Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

De Let it Be a Clocks

Tanto choro, tanto riso, não importa o estilo. A música me proporciona viagens instantâneas a muitos lugares e momentos.


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Mais uma vez entre tantas de ultimamente, uma música me levou às lágrimas. Têm sido muito frequentes meus ataques de choro repentino, após perdas que deixaram dor infinita. E há canções ouvidas por uma vida inteira, que sempre me levam a um momento específico, uma conversa, um abraço, um sentimento, uma festa, um encontro, uma brincadeira, um amor, outros amores, uma pessoa em especial, a infância inteira, a adolescência de altos e baixos.

Sou ligada à música. Não a um único estilo. Nem sou especialista no assunto. Gosto de música, amanheço todos os dias com música. Se tivesse que montar uma cronologia dos meus mais de 40 anos, talvez a fizesse com as canções que me marcaram as diversas épocas.

E não importa se tais canções têm qualidade ou não, se são composições sofisticadas de letra e música, se são de bom gosto (aliás, o que é bom gosto neste caso?). Elas ficam lá, no registro, com um xis ao lado:

A Montanha, Roberto Carlos – meu pai mandava executar à zero hora, na noite de Natal;

Dança da Vassoura, Grupo Molejo – pneu furado na ladeira e pagode tocando no boteco em frente;

Chão de Estrelas, Orestes Barbosa – meu pai no grupo de seresteiros, chorando ao cantar o verso “Nossas roupas comuns dependuradas...”;

Várias de Belchior – cerveja no Bar do Zé Maria no último ano da faculdade;

Todas do Bread – lembram minhas irmãs que já não estão mais por aqui. Não posso ouvir nem umazinha. Desabo.

A variedade é notável, independente do estilo. Elas marcam e pronto.

Na infância, por exemplo, ouvia o que os adultos em volta curtiam e a salada era vasta em casa naqueles anos 70. Teve um pouco de tudo, desde os caipiras, passando pelos seresteiros, tinha também Roberto Carlos, o próprio Bread, Bee Gees, sambas variados e muita canção romântica italiana (!). Por falar nisso, também não dá pra esquecer a turma do brega nacional, com Sidney Magal no topo da lista, seguido por Rosana, Kátia, Peninha, Wando (ah...), entre tantos outros, que roubaram parte da cena musical lá no fim da minha meninice.

A adolescência inteira está registrada na memória com a trilha sonora dos sucessos brasileiros dos anos 80: Paralamas, Legião, Titãs, Lulu Santos, Kid Vinil, Ultraje, Blitz, Ira, Capital, Barão, e os pop rock internacionais Tears For Fears, Eurythmics, Rick Astley, Men at Work, The Police, Pet Shop Boys, U2, The Cure, Duran Duran, enfim, a lista é grande. Cada um deles tem um refrão, um solo, um riff, que me proporcionam uma viagem instantânea a algum lugar lá atrás.

Beatles é para sempre. A primeira música que tenho guardada lá no cantinho das minhas lembranças de infância é Let it Be. O disco de vinil compacto com a maçã da gravadora Apple trazia esta canção no lado 1 e You know my name no lado 2. E eu ouvia e ouvia e ouvia. O primeiro namorado cantava cover de Beatles na escola e há canções que me levam até hoje aos olhos dele, que se apertavam levemente quando cantava. O marido atual é músico; fazia shows em clubes quando os rapazes de Liverpool estavam no auge do sucesso, e hoje vivemos juntos estas recordações – mais dele que minhas.

Ao pensar sobre as canções da atualidade que deixaram marcas, Clocks, do Coldplay, é a primeira a vir à mente. Além de gostar da banda desde o início, gostei especialmente desta música logo na primeira vez em que a escutei, e vivi um momento muito especial ao lado de uma pessoa inesquecível, quando curtimos juntas o solo (original ao piano) executado numa guitarra. Sim, Clocks me faz chorar, aos soluços.

Há poucos dias fiz uma sessão brega com meu marido em casa. Ele ao violão e eu cantando hits que nem ele conhecia, de Antônio Marcos a Jane & Herondy e até o Ovelha (quem lembra?). Rimos muito. Eram xaropes que as rádios AM executavam sem descanso, como os axés e sertanejos universitários atuais. A delícia de tudo isso é a graça, o riso ou o choro que vem ao rosto, felizmente.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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