Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite

O que você ganha plantando uma semente?

O ano em que eu descobri a forma de vida mais plena do planeta.


6-.jpg Fotografia de Rafaela Werdan

Janeiro de 2016,

Amanheceu na Terra e em meu jardim. Acordei e vi uma luz nutritiva de todas as cores deitando sobre as terras juvenis de meus jarros. Tudo parecia normal, se não fosse um pequeno corpo verde se esgueirando com força de dentro do núcleo da Terra até a superfície buscando alcançar o Sol. Nada naquele momento poderia resumir o que eu sentia, só se uma palavra viesse do centro da via láctea, buscando expressar para todos os planetas e estrelas presentes nele um sentimento universal advindo da: Vida!

4-.jpgMinhas salsinhas crescendo/Fotografia de Rafaela Werdan

Plantei uma semente minúscula, em uma terra com restos de frutas comidas por mim. Restos de café, cascas de ovos... Uma semente que o espaço ao redor engole, que os pés esmagam e que as mãos não são boas o suficiente para segurá-la pois constantemente as deixam cair. Algo aconteceu que independe de mim. Eu não vi. Não criei um motor para guiar os seus caminhos. Não produzi o combustível. Não perdi quase tempo algum, enquanto ela crescia... apenas cedi algumas gotas d'água, e só.

5-.jpgMinhas salsinhas crescendo/Fotografia de Rafaela Werdan

Fiquei abismada observando aquela criatura pequena, quase tão antiga quanto a Terra. Sem motivo, ela cresce, respira e alimenta os outros seres. Era um pequeno bebê salsinha. Meus dedos eram gigantes violentos, não serviam para senti-la. Meus olhos eram somente lágrimas e embaçavam seu corpo disposto em centímetros, não me permitindo ver os seus detalhes. Seu aroma estava se formando conforme o vento a reconhecia no tempo. E eu ali. Grande. Com pernas para andar para onde eu quisesse. Com mãos que criam asas artificiais. Com olhos que enxergam além-Terra. Me percebi completamente dependente daquele pequenino ser para existir. Seu cálcio, que um dia virará leite dentro de mim para um novo humano. Seu sabor, que torna quase tudo comestível. E suas flores, ah pequenas flores, pequeninas e brancas, me mostrando a estética da vida. Como eu te amo.

8-.jpgSalsinhas adultas/Fotografia de Rafaela Werdan

9-.jpgFotografia de Rafaela Werdan

10-.jpgFlor da salsinha/Fotografia de Rafaela Werdan

11-.jpgFotografia de Rafaela Werdan

Sinto que somos uma família. Nos integramos. Respiramos juntas. Bebemos a mesma água. Comemos os mesmos legumes. Nos energizamos com o mesmo sol. Só que no final, é você quem me dá mais. De mim, você leva pouco. Já a partir de você, eu existo. De você salsa e todas as outras plantas. Das que alimentaram os dinossauros, para que eu pudesse estar aqui agora. Das que compuseram o cérebro dos meus antepassados primatas, que desde o inicio tiraram de suas raízes e frutos, algo diferenciado. Das microalgas no mar que ventilam meus pulmões e de todos os seres vivos. Daquelas que além do tempero de suas folhas nos dão legumes ou frutas, sem receber nada em troca de nós. Isso se configura como um dos maiores mistérios da vida: quando que a Terra decidiu criar as sementes? Por que cair uma fruta, que se não for comida, perde o seu sentido de existência? Por que tenho a impressão de que elas existem para alimentarem a vida, todos os tipos dela?

Acredito que descobrir isso, seria descobrir o motivo de tudo ser como é e o porquê de tudo existir. Afinal, tudo começa de uma semente, somos o reflexo bruto disso. A vida humana se produz de maneira bem semelhante a todas as outras formas de vida, inclusive a das plantas, nossas ancestrais! Uma semente com muitos genes diferentes, se mistura a minha Terra e ao meu núcleo e dali se faz algo novo. Vivo. Forte. Querendo alcançar o sol!

As plantas não buscam nada. Os arbustos simplesmente existem. Os caules se mantem no mesmo lugar por centenas de anos, dando frutos para todas as gerações de pássaros, abelhas, símios, insetos e humanos. É um ser protetor que nos dá sombra em dias muito quentes e nos protegem de chuvas torrenciais. Suas fibras nos dão abrigo. Seus galhos servem de terreno para variados tipos de casas em forma de ninhos. De milhares e milhares de pássaros diferentes... Sua seiva, torna-se nosso sangue. Suas folhas se tornam nossos pulmões. Seus espinhos se tornam a nossa força. Seu aroma pode nos levar para outros mundos coloridos. Seus chás podem nos fazer alcançar partes escondidas dentro de nós. Suas flores, ápice de cor e simetria, nos apresentam a arte, construída pelo universo no momento da criação e que ele nos permite descobrir um pouquinho sobre a cada dia. Seja música, pintura, escultura... tudo já existe, nós apenas descobrimos.

1-.jpgFotografia de Rafaela Werdan

2-.jpgFotografia de Rafaela Werdan

7-.jpgFotografia de Rafaela Werdan

Apesar de estarmos intimamente conectados, acredito que entre os humanos e a salsinha do meu jardim, exista uma enorme distância de tempo e espaço em evolução, e não é a nossa, é a dela. Apenas existir, se alimentar de luz e doar. Isso aos meus olhos representa: a compreensão; a generosidade; a simplicidade grandiosa do viver; a filosofia; o equilíbrio; o não se apegar a imagem e semelhança; ao seu corpo ser do outro, pois ser só pra si, não tem sentido; a verdade não ter importância, somente a vida; o amor estar implícito no fato de existir o dia e a noite e eles se complementarem incrivelmente.

Que nós possamos aprender com as árvores e plantas, em geral. Um mato que cresce no meio fio, o arbusto em um terreno baldio, uma mangueira generosa no verão, um coqueiro exercendo a perfeição ao ser alimento e água doce ao mesmo tempo. Que nós possamos aprender apenas observando, em silêncio, o que a vida pode ser.

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Rafaela Werdan

Pare tudo que tiver que fazer às 17:30 e observe por 30 min o cair da noite.
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