entre.linhas

Entrelaçando as linhas do texto que nos (re)veste.

Rita L.M.

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas

Missiva ao Eterno Mestre

Há 1 ano, o grande Mestre Rubem Alves encantou-se; no entanto, em suas obras ele ainda vive e nos faz viver - e semear – por dias melhores.


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Brasil, 19 de julho de 2015.

Ah! Mestre, quanta falta o senhor me faz,

O dia amanheceu com o Sol dando um verdadeiro espetáculo. Ao abrir a janela, o ipê-amarelo do jardim aqui de casa estava especialmente mais amarelo; mais belo; uma pintura de rara beleza. Coloquei a água para ferver, liguei o som e iniciei o meu ritual para o café da manhã. Ao fundo, o som gregoriano invadia cada canto da casa; era uma disputa perfeita e divina entre os raios de Sol e os acordes da música. Olhei pela janela e na casa em frente havia crianças brincando numa vivacidade que só elas conseguem dar conta. Foi exatamente nesse cenário que mais uma vez eu me lembrei do senhor, meu Mestre eterno e querido.

Já faz 1 ano que o senhor encantou-se e - diferentemente do que tu fizeste um dia - hoje eu não quero falar da tristeza; não darei licença para ela. Nem adianta ela querer chegar de mansinho... Nada de “belas-tristes nuvens do céu”, pois nesta manhã nem nuvens tem. “Tristes-belos os bem-te-vis nos galhos das árvores”? Que nada! Eles estão belos-belos junto das crianças logo ali no jardim. O meu café da manhã? Imagine, Mestre, como ele está. Não, não, deixe que eu mesma conte: ele está saudoso-belo, e os objetos do meu escritório estão calmos, mas nunca silenciosos; afinal, o senhor deixou suas palavras sobre a minha mesa para eu fazer barulho por aí, lembra?!

Em se falando em fazer barulho por ai, preciso contar-lhe sobre alguns acontecimentos. Nos últimos meses, surgiram muitas outras escolas-gaiolas. É...e não satisfeitas só com as grades, cortaram, também, as asas de nossos pupilos. Dá uma dor no coração ao ver as nossas crianças desaprendendo a arte do voo e totalmente sob controle. Papéis em branco, lápis e canetas coloridos, colas, tesouras, tintas ...tudo trancado em gavetas; papéis com pauta e sem pauta... tudo em branco, branco, branco mesmo. Perguntar? Não podem. Serem curiosos? Jamais. Eles só aprendem o que não faz sentido, o que não importa. Preenchem linhas e mais linhas com palavras em textos desconexos; com números e sinais esquisitos. Ah! Os nossos pupilos são chamados de esquisitos, estranhos. Ninguém os escuta.

Eu me lembro muito bem que um dia o senhor disse: “De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição.” O senhor pensou até em oferecer um curso de escutatória, mas ficou receoso de não haver matrículas. Dentre os escritos que me deixou, tinha um que dizia assim: “ É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio.”

Nossas crianças estão ficando surdas, Mestre, pois tem muita gente tagarelando perto delas; silenciando-as, ao passo que “essa gente estranha e esquisita” deveria – mesmo – era silenciar os próprios ruídos para mediar conhecimento , amor e sapiência aos pequenos pupilos.

Semana passada, eu trabalhei - com crianças e adolescentes - a poesia juntamente com a música e as sensações do corpo. O senhor não vai acreditar: eu comecei tudo de trás para frente. Primeiro ouvimos as melodias, fomos vinculando os instrumentos aos contextos, às palavras; buscamos imagens, formas, cores... Encantados com o momento diferente, os alunos foram perguntando sobre a arte, experimentando formas, colocando a criatividade em evidencia. Perguntaram tanto e tantas coisas que eu acabei ensinando mil possibilidades de passar mensagens e mais mensagens. No chão, nas mesas, nas bancadas , muitas revistas recortadas, muitas letras, números, símbolos, material reciclado dando forma ao sentir; ao sentir dos meus pupilos, das minhas crianças, dos meus jovens. Se os produtos finais ficaram bonitos? Não, ficaram maravilhosos; a cara deles. Acho que consegui mais uma vez ser a professora de espantos que o senhor sempre quis que tivessem em larga escala dentro das comunidades escolares.

E é sempre em atividades assim que eu sinto – vejo – o amor. Eu sei que meus pupilos baterão asas - como outros tantos já bateram - e farão voos lindos por ai; e o mais bacana: levarão um pouco de mim nesses voos, assim como muitos já levam. É a tal dialética que o senhor sempre falou entre a alegria do encontro e a dor da separação. Aliás, como é dura essa dor da separação , não é? Mas eu me recordo de palavras tuas que diziam: “ de alguma forma a gota de chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora. Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética do divino.Quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.”

Ah! Tuas palavras, Mestre, são elas que me fazem reencontrar contigo sempre que meu coração aperta, sempre que bate um desespero para entender o ser humano ou para ajudar uma criança, sempre que aquela vontade de largar tudo vem chegando de mansinho ... São tuas palavras que me ajudam a suportar, também, a dor da tua ausência.

Enfim, já falei muito. Vou ali, logo ali... misturar-me com as crianças que agora balançam nos galhos do ipê ; fazer um pouco do que o senhor me ensinou: ser semeadora de curiosidades; ser a tua professora de espantos.

Beijos repletos de saudade e ... até breve.

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Rita L.M.

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas .
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