Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Em busca de desprendimento

Relato da experiência nos campos de concentração nazista dá a medida exata do que é realmente necessário para viver


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“Em busca de sentido”, de Viktor E. Frankl é uma grande lição de desprendimento que o autor, neurologista e psiquiatra, nos oferece, ao relatar detalhes de sua experiência pessoal nos campos de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. A rotina diária como prisioneiro exigia mais que desprendimento e desapego; exigia quase sair do corpo, numa abstração total. Para Frankl, a maior parte dos milhares de pessoas que morreram nos campos, com exceção das friamente assassinadas, padeceu de suas próprias negações, da simples impossibilidade humana de deixar de ser o que é para simplesmente não ser; apenas existir. E para isso seria preciso abrir mão de si, o que para muitos significa a morte em vida. Porém, foi assim que ele sobreviveu – sobrevivendo a si mesmo.

O autor conta que na recepção, no primeiro dia, já lhe tomaram as roupas, substituídas por trapos velhos de prisioneiros mortos, e os cabelos raspados. Ficaram apenas com os sapatos, que foram se desgastando com as marchas, o trabalho forçado, a umidade, a ponto de serem amarrados com arames, quando podiam ser amarrados, pois o estado de fome e desnutrição era tamanho, que o edema nos pés os impediam de calçar. Fora isso havia os piolhos, a fatia mísera de pão que era guardada para uma pequena mordida em vários horários do dia, a sopa aguada, que trazia apenas algumas ervilhas quando a concha descia mais ao fundo da panela. Dormiam tarde – quando dormiam – e de madrugada eram acordados por uma sirene infernal, chamando-os para a marcha até os locais das obras, que eram verdadeiras valas, onde cavavam e cavavam e cavavam. E eram sumariamente humilhados, diariamente, várias vezes ao dia.

Este é um dos maiores exemplos de desprendimento que já pude conhecer, no qual, como disse, o indivíduo precisa sair de si, se quiser encontrar alguma força, algum sentido, para continuar vivendo. Porém, ao ler as poucas páginas do relato de Frankl, dá certa vergonha do próprio dia a dia, da rotina, do trabalho, dos relacionamentos, das exigências que tentamos o tempo todo impor ao mundo, como se para viver o ser humano necessitasse de tantos penduricalhos.

Aprende-se noções básicas de higiene, apresentação pessoal, elegância ao vestir, etiqueta à mesa, que para a convivência em sociedade são fundamentais, mas que se tratados com exagero tornam-se, sim, puramente caso de apego, que levam o ser a nada; apenas os faz sofrer ainda mais num caso limite de privação como no de Frankl. Exigem-se a roupa bem passada, o colarinho esticadinho, sapato engraxado, terno, gravata. Gastam-se fortunas em salões, onde se alisam as madeixas permanentemente. “Não durmo sem meu travesseiro”, “Só tomo leite da marca tal”, “Não bebo isso”, “Não como aquilo”, “Não aceito!”, “Não permito!”. E nem vou me estender aqui nos apegos das relações pessoais do tipo ciúme ou sentimento de posse do outro.

Quem sou eu pra falar de desprendimento e desapego; ainda me faltam algumas reencarnações pela frente para me libertar de mim. Mas a experiência com o câncer – longe de comparar com a experiência de Frankl – pelo menos já mostrou o caminho, ou seja, já pude entender que nada tem importância ao não ser estar viva, me relacionar bem com as pessoas, fazer o que gosto, ler, estudar, aprender sempre e mais, me aceitar e aceitar o outro, sem conceitos ou pré-conceitos, tentar compreender sempre mais e mais, não me sentir o dono do mundo nem de ninguém. Resta-me boa vontade para o exercício diário de colocar estas lições em prática.

E para terminar esta conversa que ficou séria demais, um exemplo de exercício de desprendimento que ouvi de uma mulher em Paraty: a criatura precisa fazer xixi, não há local adequado por perto, entra numa padaria, pede uma água e permissão para usar o banheiro. Enfia a garrafa de água no bolso do casaco e vai. Passa pelo balcão, pega um bolinho de guardanapos. O banheiro tem duas portas: a primeira dá acesso apenas à pia; a segunda, ao gabinete privado. As duas portas possuem apenas os buracos de onde um dia houve fechaduras e maçanetas. O banheiro é imundo, fétido, tem o chão molhado, não há papel higiênico, tampouco luz. A mulher pode desistir, mas não há mais tempo. E então, decide tentar o malabarismo.

Encosta a porta, segura-a com uma das mãos e com a outra precisa fazer todo o resto, além de não poder se sentar. Claro que nada dá certo. A posição de pé, os joelhos levemente flexionados, o braço esticado segurando a porta não lhe permitem a perfeita operação de fazer xixi diretamente dentro do vaso, o que provoca um problema a mais na hora de usar aquele mísero bolinho de guardanapos. Conclusão: ela tem que se conformar que a sensação molhadinha após vestir a calça deve ser superada, ou seja, deve abstrair. Afinal, seu xixi não passa mesmo de líquido corporal, rico em sais minerais, né? Ela segue em frente e continua o que estava fazendo, pois só poderá tomar banho tarde da noite – muitas horas depois.

Está com nojo? Torceu o nariz? Então, que tal ler “Em busca de sentido”?


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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