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A história da NME - New Musical Express

Como toda narrativa do mundo do rock, a história da revista é cheia de altos e baixos, porres, overdoses, orgias e afins; Pat Long, ex-repórter da NME, conta os 60 anos do ícone da imprensa musical.


NME Siouxsie

Não faz muito tempo - okey, talvez faça um tempão sim - nós ouvíamos a música que as rádios queriam tocar e, às vezes, aquelas que a grana conseguia comprar em discos, fitas e afins; com alguma sorte e um tanto de economia dava para ir num show esporádico de algum grande nome da música que já estava indo ladeira abaixo e aparecia pelo Brasil.

E nesses tempos pré-mp3, pré-streaming, pré-show ao vivo da Europa direto para o seu computador em HD, - tempos em que a informação demorava prá chegar, quando chegava - eu, você e outros milhares de fãs gastávamos um tanto do dinheiro nas bancas de jornal.

Melhor dizendo, nós investíamos.

Investíamos dinheiro em ShowBizz, Roadie Crew, Rock Brigade, Zero, Dynamite, OutraCoisa, Revista da MTV, Revista da 89... Isso sem falar das inúmeras revistas com letras e cifras empilhadas pelo quarto que, se não ajudaram com o violão, ao menos ajudaram com as aulas de inglês.

Mas muito antes de nós fazermos esse caminho mensal até as bancas, um povo do norte fazia caminhadas semanais até os comerciantes desses impressos: foram os gloriosos tempos em que centenas de milhares de cópias eram impressas todas as semanas, dos mais variados títulos, com o que merecia ser ouvido, visto ao vivo, comprado.

E é a história de um dos mais icônicos títulos que já circularam por quiosques britânicos que conta o The History Of NME.

Que tal uma playlist bacana para se aprofundar no universo da NME?

Foi para contar os 60 anos da história do título que Pat Long - ex-jornalista da revista - escreveu as 240 páginas desse livro; de título especializado em acordeons nos anos 30, dedicado ao mercado e a listagens de músicos procurando emprego até chegar a categoria de referência para o público consumidor, os artistas e os empresários, a trajetória da revista tem seus inúmeros e esperados altos e baixos, passando por óbvios excessos com bebidas, drogas e sexo até chegar na migração para a realidade corporativa de pertencer a um gigante da mídia.

Tendo coberto de perto as ondas locais que varreram o mundo - o post punk, o britpop, a acid house - a NME tem em seus arquivos de seis décadas um retrato bastante abrangente (ainda que não isento) das mudanças da música e de como ela é feita, vendida e consumida; através de consultas a essas edições antigas e das entrevistas com vários antigos jornalistas e editores, Pat Long cria uma narrativa bacana de uma revista que tinha seus músicos escolhidos e os preteridos - alguns deram certo, outros não deram em nada -, que defendia seus pontos de vista e brigava abertamente com publicações concorrentes.

Fica claro, nas entrevistas e em alguns relatos, que eles viviam momentos de quase inocência, em que parece que aquelas pessoas - verdadeiros apaixonados pela cena musical e tudo que a cercava - estavam fazendo algo maior do que uma revista: estavam lutando por uma causa, batalhando na guerra pelos bons sons.

(Ou apenas propagandeando a música que eles gostavam, sem importar muito a opinião do público ou do mercado...)

NME evolution

Se hoje o nome New Musical Express, a sigla, o logotipo são pouco mais do que uma marca super-explorada em uma plataforma internacional de marketing musical, existiram épocas em que as páginas da revista eram a referência da música pop; ler sobre esses dias é, sem dúvida, um deleite para nós, fãs incondicionais de discos, fitas, posters, covers, documentários musicais, letras, capas de discos...

Mas, ainda que a leitura seja um prazer, fazem falta - além de uma melhor revisão do texto - as capas das revistas: um livro que toca nesse assunto seria muito melhor com mais fotos das pessoas retratadas, imagens de shows e das suas inúmeras capas clássicas... Talvez uma futura edição em couché possa corrigir isso, já que essa é impressa em papel offset, padrão livro-de-bolso, apesar da capa dura.

Se não é o melhor relato da indústria cultural falando de si mesma que você vai ler na sua vida - talvez não seja nem o melhor livro sobre a NME - vale muito a leitura; é daquelas obras que passam rápido e faz desejar que mais livros sejam escritos sobre o assunto, o que é sempre um ótimo sinal.

Eu não sei se as revistas que nós tínhamos - com a realidade devidamente transportada para o lado de baixo do globo - fizeram bonito e cumpriram o papel da NME, Melody Maker, Uncut, Kerrang!, Smash Hits e afins mas era o que estava nas nossas bancas, e ter essas revistas na adolescência foi fundamental, algo que até hoje desperta saudade.

Bons tempos de comprar uma revista, descobrir uma banda e ouvir com calma um disco ao invés de ler uma penca de blogs, baixar a discografia toda e ouvir sem atenção alguma.

Coisas de quem já ficou velho.

p.s. A obsessão por esse consumo de semanais musicais foi algo que, ao menos na minha geração, associava-se ao mercado jovem/musical inglês; por mais que RollingStone, Spin e afins circulassem muito nos EUA e também fossem referência, a categoria weeklies-obsessed sempre caiu melhor nos ingleses.


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