Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite

A humanidade desaprendeu a viver, mas ainda dá tempo

Nos últimos tempos notei que para a maioria das pessoas viver não basta. O ato de negar a vida estando vivo é incoerente. As pessoas estão se negando a viver intensamente tudo o que tem para viver, se negando a exercer esta única alternativa que nos foi dada para experimentar a multiplicidade do Ser.


Mr. Blick.jpgFoto de Mr. Blick

Falar sobre a vida é falar sobre milhares de possibilidades finitas. Temos muito: um cérebro preparado para nos fazer viver e sobreviver a milhares de situações, temos pernas que nos levam para onde quisermos, temos mãos que moldam o universo ao nosso redor, temos os olhos para ver as cores criadas há bilhões de anos, lá na grande explosão. Temos o querer, o bem mais precioso humano, querer alguma coisa, escolher por alguma coisa. Na verdade, nada é mais valioso do que simplesmente existir, mas no final, nós morremos! Essas são as nossas milhares de possibilidades finitas que me refiro, pois diferentes de todos os animais, nós sabemos que morremos e isso é atormentador!

Viver não é fácil, é preciso sensibilidade para fazê-lo, se você não tem isso, sofrerá mais do que sentirá prazer. Se você for vazio e assim quiser permanecer, se não quiser ser preenchido por conhecimento e aprender um pouco de tudo, você padecerá de uma existência sem sentido. E essa falta de sentido não se dará por não sabermos de onde viemos e para onde vamos, não é de passado e de futuro que estou falando, me refiro ao presente. Você só existe no presente, e é este presente que deve ser preenchido de vida, o agora é tudo o que realmente temos.

20160531_143744_.jpgFoto de Rafaela Werdan

Percebo as pessoas ao meu redor tão preocupadas em ter coisas para sentir sua existência validada, mas não percebem a magnitude que é acordar todas as manhãs e perceber que ao respirar não sente dor alguma. Ou de simplesmente caminhar pelas ruas em todas as estações do ano e senti-las na pele. A magnitude de dar vida a alguma coisa, seja a uma planta, cuidar de um animal, transformar um alimento cru em algo comestível, utilizar seu corpo terrestre para nadar e notar as memórias de nossas formas marinhas antigas agora, no presente. Se conectar é a palavra! A humanidade está aprendendo a se conectar, eu acho. Estamos começando a viver em rede, mas ainda temos almas distantes do todo.

Como dizem os Índios: "eu não sou eu, sou o rio, a mata, a mulher, as crianças, as flores e os pássaros!". Essa é a nossa sabedoria antiga, perdida para o pensamento lógico linear. O que nos motiva a viver e a fazer qualquer coisa não é a lógica nem a razão, é o prazer e a emotividade. Os humanos buscam prazer, buscam satisfação pessoal, buscam ser amados e aceitos como são. Por isso, queremos ter coisas! Fomos ensinados de que ter coisas nos daria tudo o que precisamos emotivamente, no entanto, isso não acontece.

Tomoyuki shinohara.jpg Foto de Tomoyuki shinohara

Vivemos um surto no mundo de pessoas depressivas, ansiosas, sem ética, sem estética. Não há um culpado nessa história, há somente a história, que se fez como pôde ser feita. A lógica nos deu muito, nos deu o aperfeiçoamento da tecnologia que nos permite viver sem se preocupar com a brutalidade da morte a todo o instante, agora ela só chega aos 80 anos, se essa lógica funcionar.

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No entanto, estar no aqui e no agora, com toda essa tecnologia que nos possibilitou estender a vida e não saber viver sozinho nem coletivamente, é nefasto. Não é preciso muito para viver bem, basta estar presente dentro do próprio corpo, sentir ele, se perceber no outro. Notar em que se pode evoluir, melhorar como indivíduo. Notar de que maneira essa evolução pode influenciar a quem está ao seu redor e todas as outras gerações que virão de você. Geração não só de pessoas mas de todas as outras espécies vivas na biosfera! A próxima geração de peixes, de árvores, de pássaros...

Não devemos viver bem com o outro porque uma religião diz que assim deve ser, nem mesmo porque assim você obterá retorno financeiro (lucro), ou porque você não consegue viver sozinho, precisamos viver bem com o outro pois somos o outro. E precisamos saber viver bem com nós mesmos, gostar de quem somos, nos sentirmos úteis e amados, assim, devemos proceder com os que nos cercam, pois precisamos deles o tempo inteiro, de maneiras diferentes. È difícil amar a tudo, acho que é impossível, mas devemos saber conviver com as diferenças. Se o rio estiver poluído, não tem peixe, tem chuva ácida, tem doenças. Somos o rio. Se a mata for desmatada para fazer móveis ou carvão, o planeta esquenta e sofremos brutalmente. Somos a floresta. Se escolhemos consumir desenfreadamente, estamos nos desconectando do todo, pois o todo não suporta exageros, de nenhuma parte. A Terra tem um tempo de reciclagem, que não é o mesmo tempo do nosso acelerado consumo.

2-.jpgFoto de Rafaela Werdan

Não precisamos de roupa nova todos dias, nem carro novo todos os anos, nem de várias casas, variados relógios, sapatos... Não precisamos ter para ser. Você não é um músico, um homem rico, um homem bonito, uma empresária, uma poetisa... Você é um ser humano dependente da atitude de todos os outros humanos para que a sua existência tenha sucesso. Você é a sua subjetividade. Não somos um gênero específico ou a nossa profissão quando estamos tristes, com fome, com sono, com raiva, animados, fazendo exercício físico ou tendo orgasmo, somos humanos. E costumamos ser humanos a maior parte do tempo, com poucas diferenciações uns dos outros. A nossa subjetividade é o que importa e a nossa capacidade de viver bem em comunidade.

Viverão tempos interessantes quem souber viver, um tempo mais integrado do que qualquer outro tempo. Temos controle de tudo que iremos aprender, nós é quem escolhemos e descobrimos por nós mesmos, temos liberdade criativa, temos um lindo saber acumulado em agonia para ser descoberto. Temos o nosso corpo mais saudável, se assim quisermos, com o conhecimento da alimentação saudável. Pela tecnologia temos a possibilidade de fazer amigos em outros países, e conhecer a rotina da Terra naquele ambiente, pessoas, plantas, animais... A Terra não precisa de nós humanos para nada, diferente das formigas, e de seu incrível trabalho de fertilização, por exemplo. Sendo assim, deveríamos ver a nossa existência como um grande presente, e aproveitá-la da melhor maneira possível em comunidade.


Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite.
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