Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Eu, meu pai, Haroldo de Andrade e seu programa

Uma música me levou de volta ao passado; escrever sobre isso me traz um pouquinho daqueles dias de volta, só um pouquinho.


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Curtia um momento de audição de música clássica no fim de semana em casa. Meu marido descobriu uma coleção antiga e resolveu descobrir o que havia para apreciar. Ouvíamos uma coletânea, digamos, popular, quando tocou o Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra, de Tchaikovsky. Não resisti: “É a trilha de abertura do programa Haroldo de Andrade! Nossa, há quanto tempo não ouço isso!”.

Quando digo ‘isso’, me reporto aos dias de infância e de juventude em que esta música era executada diariamente, no rádio do meu pai. Era uma religião. Ele acordava, fazia sua rotina matinal, e às nove em ponto lá estava a escutar atentamente a Rádio Globo, com Haroldo de Andrade tocando seu programa até o meio-dia. Começava com a trilha, a carta de um ouvinte, havia notícias, música e os debates intermináveis. Confesso que os odiava, mas é inevitável a nostalgia.

Meu pai ouvia rádio quase o dia todo. Tinha seus programas preferidos em horários agendados. Haroldo de Andrade de manhã, outro programa na hora do almoço, mais outro no fim da tarde. Alternava sua rotina com a TV, também em horários fixos, sem alteração. Com os problemas de saúde que tinha e permanentemente em casa, rádio e TV eram seus companheiros frequentes.

Minha memória me leva à voz de Haroldo de Andrade ecoando de um aparelho antigo, em caixa arredondada de madeira, que ficava na parede da cozinha (ou na área de serviço). Mais tarde, um novo equipamento, ainda de madeira, porém mais moderno, garantia a distração das manhãs em casa. Anos depois, adaptado aos aparelhos à pilha, meu pai terminava seu café na cozinha e, bem devagar, caminhava até a varanda com o companheiro encaixado no braço. Quando a caminhada ficou difícil carregando o radinho, dei de presente um fone de ouvido com rádio embutido.

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Eu também adorava rádio, mas preferia ouvir música. Os programas eram bons, mas me enjoava ouvir a mesma coisa todos os dias. Antes de gostar de FM, ouvia a Rádio Mundial, única que pegava bem nos radinhos à pilha da minha infância. Aliás, não tive acesso liberado às musicas tocadas na rádio enquanto não ganhei de presente do meu cunhado um aparelhinho só meu, aos 12 anos. E esse me acompanhou por todo canto até virar sucata.

Ainda tenho o hábito de ouvir música de manhã, quando acordo. E não é MP3, computador ou qualquer engenhoca moderna. É rádio. A primeira coisa que faço ao sair da cama é acionar o botão que vai embalar meu banho e minha arrumação para o trabalho. E andava muito irritada dias atrás porque o tal não sintonizava corretamente, até que esta semana meu filho o conectou a uma antena externa e ufa!, tenho de volta meu sonzinho de volta.

A trilha de abertura do Haroldo de Andrade mudou. Também a ouvi por muito tempo. O programa trocou de estação algumas vezes e se estabeleceu na rádio que leva o nome do apresentador. Haroldo morreu em março de 2008. Enquanto estava em tratamento de saúde, o programa foi conduzido pelo filho Wilson Andrade. Após o encerramento da emissora, o outro filho, Haroldo Júnior assumiu o microfone e está atualmente na Rádio Tupi, aos domingos, no horário de sempre, das 9h ao meio-dia. E eu, tenho meu pai na lembrança, que ficou sacudida desde o fim de semana. O que a música e o rádio não fazem com a gente?


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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