Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Brincar na rua

Ele consegue desfrutar de todas as possibilidades; eu estou fazendo o caminho de volta.


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Incentivei meu filho a sair de casa nas férias. Sem poder curtir com ele, corria o risco de hibernar durante todo o mês de janeiro, dormindo de dia e virando as madrugadas no MSN e Facebook. Ele relutou, mas, enfim, resolveu me ouvir e acatar minhas sugestões. Agora, vejo-o rapidamente de manhã, quando saio, às vezes à noite, e noutras, nem isso. Dorme na casa da avó, onde tem amigos por perto.

E no retorno de um destes passeios, me contou em êxtase que havia passado a tarde jogando taco (!). Se aqui, numa cidade do interior, já é quase impossível ver crianças e jovens jogando taco, posso imaginar a cara de interrogação de quem nasceu e cresceu na capital, sem nenhuma vivência do que seja brincar na rua. Minha satisfação é pra lá de enorme. Meu filho, aos 14 anos, sobe na bicicleta, pedala mais de seis quilômetros para passar todo o dia longe do computador, brincando com garotos da idade dele, ao ar livre.

Tão gostoso quanto ouvi-lo contar sobre o jogo, foi o papo que se seguiu. O marido e eu a escarafunchar as recordações, trazendo pra cá nossas próprias tardes e noites de muita brincadeira na rua. Garrafão, pique-bandeira e todos os outros piques, polícia-ladrão, queimada, a pelada que os meninos deixavam as meninas entrarem.

Desde que meu filho nasceu moro em casa e sempre o incentivei a brincar além muros. Tem bicicleta, skate, a infância inteira soltou pipa nas tardes de vento perfeito do bairro em que morávamos, tomou banhos de chuva e enfiou os pés na lama. Só agora, adolescente, é que resolveu pedir um videogame de presente. E mesmo assim, está lá o jogo a esperar por ele.

É muito comum circularem na internet emails com apresentações que nos remetem aos divertimentos do passado, da infância e da juventude de quem hoje se entretém com Twitter e Face. Costumo olhar, sem muita nostalgia e deletar logo, pois quando estou ao computador não costumo dispor de tempo para muito enlevo. O bate-papo na sala de casa, ao contrário, fez-nos viajar longe. Foi delícia atender às dúvidas do meu filho sobre cada brincadeira que voltava à memória, e rimos ao lembrar uma delas, cujo objetivo nem sabíamos mais.

É bom ver este jovem com um mundo de possibilidades a sua volta sabendo que pode e deve aproveitar cada uma a seu tempo. Quanto a mim, estou fazendo o caminho de volta. Ou tentando. Após crescer, trabalhar muito, conhecer a tecnologia que caiu no meu colo, usar todos os recursos que as redes me disponibilizam, precisei aprender sozinha a hora de parar, de desligar, de desconectar. A hora em que a boa conversa me exige deixar o celular bem longe, ou quando devo substituir o notebook por um livro, por uma revista ou por alguém. Meu filho já sabe fazer isso.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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