entre.linhas

Entrelaçando as linhas do texto que nos (re)veste.

Rita Manzano

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas

A humanidade de volta à Terra

Em se pensando em conflitos, guerras e refugiados – situações essas que infelizmente ocupam vários cantos do Mundo -, até que ponto pode-se dizer que a imagem de uma criança morta – representante da segregação instalada na sociedade - realmente é capaz de propagar a reflexão necessária para traçar rotas de volta da humanidade à Terra?


A humanidade de Volta à Terra - Obvious.jpg

Se eu começasse meu texto com “Era uma vez uma criança chamada Aylan que em uma manhã de setembro de 2015...” , totalmente desvinculado de imagem ou lugar de origem, muitos pensariam ser o nome dado a uma personagem de uma história talvez real, talvez ficcional. Mas se eu iniciasse com uma imagem, e essa imagem fosse a que percorreu o mundo no início de setembro de 2015, muitos saberiam de quem se tratava e, também, que não seria nenhuma ficção.

E se eu voltasse no tempo; mais ou menos há 21 anos? E começasse o meu texto com “ Era uma vez uma criança chamada Kong Nyong que em uma tarde de março de 1993 ...” e , ainda, “ilustrasse” com a seguinte imagem:

A humanidade de volta à Terra.jpg

Alguém saberia me dizer se a história seria realidade ou ficção? Pois bem, isso, infelizmente,também foi realidade. A cena na época causou um grande impacto no mundo, pois mostrou uma criança desnutrida sendo observada (ou vista como presa fácil?!) por um abutre: uma concreta metáfora da fome que a cada dia ficava mais e mais séria, matando milhares de pessoas em um Sudão destroçado por uma longa guerra civil.

A imagem foi capturada pelo fotógrafo Kevin Carter, o qual recebeu o prestigiado prêmio Pulitzer em 1994 e , por não suportar o sucesso em prol de uma cena - que concretizou a mortalidade e a fome -, suicidou-se no mesmo ano de premiação devido a pressão que viveu com os discursos proferidos sobre o trabalho realizado. Carter fez com que milhares de pessoas pelo mundo se dessem conta do que acontecia no Sudão, mas as reflexões (críticas?!) foram sobre a postura do fotógrafo: muitos diziam que a ganância profissional foi mais intensa para se capturar a melhor imagem do que a sensatez de salvar uma vida das garras do abutre. O Mundo ficou ciente da guerra, da fome, das mortes; no entanto, o que ficou latente foram julgamentos e condenações ao fotógrafo. Muito se falou de Kevin Carter, mas o que aconteceu com Kong Nyong, a criança da foto? Como ficou (está) o Sudão?

Olhar as imagens das guerras, das mortes e dos refugiados não é o bastante para se ter noção do cenário instalado em alguns países. Entre acompanhar os fatos pelos diversos meios de comunicação sem que cada um se sinta igual a todas as personagens de tal cenário, é no mínimo apático; no máximo, desumano.

Culpar um aqui e outro acolá talvez tire um peso das costas, mas como acabar com os fatos que provocam em cada ponto do mundo os conflitos que se materializam em bombas, destruições, mortes , medos e fugas? Sabe aquele amor genuíno que deveria ser aprendido na família e que de tão verdadeiro se estende à sociedade? Então, é disso que falo. O amor ao próximo - principalmente pela luta de vidas – precisa ultrapassar as paredes de onde se vive, derrubar fronteiras e ver o infinito não do mar , mas, sim, das possibilidades para trazer de volta a humanidade à Terra; e colocá-la em terra firme.

Há muitas pessoas no mar. Saem muitas e chegam poucas. Vão caindo como os pertences de uma família que está de mudança e só teve dinheiro para um caminhão pequeno. Tudo cai. As coisas se quebram; ficam em pedaços. Não voltam mais. Platão disse que “existem três tipos de homens: os mortos, os vivos e os que andam no mar”, e eu fazia uma leitura diferente disso quanto aos do mar: ousados, cheios de história em uma linguagem muito particular, porém solitários. Mas agora, só agora, eu entendi melhor: os que andam no mar são refugiados; são (des)esperados por e em algum lugar; são alguns que saem com alguns e chegam sem nenhum; são os que têm marcas, que farão para sempre histórias.

Mia Couto, em Terra Sonambula, fala um pouco disso: “...um mar cheio de infinitas fantasias. Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo. (...) Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho.”

Histórias, Terra, Humanidade: palavras que nos dão a certeza de que ninguém é igual a ninguém. Não há no Mundo uma pessoa igual a outra. No entanto, o fato de não sermos iguais não nos impede de sermos um com a força de muitos para cuidar de outros tantos. Precisamos da voz, das vozes; vozes que sejam firmes e façam ecoar gritos de justiça, silenciando o poder que gera a ganância e o preço alto, os quais – em muitos lugares – são pagos com gotas de sangue.


Rita Manzano

Quanto à escRITA, metade dela sou eu. Juntas seguimos, entrelaçando mensagens que (re)vestem vidas .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @nopub //Rita Manzano