Curtia um momento de audição de música clássica no fim de semana em casa. Meu marido descobriu uma coleção antiga e resolveu descobrir o que havia para apreciar. Ouvíamos uma coletânea, digamos, popular, quando tocou o Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra, de Tchaikovsky. Não resisti: “É a trilha de abertura do programa Haroldo de Andrade! Nossa, há quanto tempo não ouço isso!”.
Quando digo ‘isso’, me reporto aos dias de infância e de juventude em que esta música era executada diariamente, no rádio do meu pai. Era uma religião. Ele acordava, fazia sua rotina matinal, e às nove em ponto lá estava a escutar atentamente a Rádio Globo, com Haroldo de Andrade tocando seu programa até o meio-dia. Começava com a trilha, a carta de um ouvinte, havia notícias, música e os debates intermináveis. Confesso que os odiava, mas é inevitável a nostalgia.
Meu pai ouvia rádio quase o dia todo. Tinha seus programas preferidos em horários agendados. Haroldo de Andrade de manhã, outro programa na hora do almoço, mais outro no fim da tarde. Alternava sua rotina com a TV, também em horários fixos, sem alteração. Com os problemas de saúde que tinha e permanentemente em casa, rádio e TV eram seus companheiros frequentes.
Minha memória me leva à voz de Haroldo de Andrade ecoando de um aparelho antigo, em caixa arredondada de madeira, que ficava na parede da cozinha (ou na área de serviço). Mais tarde, um novo equipamento, ainda de madeira, porém mais moderno, garantia a distração das manhãs em casa. Anos depois, adaptado aos aparelhos à pilha, meu pai terminava seu café na cozinha e, bem devagar, caminhava até a varanda com o companheiro encaixado no braço. Quando a caminhada ficou difícil carregando o radinho, dei de presente um fone de ouvido com rádio embutido.
Eu também adorava rádio, mas preferia ouvir música. Os programas eram bons, mas me enjoava ouvir a mesma coisa todos os dias. Antes de gostar de FM, ouvia a Rádio Mundial, única que pegava bem nos radinhos à pilha da minha infância. Aliás, não tive acesso liberado às musicas tocadas na rádio enquanto não ganhei de presente do meu cunhado um aparelhinho só meu, aos 12 anos. E esse me acompanhou por todo canto até virar sucata.
Ainda tenho o hábito de ouvir música de manhã, quando acordo. E não é MP3, computador ou qualquer engenhoca moderna. É rádio. A primeira coisa que faço ao sair da cama é acionar o botão que vai embalar meu banho e minha arrumação para o trabalho. E andava muito irritada dias atrás porque o tal não sintonizava corretamente, até que esta semana meu filho o conectou a uma antena externa e ufa!, tenho de volta meu sonzinho de volta.
A trilha de abertura do Haroldo de Andrade mudou. Também a ouvi por muito tempo. O programa trocou de estação algumas vezes e se estabeleceu na rádio que leva o nome do apresentador. Haroldo morreu em março de 2008. Enquanto estava em tratamento de saúde, o programa foi conduzido pelo filho Wilson Andrade. Após o encerramento da emissora, o outro filho, Haroldo Júnior assumiu o microfone e está atualmente na Rádio Tupi, aos domingos, no horário de sempre, das 9h ao meio-dia. E eu, tenho meu pai na lembrança, que ficou sacudida desde o fim de semana. O que a música e o rádio não fazem com a gente?
Comentários
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Valdir Machado
Texto lindo, Giovana, e emocionante. Também sou saudosista. Lembrança é tudo. De que valeria a vida sem elas? Nada, eu digo! E, em resposta à sua pergunta, música e cheiro, pra mim, trazem vivas recordações! Grande abraço!
Jane Zamluti
Interessante o texto Giovana. E o fim também. Textos bem finalizados ficam.
Parabéns!
Douglas Gonçalves
Lendo seu texto lembrei-me dessa citação de Nicolau Sevcenko sobre o rádio:
"Partindo cada um do seu isolamento real, se encontram todos nesse território etéreo, nessa dimensão eletromagnética, nessa voz sem corpo que sussurra suave, vinda de um aparato elétrico no recanto mais íntimo do lar, repousando sobre uma toalhinha de renda caprichosamente bordada e ecoando no fundo da alma dos ouvintes, milhares, milhões, por toda parte e todos anônimos. O rádio religa o que a tecnologia havia separado. [...] Cada um põe naquela voz aliciante o rosto e o corpo de seus sonhos. Como o som se transmite pelo espaço, onde quer que se ande pela casa, aquela voz penetrante iria atrás. Em breve era possível introduzi-la no carro também, circulando e se afagando nela em meio à rispidez mecânica no trânsito". (Sevcenko 1998, p.585-586)
Para relembrar a voz de Haroldo de Andrade acesse esse site: www.showdoradio.com.br/audiosradiogloborio.php?pagina=3 tem alguns áudios históricos do Haroldo de Andrade, nos números 50 e 59, e também da Rádio Mundial.
Parabéns pelo texto excelente!
Fernando de Barros
Haroldo de Andrade, Paulo Moreno, Paulo Lopes, Paulo Barbosa, Waldir Amaral, Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo, Enio Carlos (ou Barbosa)estes e muitos outros nomes também fizeram parte da minha iniciação ao rádio, em especial a música de abertura de Paulo Moreno: "Quem dá o recado é Paulo Moreno, é Paulo Moreno, é Paulo Moreno que vem", que ouvia todos os dias as sete da manhã quando, morando no Rio, minha tia me acordava para ir trabalhar já na Tupi. Bons tempos...
Clarissa
Como não lembrar do seu Geraldo com o radinho?? Impossível...
Vinicius Agner
E viva o Rádio Brasileiro e seus grandes ícones inesquecíveis em nossa memória.
manoel alves pereira
Minha amiga Giavana. Obrigado pela belissima crônica. Confesso que como um radialista nato também me emocionei pela sensibilidade das palávras escritas com muita sabedoria e amor, provando a cada instante o quanto vale uma jornalista sensivel, humana e verdadeira. Que Deus continue te iluminando para que possamos ler outras cronicas tão lindas.
Esta será salva e passará a ser uma leitura obrigatória em meus momentos de recordações dos tempos em que eu tb pude viver a emoção de me comunicar com pessoas sensiveis como vc.
Manoel Alves
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