Rafaela Werdan

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Como sentir prazer com todas as coisas II

O gozo que gozo enquanto tento manter meu corpo preso à gravidade é meu ou de todos os meus ancestrais que gozaram por mim? Gozar a vida é gozar o prazer acumulado na explosão das estrelas.


Não há alto, nem baixo. Tento correr, mas flutuo. Salto de um instante a outro e caio no abismo do fim. A verdade é que minha cama está flutuando no espaço sideral presa em um círculo chamado: vida. Eu gozei!

1.jpgImagem de Laura Zalenga

O gozo que gozo enquanto tento manter meu corpo preso à gravidade é meu ou de todos os meus ancestrais que gozaram por mim? Gozar a vida é gozar o prazer acumulado na explosão das estrelas. Esse prazer que se perpetuou por todo universo até se aprisionar na terceira dimensão e aqui culminar em vida.

Toda vez que gozamos, reproduzimos o mar lambendo a areia da praia com ternura depois de viajar com brutalidade milhares de quilômetros e dobrar de tamanho no quebra-mar para tentar sobrepor a terra. Porém, assim que se aproxima da frágil terra seca, ele curva suas ondas antes que possa cobri-la por completo, perdendo suas forças predatórias em prol de desfrutar do simples prazer que é tocar uma temperatura diferente da sua. Ele entra na terra quente e goza. Nos meus pés tem espumas agora.

Meus pés são pele, que é sangue, que é água, que é gozo. Meus pés gozam existir. Seu caminhar é a vitória de um orgasmo. O corpo humano é um orgasmo ambulante até o dia de sua morte. Os pés caminham diariamente sobre essa fina corda chamada morte, fazendo o nosso corpo bambear entre o tudo e o nada, até que consigamos extrair gozo disto. Tem adrenalina excitando minhas veias agora. Ela incita a vida.

Meu corpo é nu debaixo das roupas. A roupa esconde a vergonha de não poder estar gozando por todo o tempo. Afinal, como é lamentável não podermos dedicar nossa vida a encontrar as mais variadas formas de sentir prazer e sim termos que encontrar como sobreviver a um mosquito. A roupa cria personagens que nos obriga a esquecermos de nós mesmos por todo o dia. Mas no final dele, o gozo é livre.

Na calçada, um homem sorriu e fez as fendas dos paralelepípedos terem sentido. Por entre os blocos de pedras, nasceu uma flor. As formas de vida mais espontâneas estão a sentir prazer apenas por existir em todos os lados, por mais cinzas que esses lados possam ser.

Estou agarrada aos meus cachinhos como se ao soltar, fosse cair de mim mesma na frente de todos e me ferir até a carne viva ficar exposta. Meus dedos enrolam por eles sentindo a textura fibrosa de que são feitos, começo a esquecer que existem olhares ávidos por gozo ao meu redor e me dou o prazer de tocar em mim mesma por essa extremidade. Sentir a própria carícia, sentir os cabelos ao vento, emaranhar-se nos próprios cachos, é lascivo.

Começo a observar as outras mulheres, com seus cabelos sedosos e cheirosos. Seus cortes variados. Aquela presilhinha de bichinho prendendo somente alguns fios de maneira diferente, com o intuito de se libertarem do previsível. Por onde se movem, deixam beleza. Seus movimentos ao caminharem em alguma direção são o próprio gozo da existência. Observá-las, são uma das grandes chaves de como obter prazer com todas as coisas.

2.jpgImagem de Laura Zalenga

Uma mão masculina é posta lentamente no bolso da frente de sua calça jeans, se aproximando de suas partes mais prazerosas. Aos humanos que assistem, esse evento pode ser tão prazeroso de se ver quanto uma aurora boreal, esta que é nada menos que o fruto da intenção do sol em tocar as partes mais profundas da Terra, mas é impedido por uma fina camada que os poetas chamam de: tecido protetor da vida! Na verdade eu chamo.

Essas mãos agora estafadas de si mesmas, descansadas em um fundo de tecido, conseguem ser completamente controladoras. Pegam um metal e dão a forma que bem entendem. Isso é algo ousado. Pegam em pedras e as arremessam há milênios de distância até caírem, aqui e agora. Mãos que seguram em mastros e viajam o oceano. Mãos que tem prazerosos dedos, prazerosas unhas, prazeroso gosto. Mãos que criam mapas almejando controlar todo o mundo. Seus dedos socam seus medos em outros rostos abrindo abismais fendas que colocam essas faces entre a vida e a morte.

Essas mãos pegam em cabelos femininos por trás com força e acreditam, por uns instantes, que as donas deles são suas, como suas pedras, seus metais e suas embarcações. E nós, os deixamos acreditar, pois isso até certa medida nos dá prazer. Mas por trás dos fios agora embrenhados em em fortes garras, tem alma, incontrolável até para si mesmas. As femininas pernas e mãos que caminham por todo o prazer que a Terra lhes deu não podem ser aprisionadas. Desde a mais tenra idade sabemos de nossa liberdade espiritual e mental a começar pelo não seguimento de hierarquia, então, interpretar este teatro de predador e presa, é lascivo. Ele retira suas mãos do bolso sem imaginar que uma menina em um banco de praça, que ele nunca irá conhecer, as observava e por elas sentia prazer.

1-.jpgImagem de Rafaela Werdan

Pernas femininas se desdobram em meus sonhos e me agarram. Sua pele é suave e ambiciosa como suas intenções. As verdadeiras donas do mundo levantam de suas camas pela manhã e desbravam o desejo, o prazer infinito, a sensibilidade, os múltiplos olhares e a duvidosa razão. Abrem a janela de suas casas e percebem que o mundo todo foi construído para elas. Mulheres das periferias ouvem músicas sexuais da hora que levantam a hora de dormir. A linha mais simples do pensamento masculino é delas. Mulheres observam edifícios imensos nos centros citadinos e se orgulham de onde seu desejo de ter uma caverna maior chegou. Vão à loja de doces depois de suas refeições e percebem suas receitas milenares em todos esses doces sendo assinadas por homens, pois eles estão desesperados em impressioná-las. As mulheres são as maiores consumidoras de doces de todo o planeta. Na alta sociedade, bailes com músicas românticas são produzidos, para elas. O mercado de jóias foi edificado por trás dos frios e pouco sábios corações de homens "poderosos", que em sua limitada capacidade de sentir cravaram em pedras raras o seu bruto amor.

Em meus sonhos, as mulheres percebem tudo isso além de sua beleza infinita, sua inteligência incomparável, seus doces lábios, suas muitas palavras vindas de uma complexa capacidade de comunicação e ligações nervosas, sem falar na sua brutal capacidade de amar. Depois de perceberem, gargalham um sorriso que poderia dar consciência até mesmo a uma formiga. E sem terminar a risada, pegam seus dedos suaves e se tocam até gemer deliciosamente de prazer em ser tudo de melhor que um humano pode ser. Meu despertador me acorda e estou toda molhada de prazer em prever o futuro, pois ele está acontecendo em mim mesma, bem agora.

20161227_150402-.jpgImagem de Rafaela Werdan

Na ponta de uma lança há o prazer da vitória contra um inimigo, o sabor de uma caça, o desenho de uma flecha apontando para um futuro melhor. Na pintura do rosto feminino há a intenção orgásmica da estética, a beleza pura por natureza. Nunca vislumbrei nada mais evoluído que a necessidade feminina na beleza! É a junção de presente com o futuro. É a noção de que existe o outro para ver. É a noção da beleza da Terra em cor, cheiro ou textura. A visão espacial masculina é lasciva quando ambiciona alcançar a lua. Calcular seu espaço de terra fina, suas crateras e imaginar como é o seu lado negro...Tudo isso vem da noção quase perfeita de proporção dada por sua mente espacial, perceber isso faz a minha boca ficar seca imaginando até onde mais ele pode chegar. O prazer está na complexa rede de energia por trás do cérebro feminino que a externou e criou o computador e a internet que hoje utilizamos para continuar a nos comunicar. Perceber esse fato que rompe com todas as prisões as quais a mente feminina foi exaustivamente imposta, é extremamente prazeroso.

Em você há ar, há terra, há escuridão, há sol e há água sacramentando a vida em um corpo. Há todas as coisas necessárias para sentir prazer, a única forma de não conseguir alcançar isso é não tendo a si mesmo. Tomar-se para si é o caminho para ter prazer com toda a vida.


Rafaela Werdan

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