Rafaela Werdan

Apenas sinta.

Um vírus, uma cura

Mais uma vítima do vírus.


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Foi chegando de mansinho a ausência. Invisível como um vírus ela se instala. O vírus da ausência precisa do corpo humano em solidão. Na multidão, em uma tarde de quarta-feira, contraí a solidão de um vírus, tão pequenino, tão frágil ao mundo inteiro, tão incompleto em si mesmo. O vírus me diz desesperadamente que precisa de uma chance para respirar. Uma célula basta, alguma do pulmão já é de bom grado, para quem não tem nenhuma. Caminho como se fosse a mesma de segundos antes, cheia de mundo em cada poro, mas com um cansaço além do normal, já era a ausência pesando mais que a multidão.

Na primeira noite de hospedeira, não consegui dormir. Uma angústia sanguessuga roubava meus sonhos. Eu senti cada segundo da invasão, sentada na sala, me via perdendo de mim. As primeiras tonturas me fizeram pisar em falso e cair na lentidão. Sem sair do lugar, respirei fundo a fim de mergulhar mais intensamente no presente e notei que nada mais tinha cheiro. O vírus estava respirando por mim, o aroma do mundo lhe pertencia, ele conseguiu seus instantes de animal e me devorava de dentro pra fora. O mundo desprovido da sua característica mais primitiva se tornou nada além de formas sem alma. Sem cheiro, nem sabor, o mundo se tornou indigesto.

O tesão desapareceu na febre. Acho que nunca havia ficado sem gozar um único dia até essas semanas de ausência. A intimidade escondida debaixo da minha pele cozinhava minha essência a 38°. Não sinto mais nada. Meu corpo é um caldeirão de ausências incinerando minha identidade.

Já é domingo e a ausência infantil brinca no quintal, cada vez mais silencioso. Ela cresce por cada canto. De máscara, ninguém se reconhece mais. Sem máscara, viralizamos a solidão. Parece que naquela quarta-feira à tarde o mundo inteiro foi infectado e jamais voltaria a ser o mesmo. De mansinho, o telefone silencia, ninguém mais pergunta por ninguém, cada um na sua casa se reconhece em pares e adoece sozinho. O vírus continua a se desenvolver no espaço imenso que surge dentro de cada um, clamando por instintos vitais ele consome nossa carne como uma droga e sentencia sua fugaz existência em nossa morte.

Tem sol na cama, na janela, no chão do quarto… tem sol varrendo os espaços vazios. Nada dilecera mais fortemente a solidão do que dias de sol. Seu calor é mais intenso do que o meu calor e essa sobreposição é a minha cura, a imensidão me curou de mim.

No oitavo dia ainda não consigo saber qual é o meu cheiro e o do macho de minha espécie, não consigo sentir o sabor da fruta da estação, nem guardar as faces escondidas por trás das máscaras dos humanos que me rodeiam, mas consigo desejar a luz com toda a minha força, a luz traz o tesão pela vida de volta e o gozo é iminente. A ausência se aproveitou de um vírus que só queria um pouco mais de humanidade e nos violentou com a solidão. A cura virá do veneno de sermos quem somos, uma grande comunidade humana, movida pela obsessão de sermos um.


Rafaela Werdan

Apenas sinta..
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