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@gotardi

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É tudo ruído

O livro de Nate Silver se propõe a ser uma longa análise teórica sobre estatística e afins, mas mostra também que - em 576 anos - a gente não melhorou muito.


O sinal e o ruído

Já fazia um tempo que ele tava lá na estante esperando e… bom, acabou que foi “O Sinal e o Ruído Por que Tantas Previsões Falham e Outras não” que entrou na cabeceira.

E, quem diria, em um livro que teoricamente seria uma longa análise de estatística e afins (era o que eu imaginava, de repente eu só não entendi a orelha do livro mesmo) eu achei um bocado de parágrafos que caem como uma luva para nossos dias.

Um exemplo?

A quantidade informações aumentava com uma rapidez muito maior do que nossa capacidade de saber o que fazer com ela ou nossa habilidade de diferenciar informações úteis ou equivocadas. Paradoxalmente, ter um volume tão maior de conhecimento compartilhado estava ampliando o isolamento em termos nacionais e religiosos. O atalho instintivo que tomamos diante do “excesso de informação” é sua seleção; escolhemos aquelas que nos interessam e ignoramos as restantes, tornando aliados aqueles que fizeram as mesmas escolhas e inimigos os demais. (p. 11)

Eu sei, parece que ele está falando da internet. E esse grifo pode até lembrar o que acontece atualmente, em que todo mundo só prega para os convertidos, todo mundo quer opinião igual e não faz mais a menor ideia de como conviver com quem pensa diferente – seja na zona política brasileira, na eleição norte-americana ou em atentados religiosos pelo velho continente.

Mas olha só, quem diria… Essa frase tão atual descreve a invenção do tipo móvel, lá pela metade do século quinze.

Trocando em miúdos, 2016 – 1440 = 576.

Em 576 anos a gente não melhorou em nada, não aprendeu nada; Mas que belo exemplo de darwinismo dando errado esse nosso comportamento não-evolutivo, não?

E o Nate Silver continua, desta vez se valendo de uma citação shakesperiana:

“Os homens podem, porém, interpretar coisas ao seu modo/ Livre da finalidade da coisa propriamente dita” (p 12)

E como eu bem duvido que Shakespeare tivesse dons de Nostradamus e estivesse prevendo o futuro, essa passagem não é não sobre os dias atuais. Mas podia ser, não? Porque, se tem uma coisa que a gente descobriu e aperfeiçoou ao extremo nessas últimas décadas – e com especial habilidade nos últimos anos – foi esse negócio de distorcer verdades, de ler e compreender o que a gente quer nas palavras alheias.

Nota dez na categoria malabarismo semântico para o ser humano do século XXI.

E ainda no mesmo livro – aliás, ainda nas primeiras páginas, isso tudo está na introdução da obra – Silver continua:

Alvin Toffer, no livro Choque do Futuro, de 1970, previu algumas consequências do que chamou de “sobrecarga da informação”. Em sua opinião, nosso mecanismo de defesa seria simplificar o mundo de maneiras que confirmassem nossas tendenciosidades, mesmo que o mundo em si estivesse se tornando mais diverso e mais complexo. (p. 20)

Okey, neste caso sim o tal Alvin Toffer estava investido do papel de Nostradamus e conseguiu prever o futuro com uma exatidão de dar inveja a qualquer cigano. (Não que seja difícil isso, mas você entendeu minha intenção nessa comparação preguiçosa, não?)

É isso. Nós não temos a menor vontade de pensar muito porque, basicamente, isso dá um puta dum trabalho. E já que não dá mesmo para tentar encarar esse monte de tons de cinza, essas áreas obscuras da vida, as diferentes visões de mundo, vamos todos simplificar no menor número possível de palavras e repetir como um mantra.

Aí fica fácil, seja o mantra Não Vai Ter Golpe ou Fora Dilma, Make America Great Again ou A Future To Believe In, é só repetir e se cercar de quem concorda que – que alívio! – não precisa pensar mais.

Mas vamos dar um mínimo de alívio para nós mesmos: ainda que saibamos que o que mais tem é motivo para pensar cada vez mais, os subsídios intelectuais – se me permitem florear um pouco a frase -não são exatamente material de primeira, não?

A informação deixou de ser um bem escasso, hoje temos uma quantidade tão grande de informação que não sabemos como usá-la. Todavia, a quantidade de informações úteis é relativamente reduzida. Nós as percebemos de forma seletiva, sem dar atenção às distorções resultantes. (p. 24)

E se o material disponível em geral já não é grande coisa, nós não sabemos exatamente como usar ele e ainda acrescentamos essa seletividade tradicional da nossa mente para ajustar o que vemos dentro do nosso batido confirmation bias, de que adianta mesmo gastar tempo pensando, se preocupando, cogitando?

Deixa quieto. Chega de pensar. Idiocracy é o futuro, a gente só não tinha percebido. (Tá, o Mike Judge percebeu, parabéns para ele.)

Ah, e claro, o livro é recomendado – senão não tinha escrito sobre ele – inclusive porque o autor é bom de citações e conseguiu usar até O guia do mochileiro das galáxias:

A maior diferença entre uma coisa que pode pifar e uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum é que, quando uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum pifa, normalmente é impossível consertá-la. (Douglas Adams)

Publicado originalmente em @entretido


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