Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite

Sobre amar as pessoas

Naquele ambiente cinza de cidade com poucas belezas naturais, com raios de sol lutando em um alongamento contorcionista entre os prédios para conseguirem tocar a ponta de nossos pés e finalmente serem vistos e sentidos por nós, o que mais me faz sentir de verdade, são as pessoas.


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Eu amo as pessoas, com todos os suaves poros que compõe a carne frágil do meu coração. Parece uma forma um tanto exagerada de se expressar, mas é do que é feita a realidade por trás do amor, um coração de carne poroso que sangra e cura o corpo inteiro dos segundos de morte até o segundo em que baterá novamente. Nada do que dizem tira esse amor de mim. Nem os Rocks políticos, nem as senhoras tristes, o açougueiro destruidor de corações, a mídia destruidora do amor que faz os corações baterem, nem os dias chuvosos destruindo muitas vidas humanas conseguem me convencer de que amar as pessoas não é a melhor escolha. Bem, no meu caso não é bem uma escolha eu sinto ou não sinto, não escolho muito bem.

img2.jpgCentro do Rio de Janeiro/Fotos: Rafaela Werdan

Andar pelas ruas do centro do Rio sentindo tudo ao redor é um de meus afazeres preferidos. Naquele ambiente cinza com poucas belezas naturais, com raios de sol lutando em um alongamento contorcionista entre os prédios para conseguirem tocar a ponta de nossos pés e finalmente serem vistos e sentidos por nós, o que mais me faz sentir de verdade, são as pessoas. Como eu gostaria de fotografar todas elas, todas, sem exceção. Elas com seus olhares e conversas triviais, gargalhadas, afazeres, divagações, instintos, e aprendizados. Ah, quantos aprendizados! Elas mesmas não percebem que estão aprendendo com tudo, em todos os segundos... A piada que o porteiro contou ao entregador de documentos fez esse jovem e cansado entregador rir fabulosamente sem se preocupar com o costumeiro amarelo em seus dentes que tiram dele a graça de viver. Nesse momento, ele aprendeu mais sobre humor, sobre valorizar a própria vida, sobre se conectar com desconhecidos, sobre o que fazer para rirem dele e não rirem também. Que gostosa sabedoria em dez segundos de riso.

img1.jpgFotos: Rafaela Werdan

O vendedor de pipoca que insiste em alimentar adultos com comida de criança tem esperança de que o cheiro da pipoca doce invada os herméticos edifícios do centro e tornem todos mais felizes. Quando eu comprei uma pipoca com ele, ele disse que gosta de pipoca desde pequeno e que a barraquinha era de seu pai. Ele não conseguiu se desfazer de um futuro melhor e permanece vendendo comida de parque de diversões em frente aos prédios cinzas. Sua profissão nos ensina a tentarmos ser melhores.

A menina que tropeça na poça d'água e suja todo o seu pé e pernas mesmo utilizando uma sapatilha, aprende que seus calçados foram criados para torná-la uma boneca e não para protegê-la, e nesse instante, essa descoberta a faz sentir-se mais selvagem do que nunca, ao perceber que a realidade da selva está em todos os lugares, até mesmo sobre as pedras polidas das cidades.

img5.jpgFotos: Rafaela Werdan

Senhoras sentadas na Praça da Cinelândia vendo com liberdade outro ângulo do corpo de estátuas mais velhas do que elas, e aprendendo novas partes do corpo humano não observadas até então; homens tomando sorvete de casquinha tentando quebrar a seriedade dos dias e no segundo em que sentem o sorvete mudar de estado físico em suas bocas, aprendem sobre leveza; entregadores nordestinos em suas bicicletas ouvindo música de sua terra natal e cantando alto para todos ouvirem a saudade que eles sentem sem sentir; o jornaleiro lendo as revistas novas que chegaram em sua banca; os seguranças dos prédios aprendendo tudo sobre si mesmos em seu silêncio mortífero e entendendo mais do que nunca a necessidade de repressão aos que não refletem sobre seus atos e prejudicam o outro; tem uma moça de vestido branco de bolinhas pretas levíssimo sendo levantado em uma daquelas saídas de ar sagazes presentes em algumas calçadas, ela estava com uma calcinha creme, e seus segundos de desespero para esconder o que um sopro de liberdade na cidade quis mostrar a fez refletir sobre a real importância da roupa e o porquê de ter que esconder o que não é mistério para ninguém há mais de dez mil anos; uma briga do outro lado da rua, um carro passou o sinal fechado, alguém quase morreu, o transeunte brigou feio- com razão- com o moço que dirigia disperso, eles aprenderam sobre o tempo, segundos antes e segundos depois.

Há muito de fantástico em todos os lugares. Em quase tudo há amor, e em tudo há sabedoria e esperança. Todos os lugares são os mais lindos, onde houver você, que está lendo e certamente é magnífico. Basta estarmos abertos para aprender sempre, que aonde formos, viveremos a grande aventura humana que é a de amarmos uns aos outros e sentirmos o maior e mais completo preenchimento que existe.


Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite.
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