Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Às mulheres carecas que vejo nas ruas

Queria dizer a elas o quanto são importantes para o mundo


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Elas não circulam tanto pelas ruas como gostaria que fosse normal. Cometi esta ousadia muito mais que outras tantas, mas sei que não é fácil. É necessária uma dose bem alta de aceitação para desfilar pelo comércio, shoppings, bares, restaurantes, festas, exibindo um turbante, boina, lenço ou chapéu, confessando ao mundo que foi pega por um câncer. Como eu, aqui por perto, nunca me deparei, ou melhor, raras vezes.

Esbarro com uma de vez em quando. A impressão é que querem se tornar invisíveis. Caminham meio furtivas, olham para baixo, ajeitam o lenço a todo momento na tentativa de esconder a cabeça por cima das orelhas e da testa. Nunca vi uma delas sorrindo. O mergulho pra dentro é tão grande que a maioria engole o riso, as bocas se fecham, se encolhem na dor, às vezes na revolta do “por que eu?”, na depressão, no medo. Como se fosse pecado ao menos tentar um humor melhor, se alegrar, ver algo de bom na vida mesmo assim.

É duro, isso eu sei, dar esta tal de volta por cima e encontrar motivo para, ainda assim, achar graça na vida. Logo que se recebe o diagnóstico “você tem um câncer”, é como ter em mãos o próprio atestado de óbito. A doença é tão assustadora e ainda tão devastadora na maioria dos casos que saber que é portadora de um tumor é como ser avisada de que vai morrer em breve. “Arrume suas coisas, organize sua vida, despeça-se dos seus amigos e parentes. Sua ida está próxima.”. Por isso a tristeza, a depressão, a falta de forças, desânimo, cansaço. Por isso a descrença de que vale a pena lutar. Por isso o desdém com a necessidade de se buscar algo escondido lá dentro, como vontade de viver, por exemplo.

Topei com uma destas mulheres no elevador. Usava lenço colorido, olhos baixos, aquela tez reconhecidamente modificada pelo tratamento quimioterápico. Era amparada por outra pessoa. Frágil, nitidamente cansada. Passei por isso por volta da quarta seção de quimio. Minha vontade foi de chamá-la, pedir que olhasse para cima, que visse o mundão a sua volta, as pessoas que a esperavam para viver, que me olhasse “veja, estou curada, você também pode!”. Mas esta coragem não tenho, porque sei que a maior parte delas não quer ouvir, não quer ver, quer mesmo o isolamento do medo, do luto antecipado. Ou um montão de outras coisas que passa pela cabeça e ninguém sabe nem nunca vai saber. Porque nunca entenderia, a menos que passasse por isso.

Compreendo a todas e por compreendê-las gostaria de poder chegar mais perto, dizer que é possível. Fica-se, sim, após o câncer, com uma nuvenzinha negra de medo acima da cabeça, mas é preciso uma dose cavalar de coragem para pensar na morte como fato, que ocorrerá a qualquer dia, a qualquer momento, de câncer ou não, e que por isso o que importa agora é viver. Seja como for.

Estou inteira há quase quatro anos pós-tratamento, fiz e faço coisas incríveis. Nunca deixei de fazer planos, programar meus passos, pensar no que seria depois de tudo aquilo. Até onde vai durar? Não sei. Quem não teve doença alguma também não sabe e está aí, tocando o barco.

Às poucas mulheres carecas que vejo na rua, queria dizer estas palavras, que podem servir ou não, que podem ser aceitas ou não, que podem ser encaradas como um blá-blá-blá ridículo, “você não sabe o que diz, não está no meu lugar.”. É, não estou.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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