Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

O fim do mundo e as mortes nossas de cada dia

A poucos dias do fim de nossos dias, o que pensar e o que dizer de mais esta profecia; e desta vez, às vésperas do Natal


001.jpg Foto: Caio Damaceno

Quando era criança, tive uma crise nervosa ao fazer uma tarefa de casa da disciplina de Religião. Deveria ler alguns versículos do Apocalispe para uma atividade que seria realizada na próxima aula. Completamente despreparada para entendimento de texto tão denso e tão amedrontador, caí em choro histérico. Minha mãe, na tentativa de me acalmar, piorou as coisas: “Que é isso, minha filha, fique calma; o mundo só acaba pra quem morre.”.

“Eu não quero morreeeeeeeeeeeeer!”

Às vésperas do anunciado fim do mundo, previsto no calendário maia, impossível me esquecer da irresponsabilidade daquela professora, que obrigara uma turma de alunos com idade média de 11 anos a ler aquele trecho da Bíblia sem nenhum conhecimento prévio e sem orientação próxima. Depois do episódio, passei algum tempo com as informações do Apocalipse pulsando na minha cabeça, ainda sem entender bulhufas e, claro, com um medão danado.

Recentemente, numa reunião de estudo no Centro Espírita, o dirigente perguntou ao grupo: “Se a gente soubesse que o mundo iria se acabar em cinco dias, o que faríamos?”. Por estarmos em uma casa de prática religiosa e todos ali estão porque querem se tornar pessoas melhores (é o que se espera), as respostas não variaram muito. A maioria gostaria de aproveitar os dias que lhe restassem para exercitar as lições aprendidas, ou seja, faria o bem a mais gente, sairia agradecendo a todos pela convivência, perdoaria aos ofensores, permaneceria calmo e passivo, em prece, e por aí vai.

Naquele momento também não pude evitar a lembrança da tarefa de casa e mergulhei fundo na possibilidade. Sinceramente, não teria cabeça fresca pra nada disso. Humana e com sangue (quente) nas veias, talvez perdesse todo o tempo que sobrasse em pleno atordoamento. Ou, então, faria um monte de coisa que não tivera tempo antes, porque estava criando filho e trabalhando – na verdade, nem saberia dizer agora que coisas seriam essas.

A poucos dias de o mundo se escafeder, prefiro pensar no ano que se vai. Se para os maias, no dia 21 a Terra encerraria mais um ciclo, para se renovar novamente em seguida, prefiro relacionar este badalado encerramento com as mortes nossas de cada dia, que encerram ciclos na nossa existência para dar início a outros. Afinal, como disse minha mãe, “o mundo só acaba pra quem morre”. Estamos ao apagar das luzes de 2012 e muita coisa pode ser colocada na lista de mortes: relacionamentos, amizades, projetos, planos. Sem contar as mortes internas, que provoco com minhas próprias mudanças – quantas vidas já não matei em mim?

Por outro lado, cá pra nós, os maias previram o fim do mundo numa época muito complicada. Filho em prova final na escola, festas natalinas se aproximando, confraternizações para participar, viagem de Réveillon para programar, presentes pra comprar. Não dá tempo de pensar no fim do mundo. Como tenho dito, aliás, ele não pode acabar nesta sexta, porque é dia de manicure; preciso fazer minhas unhas para o Natal.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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