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@gotardi

não existem razões para causar problemas desnecessários.
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Asterios Polyp


Asterios Polyp

Desde Retalhos - aquela lindeza de obra escrita-e-desenhada pelo Craig Thompson - que uma graphic novel não me embasbacava tanto.

E um post qualquer, por maior que pareça, não será suficiente para descrever o que David Mazzucchelli faz na obra e porque diabos ela embasbaca tanto. (E, precisamente por isso, esse texto não vai ser enorme; não teria mesmo razão.)

Com um passado que inclui um clássico do Demolidor, um Batman prá lá de elogiado (ao lado de Frank Miller), uma dezena de passagens pelas capas de outras obras e, ainda, tendo sido o criador e editor - junto da esposa - da Rubber Blanket, Mazzucchelli já tinha lá seu lugar mais do que garantido no fundo da mente nerd dos fãs de HQs.

(HQs, esse negócio que vem de outra praia comparado ao que estamos falando que são as graphic novels autorais. Pelo menos na minha cabeça, ok?)

Mas o que ele faz em Asterios Polyp é inacreditavelmente maior do que tudo isso.

Partindo da ideia de que a obra vai contar a história da vida de um professor cinquentão, divorciado, que perde tudo e sai sem rumo pelo país, o que temos são todos os indícios do potencial para um road movie clichê - ou uma HQ com cara de road movie clichê - e só.

Mas sabendo que o roteiro tem momentos pinçados na filosofia, debates duológicos sobre os mais diversos assuntos, conceitos psicológicos e afins, teríamos então indícios de uma obra arrastada, densa, cabeçuda?

Sim, não, tudo e nada disso. Ou muito pelo contrário.

O que Mazzucchelli faz para contar a história de Asterios Polyp - o professor em questão, centro da obra que leva seu nome - vai em qualquer direção, menos a dos clichês surrados: Na hora de colocar a história no papel, ele usa minimamente as convenções quadrinísticas estabelecidas como ponto de partida e, daí prá frente, desfila criações inacreditáveis a cada par de páginas.

Usando mais as extrapolações gráficas do que a escrita para representar/descrever desde as pessoas, suas personalidades, sentimentos e sensações até os ambientes e os acontecimentos, Mazzucchelli nos brinda com coisas como essa:

Asterios_Diferencas.png

E, acredite, ainda que sua formação não inclua tipografia, história da arte ou arquitetura - a disciplina ensinada pela personagem -, durante a leitura da obra esses ramos das artes descrevem perfeitamente cada personagem, cada momento, cada pensamento e, mesmo sem muita familiaridade com essas áreas, todas essas nuances e intenções se fazem perceber.

Os traços retos e cortados em que Polyp aparece desenhado nos momentos mais tensos, a forma toda curva em que aparece a (ex)esposa nos flashbacks, o roxo-lilás, resultado (imaginado?) da fusão do azul claro de Polyp e do magenta da esposa, representando os momentos de integração entre eles, os flashbacks nesses tons e o tempo presente em amarelo, os enquadramentos e sequências quase cinematográficos de certos trechos...

E o capítulo à parte nesse embasbacamento gráfico-literário que é a tipografia dos diálogos.

Nesse caso, eu não conseguiria colocar nem no maior dos textos o quanto as escolhas tipográficas são fundamentais e o quanto a Cia. das Letras acertou em deixar isso nas mãos de quem sabia perfeitamente o que estava fazendo para a edição brasileira.

E não só um texto não daria conta de descrever a obra - já avisei -, como um texto que a descreva demais poderia estragar muito da experiência e das percepções possíveis então... chega; nem com as inúmeras resenhas da rede é possível explicar como - dentro desse universo das graphic novels - estar com Asterios Polyp nas mãos é segurar um clássico, uma obra prima, um livro definitivo.

Ou, em bem menos palavras do que esse texto - e pelas muito mais renomadas ideias de Scott McCloud:

If you’ve read Asterios Polyp once… Read it again. [...] If you’ve read Asterios Polyp more than once…Okay, now we can talk.

Faça-se esse enorme favor e leia Asterios Polyp.


@gotardi

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