste instante ao perceber a liberdade despretensiosa que a terra proporciona a uma parte de meu corpo enquanto as outras se libertavam intencionalmente até virarem calor molhado debaixo de minha pele, músculos e coração. Enquanto as pessoas caminham pelas ruas eu atravesso labirintos dentro de mim, vivo uma busca incessante para entender o porquê de tudo isso. Por que ter a habilidade de sentir prazer e felicidade com tudo? Que espécie de contato é esse que o universo está fazendo conosco? É tão assustador se sentir tão privilegiada por ser humana e ter consciência de tudo isso.

Uma fogueira foi feita dentro de uma floresta enquanto eu acampava, precisávamos do fogo para incitar a morte aos seres da noite e afastá-los de nossos frágeis corpos vivos quase que por um triz. Passei muitos minutos observando as formas desse fogo, seus contornos, danças e calor. Para no final tomar consciência de que o fogo não se encaixa em estado físico nenhum. Que ele é só uma energia gerada, fruto, talvez, da vontade do universo de unir o inicio e o fim no mesmo instante. Meus pelos se arrepiam com o toque brutal do calor e começo a me entregar ao desejo de conseguir resistir, mas não consigo, então, derreto, mais líquida que o comum.

margaret durow1.jpgFotografia por Margaret Durow

De todas as formas que já toquei, seja visualmente ou com o meu tato, as formas invisíveis dos significados infinitos que estão somente em nossa mente são as que mais gosto. A fantasia, imaginação, criatividade, desprendimento cultural, proporcionam, no final das contas, uma sinestesia incansável. Intensificam qualquer novo contato com o todo. O mundo adquire formas irresistíveis aos sentidos, pois começamos a sentir ele dentro de nós antes de senti-lo fisicamente. Tudo começa antes mesmo do pensamento. Para sentir prazer com todas as coisas é preciso não entender o que se está sentindo, pois percebo que a velocidade dos sentimentos ocorre mais rápido que a velocidade da luz, ou seja, que a velocidade do pensamento. Sente-se antes de saber o que se sentiu. Após se entregar as sensações, é preciso deixar a criatividade incitar a sinestesia. Chegar ao ápice sozinho, antes de compartilhá-lo com alguém. Sentir-se no mundo. Sentir prazer ao sentir-se no mundo. Suspenso por somente algumas leves tempestades de raios que guiam nossa mente em direção ao sol.


Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite.
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