esboços de uma sociologia lírica

O cotidiano pensado a partir de uma sociologia despretensiosa embebida de artes, prazeres e afetos.

Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda.

Da realidade e suas vertigens

Quando a realidade se torna demais para mentes e olhares já bem adestrados ao mundo virtual.


homelessonline.jpg (Brian L. Frank for The Wall Street Journal, 2009)

Hoje, mais como observador passivo do que consternado ou revoltado, cheguei à seguinte constatação: Imersos no mundo virtual, desenvolvemos um profundo, vertiginoso e paralisante medo da realidade. Mas não é daquela realidade da criança morrendo de fome na fotografia premiada. Tanto menos, da iminente saidinha do banco que as câmeras de segurança, para nosso alívio, ajudam a contabilizar. Menos ainda, da violência policial que escolhe suas vítimas “indistintamente” a partir de determinada escala na paleta de cores social. Nada dessas realidades nos assusta. E, a julgar por seus registros e circulação nas redes sociais, tampouco as ignoramos.

Ao contrário, enaltecemos e repartimos essas doses de realidade, cumprindo nosso "dever": tornamos as redes sociais mais realistas e culpadas com as carcaças de animais estropiados ou com a brilhante notícia de que, em algum país aleatório, uma criança morre por segundo, não importa do quê. E, para coroar a informação, ilustra-se com uma foto igualmente aleatória de uma criança faminta genérica. A realidade das fotos não nos assusta, a selfie de um acidente de carro talvez incomode menos pelos ferimentos do que pelo enquadramento amador ou pela definição da câmera utilizada em comparação às fotos de espelho de academia.

Toda essa realidade das redes sociais e das fotos imediatas dos celulares está sob controle, devidamente escolhida, manipulada e reconfigurada, mesmo no bom e no mau uso do photoshop. Não é dela que temos medo, nem dela que nos escondemos. A contrário, nos alimentamos dela, embebedamos, excitamos e gozamos, sem moderação, dormindo o sono tranquilo dos bem informados e conscientes cidadãos da era da informação. Ou será que não?

Não se trata aqui de simples negação da experiência “real” pela imersão em relações e ferramentas virtuais. As experiências prosseguem: casais se formam e se desfazem via Tinder como ocorria antes via bares, boates, restaurantes cafonas e encontros desastrosos com amigos de amigos. Vagas são abertas e preenchidas em sites e aplicativos de empregos, Casais praticam sexo seguro fora de suas relações conjugais com toda a discrição garantida por esse ou aquele site. Não se pode afirmar que pessoas estão vivendo “menos” a realidade porque se utilizam de redes sociais e passam mais tempo de suas vidas conectadas a essas redes enquanto ignoram solenemente e sem constrangimento aqueles que ignorariam igualmente na falta de um celular.

01-Pollock-1950-Number-27.jpg (Pollock, number 27, 1950)

A realidade que nos assusta é outra, muito pior e muito mais caótica, posto que ela é o caos em si. Portanto, inominável, indescritível, incapaz de ser precisamente denunciada pela câmera de um celular. Assusta-nos, simplesmente, o fato de nos sentirmos incapazes de reconhecer sentido, coerência e continuidade em na existência ao nosso redor. As informações são várias; a consciência da diversidade – bem vinda, ainda que tardia – levou a uma constatação irremediável: a realidade é difusa, incoerente, caótica, matizada, diversificada.

Weber já teria sugerido, há mais ou menos um século, que a realidade, em seu todo, é caótica. Mesmo o cientista, em todo seu rigor e técnica metodológicos, só teria acesso a fragmentos de realidade. A interpretação – científica ou não – desses fragmentos estaria baseada em conexões de sentido estabelecidas entre elementos selecionados dessa realidade. Ou seja, para entender minimamente o mundo e existir nele, faz-se, conforme os mais variados critérios – em geral socialmente aprendidos – uma seleção do que se acredita ser mais ou menos significativo. Com isso traçam-se limites relativamente bem definidos, de fácil apreensão que permitem, de forma convencionada, afirmar: “isto é real”.

Na maior parte dos casos, esse processo é – ou costuma ser – aceito sem grandes questionamentos, enquanto convenções. Convenções confirmadas pelo costume, pelo discurso “científico”, pelas religiões, pela “normalidade” tão facilmente reproduzida em meios de comunicação de massa anteriores ao advento da internet. Dessas instituições tradicionalíssimas, era consideravelmente improvável emergir algum discurso ou prática contrários ao que já estava convencionado. Os que escapavam dessa convenção eram marginalizados, inclusive na qualidade de tema para discussão. Sempre existiram, mas a eles era facultada uma “realidade” muito restrita, aquela do mundo privado onde, conforme a crença de uns, tece-se a colcha de retalhos de pecados a ser oferecida nas confissões para ser queimada em troca de indulgências.

midia tv.jpg (autoria desconhecida)

A televisão – especialmente o telejornalismo – tinha um papel fundamental nessa construção da realidade: em seu “compromisso com a verdade”, mediadores maravilhosos filmavam de atrocidades cometidas por “terroristas” a descobertas científicas que comprovadamente tornavam melhor a vida do cidadão comum. Essa realidade, como sempre caótica, parecia bem delineada conforme critérios de edição e pauta jornalística.

Eu diria que houve uma mudança significativa nas formas de experiência, mas para muito além de um binômio simplista que oponha qualitativamente “real” e “virtual”, como se a noção de virtualidade fosse um novo demônio. Sem juízos de valores, penso que as formas de “experimentar” a “realidade”, definir seus critérios, desenhar e reconhecer seus contornos e limites foram profundamente transformadas. Dessa forma, deve parecer contraditória minha tese de que vivenciamos, de forma peculiar na história, a experiência do medo da realidade. Explico.

A internet tem permitido para muitos a constatação do que para outros – socialmente tratados como “pontos fora da curva” – já era notícia velha: a realidade é um caos de discursos, conflitos, lutas por poder, contradições, informações desconexas, gritos, sons, arrepios, anúncios de sabonete, cheiros, provocações, pelos pubianos e tudo mais que se puder enumerar. E nada disso serve – e jamais serviu – a um sentido único, comum, a um todo coerente. Não há coerência em pedir o fim da violência e aplaudir o assassinato de mais um jovem negro no morro. Não há coerência em afirmar que deseja uma mulher livre e independente para se casar, mas controlar seus horários, amizades ou vestuário e incumbi-la de lavar a roupa.

A internet não tornou o mundo mais incoerente do que era antes, mas permitiu, por meio da diversidade e do acesso à informação e a diferentes vozes, notar o quanto se tornam insustentáveis alguns discursos de coerência a que nos habituamos graças ao serviço de seleção, corte e montagem, por muito tempo, muito bem executado pelas instituições religiosas, de ensino e de telecomunicações. Agora, por razões diversas, essas instituições já se revelaram incapazes de fabricar de forma eficaz uma coerência palatável e suficiente para esse mundo sempre absurdo em que vivemos. Daí, esse serviço vem sendo gradativamente transferido para o usuário.

Cinefex-Zero-Theorem.jpg (Terry Gilliam, The Zero Theorem, 2013)

Nisso, as redes sociais e aplicativos variados acenaram com a possibilidade de ajudar o usuário, abandonado em sua idealizada individualidade, a fabricar, por si, esse todo coerente e abrangente, a partir de fotos, pensamentos, notícias, vídeos, impressões, declarações e testes de personalidade. A sedução das redes sociais e do “mundo virtual” tecnológico como o entendemos hoje se encontra então na possibilidade de exercitar um suposto controle da realidade.

Tornamo-nos, ao mesmo tempo que seus consumidores, seus mediadores, o que nos permite sensações de relativo conforto e segurança, repousados em nossa construção do sentido. Usar um aplicativo de relacionamentos a partir de critérios pré-estabelecidos de elegibilidade reduz a ansiedade de uma série de contingências no complexo jogo da sedução; uma notícia compartilhada de um periódico de determinada orientação política permite “separar o joio do trigo”, mais do que, efetivamente, conviver com a diferença.

No fundo, boa parte dos usuários sabe que praticamente ninguém dá a mínima para o que expõem tão exaustivamente em seus diversos perfis. Mas não é a um potencial público virtual que isso serve e talvez não seja tanto para alimentar as famigeradas ânsias narcísicas que adoramos acusar nos demais – especialmente quando suas fotos são boas. Penso, simplesmente, que é uma forma de mapear para si alguns pontos de realidade, de suposta ordem ou lógica para ligar depois e delimitar aquilo que se “é”. Como migalhas de pão deixadas pelo caminho na história de João e Maria.

Mas, além de termos enchido essas migalhas de granulado colorido, estamos a jogá-las sobre um tapete já espesso de migalhas de milhões de usuários. No fim, não achamos o caminho de volta para casa, não porque os pássaros devoraram nossas pistas – os que tentaram padeceram de indigestão, mas estão confortavelmente soterrados na grossa camada que deixamos – mas porque elas já não se distinguem do resto da floresta.

O que aterroriza é essa realidade, impassível à manipulação, independente de nossa interpretação, de nossa lógica, de nossa crença e, principalmente, de nossos desejos e projetos. Deste modo, a ilusão de controle e a seletividade facultadas pelas redes sociais são uma boia salva-vidas num oceano vastamente poluído. Ou apenas um pneu velho ao qual conseguimos nos agarrar. Impossível distinguir, afinal.


Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda..
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