entre.linhas

Entrelaçando as linhas do texto que nos (re)veste.

Rita Manzano

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas

Feminista e pornógrafa em terras brasileiras

“Sou um ser andrógino”, assim se sente Nalini Narayan, jovem escritora carioca que mergulhou na noite paulistana para escrever sobre algumas aventuras sexuais.


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Na mistura das palavras, ela manteve o nome de batismo, Nalini, e , como seu sobrenome é indiano e muito complicado, aproveitou para fazer uma homenagem ao avô: Narayan. Nascida no Rio de Janeiro e com familiares na Índia, as mudanças sempre estiveram presentes em sua vida. Dentre os vários lugares que conheceu, Londres e Amsterdã foram os que mais curtiu; já São Paulo foi o local escolhido para viver e criar suas obras por ser uma cidade mais cosmopolita que o Rio, a qual ainda traz o ranço da corte e a letargia das praias. São Paulo presenteou a jovem escritora com a velocidade, com a intensidade, com o brilho e com a jovialidade, estimulando , assim, o processo criativo.

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Para conquistar o tão sonhado silêncio para escrever, Nalini se distanciou da família que – como muitas das de classe média – não tolera a veia artística pulsando entre os seus e , também, porque não permite a introspecção, a celebração ou o charme necessário para a arte. Péssima filha e a filha perfeita, paradoxalmente. Quando amiga, é sempre a melhor. Escritora obcecada pela perfeição da forma. Esposa como todas as que anseiam por mimos, cuidados e proteção. Não se sente mulher; se sente A Mulher somente durante o sexo. Considera-se um ser andrógino que seduz e enfeitiça pela aparência frágil.

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Aluna mediana de uma escola em Niterói percebeu desde cedo a existência de uma perseguição a assuntos ligados ao sexo e à expressão livre dos mesmos. Chegou a sentir vergonha de alunos e de professores - que faziam parte do grupo que pertencia - pelo posicionamento assumido. Entretanto, sabia que não podia se esperar muito da educação básica do país, sempre tão recheada de preconceitos, mediocridades, hipocrisias e falsos moralismos. E como se não bastasse todo esse sistema, aos quinze anos sofreu bullying após defender com naturalidade um troca-troca de casais entre alunos ,passando a ser ignorada inclusive por aqueles que foram os alvos da proteção. Na universidade, viveu um clima de total liberdade e , em consonância com isso, tornou-se uma aluna interessada, conquistando a formação em letras greco-latinas e filosofia.

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Para Narayan, ler é tentar se conectar com o pensamento de outrem, extraindo disso uma elevação espiritual. Já escrever é um ato de liberdade e de libertação. Concebe a literatura como a arte da linguagem que causa estranhamento, e dentre os autores que gosta estão Anais Nin, Henry Miller e Charles Bukowski; e como fonte de inspiração James Joyce – predileto e de muita influência - , Franz Kafka e os revolucionários anarquistas. Parodiando Isaac Newton , a escritora está sobre o ombro dos gigantes , quando diz que sociólogos, filósofos, antropólogos e psicólogos são a base de sustentação da ópera em que ela é a solista.

Para aguçar a inspiração, a carioca apaixonada por Sampa ouve da ópera ao punk-rock e assiste de Kurosawa a James Bond. Publicava em fanzines; escreveu a novela Novo homem brasileiro (inédita), e o ensaio Malandragem , Revolta e Anarquia: João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto , pela Achiamé.

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Em 2013, lançou seu primeiro romance: Aventuras sexuais de Nalini N. – Uma odisseia em São Paulo, pela Ibis Libris, que foi idealizado a partir dos pensamentos libertários de Nietzsche, Foucault e Simone de Beauvoir. Quanto ao título, é uma homenagem à obra A vida sexual de Catherine M. , da escritora francesa Catherine Millet, a qual descreve como começou a sua carreira de serial lover – depois de perder a sua virgindade aos 18 anos - , transando com vários homens ao mesmo tempo nos mais diversos lugares, o que se poderia chamar de sexo sem vínculo sentimental.

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O romance engajado de Nalini Narayan faz o leitor refletir sobre assuntos sérios como a violência contra as mulheres, as drogas ilícitas, o perigo das gangues neonazistas e a miséria nas grandes cidades. Num jogo de espelhos onde ficção reflete a realidade (ou seria ao contrário?!) , a autora aguça a curiosidade dos leitores ao passo que se coloca como personagem título. Nalini N. é, também, um arquétipo – que tem a função de conectar o leitor comum aos heróis universais - , assim como todas as outras personagens que compõem o livro. E transgressão, há? Claro, afinal a leitura que mostra ao leitor que existem outras maneiras de prazer, tira-o do eixo; desloca do senso comum. Permitir-se viajar no realismo fantástico de orgasmo feminino, orgias, homossexualidade, sadomasoquismo, sexo grupal, incesto, suingue, sexo anônimo é como entrar no Olimpo das letras.

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A autora vê elegância no erotismo, inclusive na linguagem que não constrange; logo, o entende como uma arte burguesa. Ao se afirmar feminista e libertária, optou pela pornografia como forma de arte proibida , colocando a obra Aventuras sexuais de Nalini N. num cenário para a quebra de preconceitos com poder de conectar a escritora aos leitores de todas as classes, uma vez que a linguagem escolhida é simples e escancarada. Agora, simplicidade não há no que se refere às fotos que abrem cada capítulo da obra. A ideia surgiu da autora como estratégia para seduzir ainda mais o leitor. O trabalho dos fotógrafos Carlo Locatelli e Ernesto Kobayashi atrelado ao da ilustradora Ana Lúcia Camargo despertam o desejo para ler cada palavra que compõem as frases das grandes aventuras.

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Pode-se dizer que Narayan deu sorte por já constar nas estantes de best-sellers das grandes livrarias do país, uma vez que – apesar de o mercado editorial estar superaquecido no que se refere à literatura erótica/pornográfica - muitos dos livros que estampam as prateleiras , logo na entrada desses espaços, são de escritores não-brasileiros. É sabido por quem se interessa em literatura, que há muitos autores brasileiros que escrevem (ou escreveram) textos nessa categoria; porém, pouquíssimos são (foram) reconhecidos por tais obras, tornando assim um projeto ainda mais audacioso: ter conhecimento e competência para escrever sobre assuntos polêmicos vinculados à sexualidade e conseguir um espaço na “vitrine”.

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Aclamada pela universidade e pelo povo, existem aqueles - inclusive os “amigos” - que se chocam ao ler (ou apenas ouviu dizer?!) do conteúdo do livro. São pessoas que negaram as químicas genitais para se adequar à norma social; que negaram a paixão para se adequar ao status quo; que foram regidas pelo medo e não entendem o que é ter coragem de assumir algo tão natural a qualquer um: a sexualidade e seus prazeres. É muito provável que aqueles que romperam relações com a escritora ou falaram mal do livro simplesmente por se sentirem ofendidos com os assuntos abordados, reagiram, assim, depois de reflexões inconvenientes sobre as escolhas e os caminhos por eles escolhidos.

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Ser escritora, feminista e pornógrafa: tarefa nada fácil em terras brasileiras, uma vez que a sexualidade escandaliza quando deixa de obedecer as regras e as convenções, perturbando a zona de tolerância que cada cultura reserva às fabulações do sexo. Se boa parte das pessoas - que compõem os diversos grupos sociais - tivessem uma visão mais leve e descontraída sobre a sexualidade e seus prazeres, a probabilidade de relações mais prazerosas e felizes seria grande. Todos deveriam celebrar o corpo que clama por desejos realizados e parar de controlá-lo. Permitir-se é o lema dos normais.


Rita Manzano

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas .
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