Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras.

O medo, esse irmão

São os assombrações que nos acompanham por toda a vida, sejam eles com ou sem forma definida, externos ou internos, reais, virtuais, imaginários ou simplesmente banais.


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Quando meu filho era pequeno, por volta dos seus três ou quatro anos, vivi com ele um episódio marcante. Íamos em direção a um canto do quintal de casa, quando ele se apavorou: “Lá não, mamãe, lá tem barata!”. Na mesma hora estaquei: “Quem te ensinou a ter medo de baratas?”. Com certeza não havia sido eu e até hoje não sei quem foi. Algum parente, talvez, do tipo que educa criança com chantagens amedrontadoras.

Recentemente, enquanto ouvia uma conversa sobre Thomas Hobbes, não pude deixar de pensar na diferença da educação que dou a meu filho, da que recebi. Hobbes diz: “Quando minha mãe me pariu, pariu gêmeos: eu e o medo.” Poderia afirmar que no momento em que comecei a me enxergar como gente, o medo já fazia parte da minha vida. Portanto, quando me vi nascida, o medo estava lá, juntinho, como o irmão gêmeo inseparável. Porque o entorno era medo, porque as palavras eram proferidas com medo. Por medo não se discutia, por medo não se encarava o outro, por medo não se falavam sinceridades.

E pelo medo era imposto o bom comportamento. Se for lá, tem bicho; se sair do portão, o velho do saco vai te pegar; se fizer feio na rua, vou chamar a cigana pra levar você embora; para de chorar, que está vindo lá o Barriga D’Água; se não dormir logo, vão puxar seu pé de noite; de madrugada tem assombração no banheiro; e por aí vai. Ouvi todas estas ameaças durante a infância.

Também havia aquele medo atávico dos fenômenos naturais, trazidos da era primitiva. Não chegávamos a esconder, mas bastava a ameaça de chuva forte com relâmpagos, que os espelhos da casa eram todos cobertos com toalhas, as facas e tesouras malocados em gavetas e todos deveriam parar o que estivessem fazendo, até passar. Já uma conhecida nossa reproduzia muito bem os tempos das cavernas, pois empurrava os filhos para debaixo da mesa.

Presenciei, certa vez, um pai (nem sei se devo chamar-lhe assim) tentando obrigar o filho a comer. Não foi uma cena comum, em que se faz de tudo para que o filho se alimente. O pai simplesmente se sentou ao lado da criança – que deveria ter uns quatro anos – colocou uma seringa ao lado do prato e disse: “Se não comer, já sabe.”. Pouco tempo depois a separação dos pais proporcionou um pouco de tranquilidade dentro de casa, mas não libertou aquele menino por completo. Por muitos anos ele levou consigo a imagem da espada do pai apontada para o seu pescoço.

Imagine como uma criança cresce, como enfrenta o mundo, como encara desafios, como se desvencilha de dificuldades, como se relaciona com pessoas de diversas classes e culturas, com esta bagagem de medo nas costas. São necessários anos de terapia, ou outro recurso de apoio qualquer, para se libertar de tais amarras e poder viver com pleno reconhecimento do que lhe é propício ou não, por livre escolha.

A anos luz de ser a mãe perfeita, procuro não repetir estes modelos, ainda muito difundidos por aí. Ter vivido a infância com o gêmeo medo sempre ao lado me deu a noção (talvez instintiva, porque ninguém me ensinou), de que não deveria levar isso adiante, reproduzindo nas telas das mentes alheias o medo como educador, fosse com meu filho, com o aluno ou o com um subalterno.

Há cerca de vinte anos, próximo ao Elevador Lacerda, em Salvador, fui abordada por uma cigana que insistia em ler minhas mãos. Disse não e dei-lhe as costas, mas ela veio atrás. Apertei o passo e ela correu. Quando olhei para trás, ela mostrou um sorriso debochado, de dentes dourados, que automaticamente me reportaram às lembranças das ciganas ameaçadoras pintadas pelos mais velhos, em casa. Corri ainda mais e, ao alcançar a porta do elevador, ela me rogou uma praga. Não levei a sério, claro, mas fiquei, sim, muito irritada comigo, por ter novamente sentido, em segundos, aquele medinho infantil. Ridícula. Bom que passou rápido, afinal, tinha e tenho medos reais para dar conta.


Giovana Damaceno

Jornalista e cronista. Produtora de conteúdo digital do UniFOA. Autora de "Mania de Escrever" e de "Depois da chuva, o recomeço". Membro da Academia Volta-redondense de Letras..
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