Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

HD Externo

A memória, antes brilhante, agora se espalha por todos os cantos da casa, em blocos e caderninhos rabiscados a lápis


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Das várias consequências da quimioterapia de dois anos atrás, ganhei de presente um tal de déficit cognitivo, que me roubou boa parte de algo que em mim era brilhante: a memória. Curado o câncer, vida normal, trabalho a mil, mas lembrar... ah, que coisa mais difícil! A pessoa que antes não precisava de agenda telefônica, hoje é capaz de esquecer uma informação captada dois minutos atrás; não recorda o nome do próprio livro; sai da sala para a cozinha, chega lá e... O que era mesmo? Anota algo no caderninho na cabeceira da cama, para não se esquecer no dia seguinte e, no dia seguinte, por que anotei isso?

Caderninhos. Eles é que me salvam, diariamente, em qualquer situação. Tenho vários, de diversos tamanhos em locais variados: no carro, na mesa de trabalho em casa, na mesa de trabalho no escritório, na cabeceira (já disse isso), em cima da geladeira, na bolsa (ou nas bolsas). Em tempos de notebook, Iphone, Tablet e outros dispositivos móveis são os caderninhos ou bloquinhos os meus fiéis companheiros, nos momentos em que preciso rabiscar uma ideia que me ocorre, rápida, e que eu, com toda a certeza, não lembrarei daqui a cinco minutos. Antes que meu cérebro as apague automaticamente, as transfiro para o que chamo de meu HD externo.

Já convivia com a necessidade de ter sempre um bloquinho à mão, por força da atividade profissional. Jornalista que se preza não anda sem caneta e papel. Fiz-me cronista e, na observação diária dos movimentos a minha volta, preciso ter um papelito por perto para adiantar ideias que se tornarão texto mais tarde. E os tenho de todos os tipos.

Há dois anos, por exemplo, ganhei meu primeiro Moleskine. Aterrissou na minha cama; um presente vindo de muito longe, para animar meus dias de enjoo quimioterápico. Estão nele muitas das anotações que viraram crônicas sobre os meses de tratamento, textos de dores e humores, ácidos e até cômicos. Também veio de longe um bloquinho que me aguarda na estante, à espera que algum dos que estão em uso se esgote de pensamentos começados. No aniversário, ganhei um caderninho bem pequeno, 5x5cm, que está no painel do carro. Nele traço rapidamente, numa parada, coisa que vejo na rua, enquanto dirijo.

E são, mesmo, minha memória. Como foram e são de muitos escritores e artistas. Dos que me lembro por ter lido a respeito, Proust, Oscar Wilde, Euclides da Cunha, Ernest Hemingway, Agatha Christie, Fernando Pessoa, Joaquim Ferreira dos Santos. É de Rubem Braga uma das melhores crônicas que já li, e que trata do sumiço do seu caderno de anotações de endereços. “Tem este autor publicado vários livros e enchido ou bem ou mal centenas de quilômetros de colunas de jornal e revista, porém sua única obra sincera e sentida é esse caderninho azul, escrito através de longos anos de aflições e esperanças, e negócios urgentes e amores contrariadíssimos, embora seja forçoso confessar que há ali números de telefones que foram escritos em momentos em que um pé do cidadão pisava uma nuvem e outro uma estrela e os outros dois... – sim, meus concidadãos, trata-se de um quadrúpede. Eu sou um velho quadrúpede e de quatro joelhos no chão eu peço que me ajudeis a encontrar esse objeto perdido.”

Atrás de mim, na estante, blocos, cadernos e caderninhos formam pilhas. Já pensei em promover uma faxina, jogar fora o que não serve mais e guardar apenas as anotações que julgar importantes. Mas, como categorizar? Só de pensar na organização que terei de criar, me travo de preguiça. E eles vão se empilhando às minhas costas.

Ao terminar esta crônica, passo os olhos no Moleskine ao lado, para conferir se tudo o que anotei foi devidamente citado, se as ideias traçadas foram desenvolvidas, enfim, se não esqueci nada. Viro a página e lá estão mais rabiscos a lápis de novos temas, que se misturam com contas a pagar, horários de consultas, telefones, orçamentos de serviços para clientes. Está nas últimas folhas. Já paquero aquele novinho que ocupará seu lugar, em breve.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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