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doses homeopáticas de observações pop

@gotardi

não existem razões para causar problemas desnecessários.
mas tenha a certeza de causar problemas sempre que forem necessários.

Ao vivo no Village Vanguard

Em livro de memórias - uma biografia do clube - o fundador do Village conta a história de uma meca da música novaiorquina; mais do que as pessoas, a personagem principal da obra é a paixão pelo jazz.


Coltrane Live

Vamos começar definindo alguns conceitos fundamentais prá esse projeto de resenha:

Existem pelo mundo alguns livros que contam a história de locais famosos – teatros, museus, igrejas, cinemas – e que nós encaramos como sendo um encontro literário entre geografia, urbanismo, história e áreas afins.

Já outros descrevem o que aconteceu com certos movimentos político-sócio-econômico-culturais – bauhaus, nazismo, hiponguice, neoliberalismo, pinguins de geladeira – e os lemos como livros de história.

E existem finalmente as biografias, aqueles que nos contam de onde vem e para onde vão algumas pessoas e o que é que elas fizeram de importante na vida delas e no mundo.

Certo?

E bem no meio do caminho, satisfazendo todas essas necessidades, está esse lindo Ao Vivo no Village Vanguard.

Entendeu ou precisa desenhar?

Venn

(O que, é claro, foi só uma desculpa classe média para usar pela primeira vez um diagrama de Venn em um texto meu e tornar essas páginas dignas de citações no NY Times, Asahi Shimbun e trabalhos acadêmicos copiados da internet. Há!)

Ao Vivo no Village Vanguard conta a história dessa casa – ícone maior do jazz ao vivo para Nova Iorque -, conta a história de Max Gordon - imigrante lituano, fundador da casa que esteve durante décadas à frente da administração e nos bastidores de incontáveis apresentações – e conta não “A” história, não um retrato definitivo, mas algumas histórias do jazz em alguns - aí sim - de seus momentos definitivos.

E além dessa hiper complementaridade de eixos históricos, é uma dessas raras obras em que repetidos – e como são repetidos – atos de name dropping não irritam e não soam enfadonhos nem afetados.

(E – sejamos realistas – como diabos poderia alguém escrever a história do jazz evitar Chet Baker e Miles Davis aqui, Charles Mingus ali e um Thelonious Monk ou Duke Ellington mais adiante?) Publicado originalmente em 1980 - e lido em uma tradução muito mais recente disponível pela Cosac Naify - as absurdamente rápidas 232 páginas do livro contam, misturadas, as histórias de um imigrante endividado que fundou um clube em NY, um clube criado em 1935 que virou uma instituição do jazz e de como o jazz se tornou a trilha sonora de gerações e gerações.

É incrível imaginar que um espaço tão pequeno - 130 pessoas apertadas, aparentemente – tenha tido toda essa relevância que lemos nas páginas; é ainda mais incrível pensar que, entre modas que surgem sem parar – e na cidade que é o centro gerador de grande parte delas –, um clube resista a tantos anos com uma menu musical tão restrito.

A história não é contada de forma cronológica nem está completa nessas páginas; ao invés disso, Max apela para fragmentos de suas conversas com artistas e frequentadores, para momentos de sucesso e alguns pontos de incerteza empresarial e, ao abrir mão de um didatismo que não cairia bem nem a uma casa noturna nem ao jazz, entrega uma obra que merece mesmo ser lida com essa pressa que faz 232 páginas serem tão poucas.

Complementam essas histórias algumas imagens, ilustrando certas passagens do livro; ainda que impressas em offset e em P&B, quase conseguem passar uma ideia do que seriam esses nomes da música nos palcos do Village Vanguard.

Mas não é novidade para alguém que tenha um mínimo de interesse pelos bons sons em geral e pelos sons dessa veia da música em especial que aquilo que importa na história do jazz está mesmo em dezenas de discos que, gravados na casa, levam o mesmo nome do livro.

John Coltrane, Wynton Marsalis, Bill Evans, Dizzy Gillespie, Chick Corea e infinitos outros tem suas gravações feitas no Village.

(Viu só como, quando o cara – no caso o Max – fez inacreditavelmente bem o seu trabalho, essa sequência de nomes não só não soa pretensiosa como ainda desperta seus ouvidos?)

Caso mais do que clássico de leia o livro, ouça os discos.

E, se cabe no seu bolso, vá até NY que o Village ainda existe.


@gotardi

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