Épiphanie

algo que surge não se sabe nem como nem porquê

Raquel G. Rebelo

Curiosa, cativada pela arte de escrever e fotografar. Autora de infinitas páginas de moleskine, aprecia sobretudo a criação espontânea.

Una pintora entre los pintores

Em 1950, ainda eram os homens que dominavam o mundo das artes. Remedios Varo foi uma das excepções. Os seus quadros mostram como é ser uma excepção.


bankersin-action.jpg!Blog.jpgBanqueros en acción (1962), por Remedios Varo

Entre 1930 e 1940, em Espanha, os ideais republicanos confrontavam-se fortemente com a – então emergente – ditadura franquista. Por esta mesma altura, a pintora surrealista Remedios Varo – mesmo com as suas tendências revolucionárias – preparava-se para fazer de Paris a sua nova morada. Contudo, assim não aconteceu. Hitler e o seu inabalável exército não o permitiram. Depois da ocupação Nazi em França, a artista foi obrigada a instalar-se no México, onde permaneceu até ao fim dos seus dias.

disturbing-presence-1959.jpg!Blog.jpgPresencia Inquietante (1959), por Remedios Varo

Com uma vida fortemente marcada pelas fugas aos regimes ditatoriais, era expectável que Varo vinculasse ideias liberais ao seu trabalho. No entanto, este não era o único assunto pelo qual se interessava. O foco das suas criações prendia-se, também, com o seu estatuto enquanto pintora: tratava-se de uma mulher que tinha dispensado o seu inato papel de musa, no mundo das artes, para se juntar ao vasto grupo masculino de surrealistas.

hairy-locomotion.jpg!Blog.jpgLocomocion capilar, por Remedios Varo

Para além das suas influências esotéricas e das suas propensões irrealistas – onde nos obriga a observar novas dimensões (a inserção da 4ª dimensão), onde representa a sua perspectiva da matéria e do mundo –, os olhares mais atentos podem deparar-se com algumas características curiosas, na sua obra.

magic-flight-or-zamfonia.jpg!Blog.jpgVuelo Mágico o Zamfonia (1956), por Remedios Varo

As figuras andróginas, com faces em forma de coração e grandes olhos vazios reflectem sentimentos de insatisfação e frustração. Normalmente, estas personagens apresentam-se isoladas, aprisionadas ou escondidas – subordinadas as outras personagens (sempre masculinas) que, possivelmente, representam a força dominante. A ideia de aprisionamento – por consequência, privação de liberdade – acaba por se tornar numa constante.

troubadour.jpg!Blog.jpgTrovador (1959), por Remedios Varo

Em suma, é possível que Remedios Varo tenha denunciado, através da sua obra, aquilo que seria a vida de uma mulher que, na década de 50, partilhava as mesmas aspirações de um vasto grupo masculino.

abut-1.jpg!Blog.jpg Encuentro (1959, por Remedios Varo


Raquel G. Rebelo

Curiosa, cativada pela arte de escrever e fotografar. Autora de infinitas páginas de moleskine, aprecia sobretudo a criação espontânea..
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