entre.linhas

Entrelaçando as linhas do texto que nos (re)veste.

Rita Manzano

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas

O peso do amor

Para demonstrar o amor, os casais sempre encontram uma maneira de se manifestar: uma caixa de bombom, um buquê de flores, um anel de diamantes ou um ... cadeado. Na verdade, o elemento em si é o que menos importa; entretanto, a tradição de selar o amor eterno tem um significado de peso não só para os apaixonados, mas, também, para as estruturas de alguns lugares.


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Paris - um dos destinos mais românticos do mundo – acolhe uma tradição que não se sabe ao certo a origem do costume: casais apaixonados trancam um cadeado nas grades de proteção de pontes sobre o Sena e jogam a chave no rio para selar o amor. Alguns acreditam que essa tradição protegerá o amor eterno dos envolvidos no ritual, mas outros alegam que tal fato prejudica - e muito – a estrutura não só das pontes como, também, de outros lugares por onde se espalham os Cadeados do Amor.

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Os mais de 700 mil cadeados – alguns concentrados em pontos específicos das pontes e outros em lugares peculiares da cidade – foram objetos motivadores para a campanha No Love Locks (Não ao Cadeado do Amor), cujo slogan é Free Your Love, Save our Bridges (Liberte seu Amor, Salve Nossas Pontes). O projeto iniciado em fevereiro deste ano pelas norte-americanas Lisa Anselmo e Lisa Taylor Huff, as quais vivem na capital francesa, inclui uma petição que já ultrapassa 4 mil assinaturas. Apesar de os cadeados serem símbolo da paixão entre os casais parisienses e turistas, a campanha é para preservar e garantir a segurança - principalmente nas pontes da cidade – e exige, também, a proibição dos objetos que para uns celebram o amor e para outros enferrujam a paisagem.

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Querem partir o cadeado ao meio. Ou seria o coração?! Viver o amor, preocupar-se com a segurança: o que fazer com dois elementos importantes e vitais? O que fazer com a paixão? Ah , a paixão! Paixão e amor: palavras recorrentes em tantas obras, em tantas vidas. Todos já viveram , escreveram sobre a paixão, sobre o amor. Muitos já fizeram uma simpatia, recorreram a uma tradição ou registraram de alguma forma esse sentimento avassalador que acomete os seres nem que seja uma única vez em toda a vida.

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Criticar quem vive paixões e amores intensos, viscerais ou loucamente normais não é sensato; nem de bom tom. Por quê? Simples: esses sentimentos são únicos e deixam os seres felizes, leves e com um brilho sem igual. Borboletas na barriga, sorriso largo , saudações a todos – inclusive aos desconhecidos -, bom humor em alta, vontade de ser belo sempre; gritar para o mundo que a felicidade são momentos iguais a estes citado e que nada disto é utopia.

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Paixão – expressão muito utilizada por Nietzsche em suas obras - vem de pathos, palavra grega e que, também, significa excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento; marca os fazeres, os acontecimentos novos. A paixão é passiva e se padece; logo, não existe pathos senão na mobilidade, na imperfeição. E deste sentimento surgem as juras de amor eterno , e as tantas maneiras de expressar. Parece que há coincidência entre o que acontece com os apaixonados e com as estruturas das pontes; e dos demais lugares por onde os cadeados são deixados.

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Em um dos dicionários mais conhecidos da nossa língua, encontra-se como definição para o verbete CA.DE.A.DO: sm. fechadura portátil, cujo aro, móvel, se introduz em duas argolas fixas às peças que se quer unir ou fechar.

Duas argolas e unir: palavras que usamos, também, quando nos referimos à união dos seres. As alianças, amorosamente apelidadas por argolas em algumas culturas, simbolizam a união desejada; a união eterna ... para sempre.

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Amor. Paixão. Duas pessoas juntas, tão únicas... Seres que se fundem, seres juntos. Segundo Platão, os seres são incompletos até encontrar a sua metade. Essa crença vem dos tempos que existiu uma civilização muito – mas muito – diferente, onde os seres possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças, dois troncos distintos e apenas uma alma, criando, assim, uma harmonia rara. Essa cumplicidade, essa união provocou a fúria dos deuses, os quais enviaram uma tempestade com relâmpagos e trovões para destruir toda a harmonia estabelecida. Os relâmpagos atingiam os seres, e os corpos eram divididos e levados pelas águas; a alma também era dividida. Muitos se perderam, muitos ficaram sozinhos; entretanto, conseguiram sobreviver. E até hoje os seres vivem na luta e na busca da sua metade perdida.

Antes, os relâmpagos lançados pelos deuses destruíram os seres juntos; agora, campanha e petição tentam destruir um ritual que sela a união tão sonhada, desejada. Tradição para quem vive o momento, arte de rua para quem aprecia. Buscar alternativas para não se perder a cultura e preservar a vida são de grande valia.

E isto não acontece apenas em Paris.

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Na cidade italiana de Verona, cenário de uma das mais românticas histórias de William Shakespeare - Romeu e Julieta -, os cadeados são encontrados em diversos espaços públicos como pontes, postes, grades e portões.

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Em 2008, a ponte Hohenzollern (Colônia) passou a abrigar - além dos trilhos dos trens – os tradicionais Cadeados do Amor.

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Quem passar pela Avenida 18 de Julio, na capital uruguaia, notará a presença do ritual apaixonado na pitoresca Fuente de los Candados (Fonte dos Cadeados), local em que se sela a união e se promete a volta “dos seres juntos” para visitar o objeto “sagrado”.

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Na Coreia do Sul, a Namsan Seoul Tower - conhecida popularmente como Torre de Seul - funciona como antena de comunicação e observatório e - em sua base – acolhe, também, os Cadeados do Amor deixados pelos casais apaixonados.

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As Árvores do Amor, da ponte Luzhkov, em Moscou, é mais um espaço para se selar a união dos seres. Elas são formadas por cadeados deixados pelos casais que acabaram de oficializar a união.

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As escadarias de acesso para a Montanha Huangshan, parte da cordilheira localizada ao sul da província de Anhui, na China, são forradas por cadeados deixados por namorados que, tradicionalmente, arremessam suas chaves de seu topo, como prova de que estarão sempre juntos.

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Cadeados polêmicos... Mas o amor em si é bem polêmico, não é?! Contudo, em Paris, a tal polêmica já existe há algum tempo, por isso a prefeitura faz frequentes substituições das grades assim que ficam lotadas de cadeados; ação essa rebatida pelas autoras da campanha, pois as mesmas entendem que essa operação – que é feita de duas em duas semanas – torna a prática inviável, deixando os lugares ainda mais perigosos. As autoridades locais buscam soluções que não frustrem tantos os casais que já “trancaram” seu amor bem como os que estão dispostos a realizar o tradicional ritual.

Cuidar da segurança deve ser visto com bons olhos, mas poder ver uma tradição se concretizar – transformando sentimento em, também, arte de rua – é tão valioso quanto. Equilibrar os pesos: uma boa pedida sempre.


Rita Manzano

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas .
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