Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Encontro de folhetim

Após mais de vinte anos, um encontro de quase parar o trânsito.


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Na esquina, prestes a atravessar a avenida, um carro estacionado na faixa amarela (zebrada) me irritou por me atrapalhar a visão. Ao volante, uma mulher. A placa, de Belo Horizonte. “O que ela tá fazendo aí? Vê se é lugar de parar?!”, me exasperei. Mas logo ela virou de frente e passei a reconhecer-lhe o semblante. Disse ao meu filho “Estranho, aquele rosto é familiar, e a placa, de BH, parece uma colega jornalista, acho que conheço esta... Amééééééééliaaaaaaaaa!”. Baixei o vidro, gritei, gesticulei e ela, enfim, me viu. E assim se fez o escândalo entre duas peruas em pleno trânsito.

Cruzei a avenida, encontrei logo uma vaga e saí correndo do carro. Neste ínterim tive tempo apenas de dizer ao meu filho que não a via há cerca de 20 anos. E quando me virei, lá veio a louca, aos saltos pelo meio da rua, com os braços abertos. Parecia cena de novela; só faltaram a roupa branca esvoaçante e trilha sonora. Não sabia se desatava a rir ou se corria também. Afinal, a saudade era mesmo enorme. Longo abraço, beijos, muita risada, ambas querendo falar juntas. E esta emoção toda teve de caber num bate-papo que não durou dez minutos.

Trabalhamos juntas na TV anos atrás. Ela, apresentadora; eu, repórter. Nas férias dela, ou licença maternidade, era eu quem ia para a bancada do RJTV. E fora da redação e do estúdio vivemos uma amizade muito legal. Confidências, passeios, balada, Penedo. Saí da TV; Amélia se mudou para Belo Horizonte. Estamos separadas fisicamente há anos, mas nos falamos com certa regularidade, embora troquemos poucas notícias. Quando me tratei do câncer de mama, ela ficou pertinho de mim, por email, msn, telefone. Não me abandonou.

Tenho muitos amigos. Pessoas que conheci ao longo destes quase 45 anos em muitos locais de trabalho e grupos frequentados. Mas são poucas as que, quando esbarro na rua, causam este incêndio todo. Troco alguns “Como vai?” e pronto. Não há assunto. E isso não é exatamente ruim. É da vida. Não sei se é a afinidade que acaba, mas os objetivos, desejos e vontades individuais vão mudando após tanto tempo. Por mais simpática e educada que tente ser, não rola a mesma emoção, infelizmente. Não me lembro de encontrar na rua uma amiga ou amigo que não via há muito tempo e me permitir uma cena em público. Foi rápido. Mas pude constatar que permanecem a afinidade, a amizade, o interesse mútuo, e melhor: que as duas ainda são as mesmas peruas escandalosas de sempre.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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