Rafaela Werdan

Apenas sinta.

Quando o campo encontra a cidade

Enquanto você dorme, uma vez por semana uma rua qualquer da cidade grande modifica sua estrutura para encenar um grande espetáculo que só consegue desfrutar aqueles estiverem com olhos e corações bem atentos.


Alguns dias da semana acordo em uma rua qualquer de uma cidade grande e tudo está diferente. As imensas construções verticais se tornam pequenas, quase imperceptíveis aos olhos verdadeiramente nus, os carros são proibidos de circular do primeiro ao último número da rua, as sombras das pessoas se movimentam devagar, se esbarram sem sofrimento, quase apreciam a falta de espaço.

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Um ambiente circense se instala, alguns chamam de feira de alimentos, mas eu chamo de “festa a céu aberto da cidade grande”. Os palhaços divertem vendendo as deliciosas “bananadas ortopédicas”, muito macias; outros dizem que os ovos que vendem são tão grandes que a galinha chorou para colocar; tem quem fale que é dono da mandioca mais gostosa da feira.

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Temos também os contadores de histórias que repetem quase em conjunto piadas com temática de sogra, piadas tão antigas quanto a vivência humana em uma casa compartilhada com uma família grande, bem diferente da formada por duas pessoas que vivemos atualmente. Outras histórias contam, segundo eles, como as mulheres são espertas e sempre dão um jeito de sacanear seus maridos feirantes, um quase me matou de rir ao falar que naquela noite ele achava que sua esposa, 30 anos mais jovem que ele, havia lhe empurrado da cama para que saísse logo de casa, pois ele acordou no chão e não entendia como poderia ter caído, todos riram imaginando a cena enquanto ele reclamava de dor nas costas.

Inspiradores são os grandes equilibristas da corda bamba que, vivendo no limite, nos contam histórias de grande superação e incrível sucesso. Um deles diz ter colocado três filhas na faculdade; outro diz ter construído a própria casa com os recursos obtidos na feira, além de ter dado um apartamento para o filho quando ele terminou a faculdade de história; o terceiro diz que seu filho, formado em direito, está fazendo pós graduação em Harvard, ele quis que o filho tivesse um destino diferente do dele já que ele não pôde estudar e é semianalfabeto. Questionados por mim durante uma conversa suave sobre a vida de feirantes-equilibristas, praticamente todos eles responderam ser a melhor profissão do mundo! Complementam dizendo: “são as pessoas, as pessoas são o melhor. Comemos fruta o dia inteiro e ainda tem as pessoas”.

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O cenário é mágico, uma miscelânia de cheiros que entorpecem o desejo. As barracas de frutas lindamente organizadas em degradê de cores, em proporcionalidade de tamanhos, quase tudo é redondo como os óvulos e a Lua. Também quase tudo é doce como um sonho. Os insetos chegam comportando-se como confetes e serpentinas sobre o grande público, abelhas beijando o néctar da estação- incansáveis provedoras da vida no planeta.

A apresentação dos animais, tão criticada, fica por conta das barracas de peixes onde todos parecem estar em um profundo devaneio de olhos abertos assustando as crianças, que variam entre as que decidem se arriscar e tocar nos olhos deles perigando descobrir os segredos por trás de seus olhares vazios e aquelas que tem certeza de que eles estão bem acordados e fazem isso acenando um sorriso.

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Não podemos esquecer dos mágicos que fazem os sentimentos de todos que chegam mudarem da água para o caldo de cana, falando uma palavra amorosa ou simpática para as pessoas que chegam em suas barracas: “Bom dia, senhora, eu te esperava hoje, que bom te ver aqui!”- diz um.” Olá, meu chefe, estou pronto para servir, o que o senhor deseja?”. “Menina bonita, guardei sua fruta preferida.”- diz outro. “Ei, moça, você sabia que sua voz é linda? Só queria falar isso mesmo”. Dentre outros infinitos truques dos magos da gentileza!

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Neste ponto, as folhas das árvores da cidade estão todas no chão fazendo o costumeiro tapete de vida que esconde o concreto, mas ninguém repara porque a rua está desnuda com as cascas de cocos abertas mostrando todo o seu interior, coroas de abacaxi livres pelas primeira vez, variados bagaços de cana na calçada ainda pingando as gotas do sumo do prazer.

Muitos transeuntes sorriem e vizinhos se falam pela primeira e única vez na semana, trocam humanidades diante da generosidade da Terra. A simplicidade chega quando se veem pequenos diante da grandiosidade do planeta exposta e acessível a todos.

Após sorrir, ouvir histórias, sentir sabores, ver belezas em incontáveis tons de cor dos alimentos, ainda nos deparamos com o amor humano que entra como improviso no meio do espetáculo, surgindo na cena em atos singelos como o de arredondar preços sempre para baixo, dar flores de cortesia, dar frutas inteiras para experimentação ou frutas inteiras simplesmente para fazer a pessoa voltar. Em algumas feiras ainda é possível pagar depois quando não se tem dinheiro no dia e todos os artistas do circo separam as melhores coisas de sua barraca para darem aos garis que limpam o palco ao final do espetáculo.

Algum dia da semana existe um espaço de sonho entre os blocos de concreto que formam o local que você chama de lar. É o momento onde a cidade grande sente o seu imenso espaço vazio se preencher daquilo que nunca deveria ter ido embora: alegria, comida de verdade e humanidade.


Rafaela Werdan

Apenas sinta..
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