Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Erros arrasadores

Como dizia minha avó, em boca fechada não entra mosquito


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Não fomos educados para cometer erros, ao contrário, papai e mamãe sempre nos ensinaram a diferença entre o certo e o errado, para que fizéssemos o certo; se escorregar, puxão de orelha. Em todos os outros setores e momentos da vida fazer tudo certinho faz parte da organização, da obediência, mantém o ritmo das atividades em perfeito andamento, tudo no seu devido lugar. Pessoas que estão permanentemente antenadas na ação correta costumam ser exigentes, ou perfeccionistas. E quando cometem um pequeno deslize, se corroem; se o tropeço é grande, querem arrancar as calças pela cabeça. Sou este ser autoexigente e apesar disso sempre cometo meus tropeços, me punindo logo em seguida. Ainda bem que não estou só.

Imagine, por exemplo, a pessoa que envia um torpedo a alguém em especial, com um convite excitante para uma noite de sexo selvagem. E recebe em resposta: “Quem é você?”. E tem o cara que liga para a casa da namorada, é atendido pela sogra, mas confunde as vozes. Desmancha-se em declarações de amor, de desejo, de tesão incontido, de saudades dos mais variados pontos do corpo da tal, até ouvir do outro lado da linha “Fulano, aqui não é a Fulana; é a mãe dela.”.

Os casos acima não são fictícios. Aconteceram com dois amigos distintos, em épocas diferentes, mas são muito comuns. Tem gente que passa por isso e no máximo se dobra de rir. Outros querem enterrar a cabeça no chão, como meu amigo que travou o seguinte diálogo com um jornalista colunista social, de licença por motivos políticos:

- Poxa Fulano, que chata esta sua licença. Sua substituta não é como você. A coluna está chocha, não será a mesma enquanto você não voltar. - Mas não há ninguém me substituindo. O nome que está lá é pseudônimo; sou eu mesmo. Não está gostando?

Erros arrasadores são comumente cometidos por quem é ‘boca aberta’. Falo deste povo (eu!) que desconhece a distância segura entre o que surge no cérebro e o que solta pela ponta da língua. Você já passou por isso: mete o chicote no nome de um desafeto qualquer e descobre que seu interlocutor é irmão do dito cujo, ou primo, ou filho. Aí não tem salvação. Quando é possível, neste caso, costumo manter o que disse. É mais honesto. Até porque não preciso esconder que discordo de opiniões e posturas deste ou daquele, e se não gostar, sinto muito. Em qualquer lugar do mundo em que eu esteja, o que penso permanecerá do mesmo tamanho.

E é preciso tomar cuidado sempre. Minha irmã presenciou duas mulheres falando horrores de um homem, numa conversa dentro de um ônibus. Impossível não ouvir o que diziam, a ponto de minha irmã entender que o mal falado era parente nosso. É mole?

Pior é quando erros deste tipo são cometidos no trabalho, justamente entre pessoas que precisam ser polidas umas com as outras, onde nunca se deve dizer o que pensa, onde há meia dúzia de portadores de Síndrome do Pequeno Poder por metro quadrado. Então, caro leitor, trata-se de campo minado. Qualquer passinho em falso e o pobre corre o risco de sair despedaçado. Não sobra espaço para rir dos próprios deslizes, por mais engraçados que sejam (e dependendo dos atores envolvidos, é espetáculo cômico garantido). Melhor manter a boca trancada e os braços cruzados. Pensar está liberado.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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