entre os atos

"é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço"

Danilo Lovisi

Tem nas expressões culturais humanas grande interesse e procura, através delas, entender (ou encontrar mais perguntas) sobre a sua, ou alguma, existência.

Cinema: Las Acacias

Las Acacias, filme argentino de Pablo Giorgeli, nos apresenta uma realidade árida - física e sentimental - com uma história semelhante à estas características. Mas apesar da poeira, do calor e do asfalto, surge uma relação que, aos poucos, de forma sensível, umedece e aduba a vida dos personagens.


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Motosserra. Som de motosserra. Créditos iniciais e o som de motosserra, ensurdecedor. Um frame inerte, belíssimo, de árvores tapando a entrada do sol. E o som de motosserra. Árvores caem. Árvores caem e são decepadas. Som de motosserra. Pedaços são colocados em caminhões. Sons de motores. Sons de motosserra. Caminhões. Vinte caminhões. Buzinas.

É assim o início de Las Acacias, novo filme de Pablo Giorgeli, que conquistou o prêmio Camera D’or do Cannes de 2011. Uma introdução dura e seca e para a apresentação de um personagem com as mesmas características. Rubén é um motorista de caminhão rude e egoísta que, num rotineiro dia de trabalho, é abordado por uma mulher, que carrega uma criança de colo. A mulher diz ter sido enviada pelo chefe de Rubén, que deu-lhe a incumbência de levá-la à Buenos Aires. Sem escolha, ele a leva.

A viagem se inicia. O silêncio entre os dois é tão denso que chega a abafar os sons da estrada, estes que serão os únicos durante todo o filme. Uma relação construída por olhares que se esquivam. Uma relação seca, individualista, mas que, impreterivelmente – como todas as relações humanas – se manifestará de alguma forma. E é só na metade da viagem (do filme), que viemos a conhecer o nome da mulher, Jacinta, e de sua filha, Anahi. A convivência (ainda não tão con-) tem como elo a pequena Anahi, a única ali presente em que a face por si só ainda não é capaz de contar histórias através das marcas, das fendas no rosto. É o tempo que faz com que os olhares parem de se esquivar e os silêncios, entrecortados pelas inocentes intervenções da bebê, findem-se.

Rubén está, na maior parte do tempo, bebendo água. Seu caminhão carrega acácias mortas, secas. Ele próprio assimilou – involuntariamente ou não – essas características. Por que, então, tanta água? Uma recusa a esse estado de seca interna? Talvez. Quanto mais o tempo passa, e mais seus copos e garrafas se mantêm em movimento, a relação com Jacinta se torna mais orgânica, adubada. Uma ligação fluida, inevitável, como água em terra seca. Uma ligação humana, impreterível e inevitavelmente humana. Uma semente que brota do ferro e do couro de uma boleia de caminhão.

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Estamos a todo o tempo dentro desse casulo, acompanhando os mil e quinhentos quilômetros de estrada. Somos mais um viajante, escondido, observando de fora através de ângulos que mostram a fotografia realista que uma viagem pode nos dar. Estamos num caminhão-movie, viajando, sim, os mil e quinhentos quilômetros e muito mais, pois iremos para além de Buenos Aires, iremos pra dentro de Rubén, Jacinta e Anahi.

A viagem, mesmo longa, não é tão cansativa quanto parece. Como todo corpo em movimento tende a permanecer em movimento, acontece, depois da última parada, de sentirmos um pesar – físico e emocional – de não estarmos mais ali, viajando. Provando que o bom de uma viagem é a viagem. E percebendo que, no final, las acacias não são para venda, são, na verdade, um presente, un regalo a la sensibilidad.


Danilo Lovisi

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