Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Sobre desejos contidos e realizações

Estamos sempre tão presos por medos e preconceitos, que os sonhos vão ficando pra depois ou pra nunca mais


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O cara mal me conhece e me convida para mostrar suas roupas, as que está confeccionando para se apresentar em shows. Mal arranha um violão, decidiu que agora é compositor de música sertaneja, pretende encarar os palcos e ainda gravar um DVD. Não aparenta ter mais que 45 anos, é comerciante, casado, com filhos. Escutei – apenas escutei – toda a fala dele; não saberia mesmo o que dizer, tamanha a minha surpresa, ou incredulidade. Disse que a vida inteira sonhou ser cantor e que agora decidira pelo menos tentar e que estava muito feliz por ganhar coragem. Contou do apoio da mulher e do resto da família e conforme falava ia me mostrando as camisas coloridas que está confeccionando para brilhar como a mais nova voz sertaneja da região.

Em princípio achei aquilo tudo uma maluquice, claro. Por isso nem consegui emitir opinião ou qualquer comentário. O sujeito estava numa empolgação danada, me dando tanta importância, que não pude expressar reação. Apenas perguntei que material era aquele usado para decorar (?) as roupas. “Cola especial para tecidos”. “Ah, tá.” Saí da loja meio desconcertada e passei as horas seguintes pensando nele, claro. E da incredulidade passei à admiração, talvez certa inveja. Ele estava tentando concretizar um sonho, sentia-se vitorioso por decidir ao menos tentar, estava muito entusiasmado com a novidade que trouxera para sua rotina de comerciante de bairro. Ele estava feliz.

Que faço eu para ser feliz? Que faz você? O que realmente fazemos por nós? Alguma tentativa ao menos?

Escamoteamos nossos desejos mais profundos em nome de comportamentos, posicionamentos ou posturas impostas por educação familiar repressiva, além do que nos exige a convivência em sociedade. Ninguém quer pagar mico, chamar a atenção, se expor. Outros motivos são a preguiça, o orgulho, a timidez (filha do orgulho), falta de tempo (ou incapacidade de fazer tempo). E quando alguém toma a coragem de realizar algo extraordinário simplesmente porque está a fim, ouve no mínimo um ‘cruz credo, tá doido!”. Isso se chama interpelação. Não fazemos, não temos coragem, mas não gostamos que o outro faça, nos sentimos interpelados por isso.

O cara me interpelou. Não que tenha vontade de ser cantora, muito menos sertaneja, mas me perguntei o que estou fazendo por mim. Sem nenhuma ponta de egoísmo. Pergunto-me o que faço além de trabalhar e tocar a rotina doméstica. Faço terapia, frequento salão, tomo minha cerveja em casa, eu comigo. São coisas do dia a dia que faço por mim. E...

Minha prima faz teatro (acho que ainda faz). Deve estar com quase 70 anos e escolheu ser atriz na terceira idade, depois de se aposentar e ver sua filha adulta e independente. E a fala dela foi “agora vou fazer algo por mim, algo que não tive como fazer antes, vou realizar um sonho”. Já com mais de 50 anos entrou para uma escola de teatro e lá está, curtindo os palcos por aí. É atriz famosa? Não. Foi convidada para novelas na Globo? Também não. Mas está exultante. “Indescritível a sensação de estar num palco, incorporando um personagem, me emocionando e emocionando outras pessoas”. Quanto vale isso?

Penso muito nestes desejos que acompanham a gente a vida toda e que na maior parte dos casos ficam lá dentro, amarrados a diversos tipos de prisões às quais nos submetemos. Tenho o péssimo hábito de lamentar por tudo o que não fiz, as oportunidades que não aproveitei, as chances que não me foram dadas. Mas algumas pessoas despertam depois que levam certos sustos e o câncer curado ainda me sacode. Ter uma doença grave nos põe diretamente em contato com a realidade, a de que ali na frente há um fim, ou pelo menos uma transição, e que podemos, sim, fazer algo mais, sempre. E tenho pensado seriamente no que posso fazer a partir de agora.

Em Volta Redonda, onde moro, há milhares de idosos atendidos pelos programas sociais da prefeitura. Não costumávamos dar a devida importância a isso, exceto por valorizar a inclusão. Mas, pensando bem, por maior que seja a interpelação que provocam, são milhares que estão fora de casa, realizando, optaram por ser felizes, mesmo sabendo que pode lhes restar pouco tempo para curtir tudo o que gostariam. Porém curtem o que há. Escolheram viver. E estes mesmos idosos ainda participam do Bloco da Vida, que se apresenta anualmente no carnaval da cidade, com direito a carro alegórico, passistas, destaques, salto alto e perna de fora. Ui!


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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