entre.linhas

Entrelaçando as linhas do texto que nos (re)veste.

Rita L.M.

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas

Retratos de Mães

Mães são todas iguais, só mudam de endereço. Na ficção, é a mesma coisa. No entanto, cada mãe é lembrada por uma determinada característica. Traçando um paralelo entre as mães da ficção e as mães da realidade, quem seria a sua?


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“Fosse eu Rei do Mundo, / baixava uma lei: / Mãe não morre nunca, / mãe ficará sempre / junto de seu filho / e ele, velho embora, / será pequenino / feito grão de milho”, versou Carlos Drummond de Andrade a partir da figura materna. Quem dera ter a mãe sempre por perto e para sempre.

Da tradicional à moderna, as mães estão em seu posto 24 horas. Presentes, carinhosas, preocupadas, acolhedoras, confortantes, ÚNICAS ... fazem seu coração bater em outra “casinha”: no corpo de seu filho, ou de seus 2, 3, 6, 10 filhos se assim os tiverem. E na literatura, algumas mães - que muito provavelmente foram inspiradas em grandes guerreiras - fizeram “a história” em enredos que serão lembrados para sempre.

Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Sinhá Vitória – mulher de Fabiano – era a esposa esperta e que sabia fazer contas, prevenindo o marido sobre os trapaceiros e enganadores. E ele a admirava pelo nível intelectual acima do dele e pela mãe zelosa que sempre foi. Muito consciente da situação que viviam, ela rezava muito, fazia planos e sonhava com uma escola para seus dois filhos; para que os mesmos tivessem uma vida sem miséria.

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Juliana: linda escrava que sofria privações por não querer ser amante do comendador Almeida. Relacionou-se com o Feitor Miguel – homem forte e bom – e tiveram Isaura, a qual foi personagem principal do romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Juliana era dócil, formosa e educada; características essas que a tornou a favorita da esposa do comendador e, após a morte da escrava – causada pelos castigos de Almeida -, foram revisitados na figura da filha Isaura.

Érico Veríssimo, retratou a figura materna a partir da personagem Ana Terra, em O Tempo e o Vento. Tudo começa quando Ana – aos vinte e cinco anos e solteira – sonha com as palavras do herói gaúcho, Major Rafael Pinto Bandeira, que dissera: “O país precisa de mulheres bonitas e trabalhadoras”, exatamente como ela. Nas terras do pai, Ana descobre Pedro Missioneiro – índio de tez relativamente clara - , apaixona-se e, quando a sua gravidez é descoberta, este é assassinado pelos irmãos da protagonista. Assim que o filho de Ana Terra nasce, recebe o mesmo nome do pai – Pedro Terra –; criado de forma exemplar, passa a representar a família, principalmente nas mudanças sociais do Rio Grande do Sul.

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Conhecida pelos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” ou “olhos de ressaca”, Capitu – protagonista da obra de Machado de Assis – pouco é lembrada como a mãe de Ezequiel. O ciúme de Bento Santiago, Bentinho, mais tarde Dom Casmurro - na obra de Machado de Assis -, não permitiu que a figura materna fosse evidenciada, mas, sim, questionada; dúvida esta que paira até hoje. Foi namorada, esposa, adúltera (?!), mas foi mãe, também, terminando seus dias em companhia apenas de seu filho.

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Em Éramos Seis, de Maria José Dupré, a figura materna foi brilhantemente representada pela Dona Lola: mulher bondosa, trabalhadora e mãe na essência máxima da palavra. Viveu momentos complicados em um dos enredos mais emocionantes e tristes da literatura brasileira. Esposa companheira e cúmplice; mãe presente e amorosa deixa uma dúvida: merecia passar por tantos sofrimentos?

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Dizem por ai, que ser avó é ser mãe duas vezes. E é mesmo! Nunca soubemos de quem realmente a Dona Benta era mãe; em compensação, avó ... A obra O Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, apresenta essa essência materna em dose para lá de dupla. A avó mais querida do Brasil contava histórias, estimulava a criatividade e alimentava a curiosidade tanto dos netos como de todos que estavam ao seu redor. A sabedoria de Dona Benta fez muitos leitores se divertir bem como refletir sobre as relações humanas e as diversas culturas; não esquecendo um grande ensinamento: os adultos precisam estar de olhos abertos para as reinações das crianças e dos jovens, mas de ouvidos também, pois a garotada tem muito a dizer.

Raquel de Queiroz representou a essência materna também na figura da avó. Em O Quinze, Dona Inácia foi quem criou a Conceição depois que a mãe verdadeira morreu. Espirituosa, culta, humana e com ideias bem avançadas sobre a condição feminina, Conceição cresceu dizendo ter vocação para ser solteirona. A avó não aprovava as ideias da neta – principalmente no que se referia "ficar para titia" -, mas a amava de um jeito muito especial. Mesmo solteira, Conceição mostrou a sua capacidade de ser mãe ao criar Duquinha – um afilhado que lhe doaram -, preenchendo o vazio da vida amorosa.

Mães que geraram , mães que criaram, mães de consideração: não importa como assumem esse papel, elas - mães de verdade - são intrinsecamente ligadas de forma mágica e poderosa ao seu rebento. Quer saber a força de uma mãe? Mexa com o filho!


Rita L.M.

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