entre os atos

"é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço"

Danilo Lovisi

Tem nas expressões culturais humanas grande interesse e procura, através delas, entender (ou encontrar mais perguntas) sobre a sua, ou alguma, existência.

Séraphine Louis: o inevitável impulso da arte

Encontrada pelo crícito Whileim Uhde em 1902, a então empregada Séraphine Louis pintava às escondidas seus delicados quadros arbóreos. Hoje seus trabalhos são conhecidos e reconhecidos mundialmente, marcados pela expressividade peculiar das cores e formas, que parecem movimentar-se nas telas espalhadas por inúmeros museus de arte.


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Ler a natureza e perceber nela uma fonte de respostas para inúmeras inquietações existenciais humanas é algo que exige certa humildade, paciência, e desapego aos resultados rápidos e concretos. Séraphine Louis (1864 - 1946), também conhecida como Séraphine de Senlis, encontrava na natureza não apenas um meio de deixar sua existência mais palatável, mas também um acervo imenso e em constante transformação que a guiava em suas criações artísticas.

De vida extremamente simples, trabalhava limpando casas e exercendo pequenos afazeres. Com o (pouco) dinheiro que ganhava, comprava o mínimo e o essencial para exercer seu então hobby oculto: a pintura. As cores, retirava da natureza de suas mais variadas formas. Desde o vermelho do sangue de um bovino (trabalhava por vezes num açougue), o marrom do barro nas margens de um rio, da terra de um cemitério, e o amarelo de pequenas margaridas de jardins alheios.

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Sua jornada de trabalho durava praticamente o dia inteiro. À noite, pintava. Dormia vez por outra em cima de suas próprias produções, ou nos intervalos que encontrava em seus afazeres. Demonstrando assim uma verdadeira vontade de exercer algo que a impulsionava profundamente: a arte - o impulso inevitável da arte.

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Em 1902, foi encontrada pelo crícito Whileim Uhde - costumaz colecionador de Picasso, sendo inclusive pintado por ele em 1901 - que alugou uma casa para passar alguns meses num vilarejo francês (Senlis), no qual Séraphine morava e trabalhava. Encontrou nela uma artista adormecida, mas prestes a acordar e abrir todas as janelas possíveis de sua vida.

Ela pintava numa espécie de transe. Passava madrugadas debruçada sobre seus quadros, por vezes até sem comer nada. Os olhos sempre muito abertos, procuravam nas cores daquelas folhas que praticamente movimentavam-se na tela, faíscas de vida.

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De criação cristã, solitária e quieta, desenvolveu uma relação sensível e carinhosa com a imagem física e espiritual da Virgem Maria, com a qual "conversava" diariamente. Esta relação, todavia, resultará - devido a fatores vários - num fanatismo religioso que deixará, no final de sua vida, suas faculdades mentais debilitadas.

Séraphine Louis vem a falecer em 1942. Seu trabalho é hoje reconhecido mundialmente. Em 2008, o diretor Martin Provost traz às telas do cinema as cores da simples - mas não por isso menos bela - vida de Séraphine, impecavelmente interpretada por Yolande Mureau. Baseado no livro homônimo de Françoise Cloarec, o filme é aclamado pelo público e crítica, sendo vencedor de 7 César e recebendo mais de quinze indicações em prêmios do mundo cinematográfico.


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