esboços de uma sociologia lírica

O cotidiano pensado a partir de uma sociologia despretensiosa embebida de artes, prazeres e afetos.

Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda.

Amores imaginários... Existem outros?

Uma pequena análise da película Amores Imaginários (Les amours imaginaires, Xavier Dolan, 2010) e do que ela pode nos dizer do amor hoje.


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Ainda me lembro da primeira vez que assisti a esse filme que me cativou aos poucos. Eu mal havia chegado à Montreal e meus ouvidos ainda sofriam com o forte sotaque quebecois, no que quase todas as frases pareciam se traduzir em: “você não aprendeu nada de francês em suas aulas”. Desde a primeira vez, mesmo sem entender muito bem o francês do Québec, o filme me chamou atenção por um elemento constante e fundamental na narrativa, denunciado explicitamente em seu título: Amores Imaginários.

Iniciemos pelo óbvio: o filme narra uma espécie de triângulo amoroso platônico, onde os amigos Marie (Monia Chokri) e Francis (Xavier Dolan) se apaixonam pelo sedutor e ambíguo Nicolas (Niels Schneider). Aos poucos, cria-se um clima de disputa entre os amigos, potencializado pelas demonstrações de afeto fáceis e insinuantes, mas também imprecisas de Nicolas.

É bem simples. Francis deseja Nicolas, que o trata afetuosamente. Marie deseja Nicolas, que a trata afetuosamente. Francis e Marie disputam a atenção e o afeto de Nicolas e, a cada momento, a vantagem parece estar de um lado diferente.Uma sequência primorosa que expressa isso se dá ao som da canção Bang bang, na voz de Dalida – o que já sugere um duelo –, onde os dois se preparam para ir ao encontro de Nicolas em um café. A imponência com que Dolan filma Marie em câmera lenta, sua chegada ao café e o desolamento contido de Francis frente à reação muito mais interessada de Nicolas nesse momento é marcante.

No fim das contas, como o título já avisa, não era nada daquilo que os dois quase ex-amigos imaginavam. Apenas equívocos, não de comédias de erros típicas de Hollywood, mas algo talvez bem mais difícil para os olhares hollywoodianamente treinados: os (supostos) encontros e desencontros aqui são exclusivamente com as expectativas e desejos das personagens principais.

Não há destino, não há trombadas ocasionais, nem há deuses do cinema unindo mortais com o poder encantado de um roteiro criando um romance. Em dado momento, Francis até se esforça para produzir esse efeito em Nicolas, ao comprar-lhe um presente e aguardá-lo impacientemente na rua por onde sabia que ele passaria para forjar um encontro ao acaso. Também em outro momento do filme, pode se ter a impressão de que Marie forja um encontro “por acaso” com Nicolas.

É curioso notar que Nicolas, o objeto dos amores do título, tem relativamente pouco espaço em cena. Somos apresentados com mais frequência a momentos alternados de Marie e Francis, sejam em encontros com outros parceiros, conversas ao telefone, escolhendo presentes para Nicolas ou cultivando fantasias com ele. Além disso, há as interpolações de depoimentos– com ares de documentário – de diferentes pessoas sobre suas decepções e neuroses amorosas.

Aliás, sobre os depoimentos: se em Harry e Sally (Rob Reiner, 1989), a história é intercalada por depoimentos de diversos casais – aparentemente mais maduros, sugerindo o sucesso de uma relação duradoura – falando de como se conheceram, Amores Imaginários é intercalado por narrativas de rompimentos, relações que se desgastaram, decepções e até mesmo obsessões. Aqui, não são filmados casais de mãos dadas, mas pessoas sozinhas, falando de relações que acabaram ou, às vezes, sequer começaram.

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Nisso, o que se destaca é que Amores Imaginários – que, não por acaso, é um título no plural – se refere a histórias na primeira pessoa do singular. Nicolas é, no máximo, um objeto de projeções – aliás muito distintas – de Francis e Marie. Os personagens estão sós com seus desejos e elucubrações. Mesmo em cenas de sexo com outros parceiros, estão completamente alheios, fora dali.

Assim, eles constroem, cada um para si, seu amante imaginário, baseando-se num amplo repertório de imagens, filmes, romances e outras idealizações. A cena da festa em que Marie e Francis assistem a Nicolas dançando com sua mãe é emblemática:

Ao olhar de Marie, são intercaladas imagens de esculturas clássicas, enquanto, ao olhar de Francis, são gravuras de traços mais modernos, que fogem às normas clássicas de representação precisa do corpo humano e sua anatomia. Cada um aprecia o mesmo objeto à luz de referenciais estéticos completamente diferentes. São olhares altamente pessoalizados de um personagem e de outro, amparados em seu imaginário, projetados em um terceiro, que está distante e completamente indiferente.

É interessante observar também que, mesmo marcando diferenças claras com o cinema hollywoodiano, o cinema do Québec não ignora suas referências e dialoga com elas. Vemos de um lado, Francis que vai ao salão e, sem palavras, mostra uma foto de James Dean para indicar como deseja seu corte de cabelo. De outro, Marie por vezes adota em seu visual e trejeitos, referências a Audrey Hepburn, chegando a evocar uma fala de Holly Golightly em Bonequinha de Luxo (Blake Edwards, 1961).Além disso, as citações e referências a outros filmes aparecem nos diálogos, como no momento em que Marie compara a mãe de Nicolas a uma personagem de Blade Runner (Ridley Scott, 1982).

Somos apresentados então aos amores imaginários de Marie e Francis não como construções totalmente subjetivas, mas a imaginários produzidos conforme repertórios culturais bem específicos que, em grande medida, são constituídos por referências do cinema de grande público, geralmente hollywoodiano.

Há um processo imaginário individual, sem dúvidas, mas esse processo aciona um repertório de imagens amplamente difundido e reconhecido graças a meios de comunicação de massas. E é precisamente esse reconhecimento amplo que facilita a comunicação, frequentemente, sem recorrer a palavras ou explicações. Usamos essas referências em nosso imaginário para reconhecer, classificar e expressar sentimentos variados e, às vezes, amor, sendo pouquíssimo disso necessariamente apoiado em experiências de “realidade concreta”.

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Diferentes autores – Stendhal, Solomon, Chaumier, Eraly – já apontaram a importância fundamental da imaginação para a experiência amorosa. A construção do outro não somente pela idealização, mas também na ausência; o valor do lembrar, antecipar, construir mentalmente o outro para amá-lo não são novidades na história do amor romântico ocidental. Aprendemos a reconhecer o amor primeiramente pelo imaginário, por como ele desperta certos estados e sensações independentemente do toque, da presença, da ação do ser amado. Ama-se o outro, em grande medida, independente dele e apesar dele. É como Francis e Marie amam Nicolas.

Não há juízo moral aqui; é apenas uma constatação que parte de como se aprende, se ensina e se reproduz – com algumas variações – o que é “amar” no mundo ocidental moderno, marcado pela cultura do consumo, pelo patriarcado, pela heteronormatividade e uma série de outras coisas que mereceriam um outro artigo.

Sendo o amor uma forma de comunicação, ao aprendermos esses referenciais, não estamos necessariamente negando a “realidade” e abraçando o delírio esquizofrênico – talvez algumas pessoas, mas não vem ao caso. Justamente por meio dessas referências é que conseguimos, muitas vezes, expressar o amor e corporificá-lo de forma tangível para o outro. E, por uma série de circunstâncias culturais e históricas, o que se aprendeu como sendo o amor legitimamente reconhecido passa necessariamente por intensa obra mental de nossa imaginação.

Não sabemos amar sem o amparo do imaginário e nem penso que deveríamos. O que aprendemos a significar como amor, em nossa cultura, vem de séculos de romances, poemas, pinturas, filmes que, em momento algum, se propuseram “reais”. E é precisamente essa ideia de superação e transgressão da realidade legitimada pela inspiração amorosa que tanto nos fascina.

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Assim, ainda que, involuntariamente, causem-nos impacto os discursos de “amor verdadeiro” que intentam desqualificar o imaginário como “falso”, convém ponderar que talvez eles sejam até mais falaciosos. Amamos e reconhecemos amor precisamente por nossa capacidade de investimento imaginário no mesmo. O resto são gestos, expressões, ações que só se concretizam porque foram motivados e previamente validados por algo construído e alimentado no campo do imaginário enquanto potência.

De forma que não é a “realidade” ou “irrealidade” de nossos amores que nos tortura, mas, precisamente, as dificuldades que produzimos para nós mesmos de uma leitura coerente dos fatos com nossas crenças e anseios. No fim das contas, amar é um exercício quase sempre solitário, na primeira pessoa do singular, entre um eu e um amado imaginado; exercício esse que ignora quase que completamente todo o resto da existência complexa e fascinante do outro, na medida em que um aceno, um piscar ou qualquer gesto que seja do outro já nos baste para sua coerência com o imaginado.

Amores “reais” então nada mais são que “amores imaginários” legitimados, mutuamente reconhecidos e incentivados. Não que isso seja pouca coisa, uma vez que, em nossa cultura, corresponde à própria experiência do amor em si: reunir imaginários para uma fuga ousada da realidade, já que ainda não inventamos, afinal, uma realidade que funcione tão bem quanto nosso imaginário.

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REFERÊNCIAS:

CHAUMIER, Serge. La déliaison amoureuse. Paris: Armand Colin, 1999. ERALY, Alain. L’amour éprouvé, l’amour ennoncé. in ERALY, Alain & MOULIN, Madeleine (org). Sociologie de L’amour. Université de Bruxelles, 1995. SOLOMON, Robert. About love – reinventing romance for our times. Lanham: Rowman & Littlefield, 1994. STENDHAL. Do amor. São Paulo: Martins Fontes, 1999.


Túlio Rossi

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