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Últimas Palavras

Trabalho final de um provocador hábil, "Últimas Palavras" encerra e sintetiza a carreira de Hitchens; ciente do fim, não foge das brigas até o final.


Hitchens

“Impressionante como coração, pulmões e fígado resistiram: eu teria sido mais saudável se fosse mais doentio.”

Ao longo dos anos, meu contato com o que Hitchens escreveu foi com artigos e não com livros; uma hora isso iria ter que mudar e porque não começar com o último livro que ele escreveu?

Para quem está acostumado com o tipo de raciocínio, com as ideias, com certa intransigência e – eu não sou fã de descrições sinestésicas mas… - palavras amargas e azedas, não é um livro que apresente nada novo, claro, mas encerra bem uma carreira como a de Hitchens.

São poucas as páginas, assim como foram poucos os meses entre o diagnóstico do câncer e a morte dele, mas dessa forma, em poucas páginas, acompanhar um cérebro desses, consciente de seu final, é uma oportunidade a ser aproveitada.

Entre dezenas de outras pequenas qualidades, o livro tem um dos melhores primeiros capítulos que eu lí em muito tempo – agradecimentos também ao tradutor – e, se te faltar vontade de ler ele todo, os dois primeiros parágrafos te fazem, caso você tenha um pingo de humanidade, ficar com um nó na garganta.

Ainda que com sua torta opção conservadora no fim da vida – e isso é positivo ou negativo de acordo com suas convicções, mas não invalida a obra e, sim, pode ser compreendido -, Hitchens foi um dos grandes, grandes, GRANDES polemistas-pensadores dos nossos tempos: sorte de quem o teve por perto, comentando os temas que nos são tão cotidianos.

Nessas 70 ou 80 páginas, o que se percebe de Hitchens é alguém em certa quantia assustado – não podia ser diferente – mas apenas dentro do que faz sentido a sua figura; um autor que reafirma suas convicções, um ser humano cheio de erros e acertos a serem sublinhados.

Durante suas páginas, Últimas Palavras vai ficando mais calmo, mais ciente de seu final, mais entregue; por isso que, quando Hitchens apresenta, logo no segundo capítulo, algo como:

“Quem mais acha que Christopher Hitchens ter câncer de garganta terminal [sic] foi a vingança de Deus por ele usar sua voz para brasfemá-Lo? [...] Ele vai se contorcer de agonia e dor e se reduzir a nada, e depois ter uma horrível morte agonizante, e ENTÃO vem a parte realmente divertida, quando ele é mandado para sempre para o FOGO DO INFERNO para ser torturado e queimado.”

ao que responde com, lindamente, com:

“Minha garganta até o momento não cancerosa – apresso-me a garantir a meu correspondente cristão acima – não é de modo algum o único órgão por meio do qual blasfemei.”

devemos aproveitar, sim, como os últimos rounds de um pensador combativo, um ateu sem desvios em sua falta de crenças, um autor a ser lembrado.

O epílogo, curto, é de Carol Blue, esposa de Hitchens; dessas poucas páginas se tira algo curto que é a cara de dele:

“Todas as vezes Christopher tem a última palavra.”

Então que seja assim: também dos fragmentos que ficaram incompletos e encerram o livro:

“Se eu me converter, é porque é melhor que morra um crente do que um ateu.”


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