Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

A quem interessar, não morri

...ela pensou que eu estava morta e foi dizer isso a minha mãe.


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O assunto era câncer e a vizinha do bairro comentou com minha mãe: “Puxa vida, tinha uma moça bonita que morava naquela casa da esquina e me deu muita dó vê-la se tratando. Sabia que estava careca; usava uns lenços bonitos, chapéus, às vezes lavava o quintal, sempre saía de carro, muito discreta. Sabe que fiquei preocupada de uns tempos pra cá? Porque ela sumiu, de repente. Acho que morreu, tadinha”.

A mulher falava de mim, para minha mãe. Não sabia do parentesco nem da minha mudança de casa, há quase um ano. Mudei sem alarde, e agora imagino que muitos outros podem estar pensando que morri. Engraçado é que minha mãe se apressou em dizer que a ex-moradora daquela casa amarela da esquina era eu, filha dela, e que estava muito bem, distribuindo saúde. Mas mesmo assim a vizinha ficou hesitante. Mais engraçado ainda é que saí de lá um ano após o fim do tratamento e já tinha até cabelos. Acho que a tal me via pouco...

Comentei a história em casa, com o marido, e ele riu, analisando o comportamento geral das pessoas quando o assunto é uma doença grave, como o câncer. Para ele, a ignorância provoca reações deste tipo. Mas retruquei, imediatamente. Não se trata apenas de ignorância pura; há também o estigma de doença fatal, que transformou o câncer numa entidade má. É só dizer que alguém diagnosticou um tumor para provocar uma comoção aterrorizada. Muitos, então, nem conseguem falar ‘câncer’. Inventam de tudo para substituir o nome da doença ruim. Todo mundo é assim, ignorante ou não.

O problema é mesmo o estigma. Quando me tratava do câncer de mama, minha cardiologista minimizou o problema ao falar sobre pacientes que sofrem de insuficiência cardíaca. “O indivíduo pode morrer a qualquer momento, num estalo, dormir e não acordar. Não há cura. O câncer ainda tem tratamento, mas a insuficiência cardíaca não. E, no entanto, é do câncer que as pessoas têm medo. É um rótulo inadequado”. E realmente a gente não presta a atenção nas outras. Insuficiência renal também mata. E dengue.

A conversa da vizinha com minha mãe me botou pra pensar. Quantas pessoas não me veem há muito tempo e não souberam de mim após o tratamento? Quantos mais podem estar pensando que morri, pois não têm notícias minhas? Quem me lê, me vê e me adiciona nas redes sociais sabe que estou por aqui, em carne, osso e alma, porém pode haver outros por aí que foram informados um dia que eu estava com câncer e não souberam de mais nada. “E aquela jornalista, será que está viva?”.

Comunico a quem interessar que estou. Trabalhando muito, escrevendo muito mais. E a experiência me mudou não só de casa. Parte de uma Giovana velha e desgastada morreu, sim, e esta que vos fala é vida puríssima. Lancei um livro, casei, lancei outro. Após ficar careca, ganhei cabelos cacheados que agora chegam à altura dos ombros. Minhas mamas vão bem, obrigada (ainda tenho as duas), embora de tamanhos diferentes. Ainda faço acompanhamento periódico como paciente oncológica, submeto-me a exames que ainda me deixam tensa, mas, fazer o quê? São itens da minha agenda dos quais não posso me furtar.

E por causa da história que ouvi, programo um passeio a pé pelo bairro em que morei, para que todos me vejam, me cumprimentem, perguntem “Como vai?”, e eu responda “Estou muito bem, muito bem mesmo!”


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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